Ao menos 94 conteúdos foram direcionados à parlamentar no período de um ano
Por Ayanne Gomes
Um relatório técnico de análise de redes sociais identificou indícios de uma campanha sistemática de ataques digitais contra a vereadora Brisa Bracchi (PT), líder da oposição na Câmara Municipal de Natal. O levantamento mostra que, ao longo de 12 meses, o vereador Matheus Faustino (União Brasil), ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL), publicou ao menos 94 conteúdos direcionados à parlamentar, incluindo postagens com manipulação de imagens por inteligência artificial, acusações sem comprovação e conteúdos que estimularam hostilidade e ameaças nos comentários.
As postagens foram feitas entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026 e incluem 63 publicações no Instagram e 31 no YouTube, todas com menções diretas ou referências claras à vereadora.
A análise aponta que a frequência e o padrão das publicações indicam uma estratégia contínua de desgaste político nas redes sociais, marcada por ataques pessoais, manipulação de imagens e mobilização de seguidores contra a parlamentar.
O relatório aponta ainda que as condutas identificadas se enquadram em práticas descritas na Lei nº 14.192/2021, que tipificou o crime de violência política contra a mulher. O artigo 326-B do Código Eleitoral define como crime:
“Assediar, constranger, humilhar, perseguir ou ameaçar, por qualquer meio, candidata ou detentora de mandato eletivo, utilizando-se de menosprezo ou discriminação à condição de mulher ou à sua cor, raça ou etnia, com a finalidade de impedir ou dificultar o desempenho de seu mandato.”
A legislação considera violência política de gênero qualquer ação ou conduta que tenha como objetivo cercear direitos políticos das mulheres parlamentares, inclusive em ambientes digitais.
Ataques acompanham série de denúncias e pedidos de cassação
O período analisado coincide com a escalada política que resultou na abertura de cinco denúncias apresentadas pelo próprio vereador: dois pedidos de cassação contra a parlamentar na Câmara Municipal, uma representação na Comissão de Ética da Casa e outras duas denúncias protocoladas no Ministério Público.
De acordo com o relatório, o aumento no volume de conteúdos segue um padrão que busca legitimar essas denúncias — algumas delas elaboradas com apoio de ferramentas de análise automatizada por IA — como ocorreu no pedido de abertura de processo de cassação que continha apenas uma lauda. O documento aponta que a sistematização e a repetição desses conteúdos tiveram como objetivo dar aparência de consistência a acusações frágeis, construindo uma narrativa política de ataque ao mandato.
Montagens e manipulação digital
A análise técnica identificou o uso frequente de manipulação digital de imagens, incluindo alterações produzidas com recursos de inteligência artificial, além de acusações públicas sem apresentação de provas.
Em uma das publicações analisadas, a capa de um vídeo traz a frase “Petista quer extorsão do Carrefour”, sem evidências que sustentem a acusação.
Também foram identificadas montagens nas quais foram inseridas digitalmente lágrimas no rosto da vereadora, além de alterações na fisionomia utilizadas para reforçar a ridicularização da parlamentar.
Segundo o relatório, os conteúdos apresentam indícios de violência política de gênero, combinados com estratégias de exposição negativa e desinformação.
Ambiente de hostilidade nas redes
A análise dos comentários nas publicações aponta a existência de um ambiente recorrente de hostilidade.
O relatório identificou:
- mais de 80 comentários com incitação ao ódio;
- mais de 60 manifestações de violência política de gênero;
- cerca de 60 comentários com teor misógino;
- aproximadamente 40 comentários com ameaças ou incentivo à violência.
Foram classificadas sete categorias diferentes de ataques no Instagram e seis no YouTube. Nesta última plataforma, pelo menos 50% dos comentários continham incitação ao ódio, enquanto 42% apresentavam violência política de gênero direta.
Mais da metade dos comentários analisados — 54% — reproduziam ou amplificavam diretamente falas feitas pelo próprio vereador.
Entre os registros citados no relatório, um seguidor escreveu:
“Se existisse pena de morte para político que faz mau uso de verba pública, essa mulher corajosa perdia a coragem rapidinho.”
Apelidos, desqualificação e ataques pessoais
O relatório aponta que os ataques são frequentemente incentivados pelo próprio vereador, que em diversas ocasiões se refere à parlamentar com apelidos como “vereadora franjinha”, numa tentativa de desqualificação pública baseada em características físicas.
Esse tipo de abordagem aparece reproduzido nos comentários, com expressões como “imunda sebosa” e “maconheira, sua imunda”.
Em diferentes publicações, a vereadora também foi chamada de “vagabunda”, “do job” e “verme petista”.
Associação com vítima de violência doméstica
Um dos episódios destacados no relatório foi a associação feita entre Brisa e Juliana Garcia dos Santos Soares, vítima agredida pelo então companheiro com 61 socos dentro de um elevador em Natal.
Segundo o documento, a associação foi utilizada para estimular ataques virtuais, gerando reações como:
“Essa safada da franjola (…), bora exterminar com o mandato dessa hipócrita.”
Caso foi levado ao TSE
O relatório conclui que a análise sistemática dos dados ao longo de um ano identifica um padrão coordenado de violência política de gênero contra a vereadora, que também já foi alvo de ameaças de morte e de estupro coletivo.
“A violência política de gênero fere a democracia brasileira. Ela nasce do ódio à divergência e da incapacidade de respeitar a presença das mulheres na política. O relatório apenas confirma o que venho sentindo na pele há um ano: um cotidiano de ataques com o único objetivo de derrubar o nosso mandato. Seja por meio de denúncias infundadas e sucessivos pedidos de cassação, seja pela tentativa de nos desgastar com a repetição de violências nas redes sociais. Mas não conseguirão. Vamos demonstrar que a democracia não é um jogo sem regras e que a violência política não pode ser usada como instrumento para silenciar mandatos legitimamente eleitos.”
Diante do cenário de hostilização crescente, no início de fevereiro a parlamentar levou a denúncia a Brasília e apresentou o caso oficialmente ao Observatório Permanente de Combate à Violência Política do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), onde seguirá sendo analisado. A parlamentar formalizou ainda uma denúncia contra o vereador na Comissão de Ética na Câmara de Natal, tendo como base Lei da Violência Política de Gênero.

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Por Ayanne Gomes, comunicadora social com atuação na área política e foco na defesa da democracia, dos direitos humanos e no combate ao fascismo. Dedica-se à análise e à produção de conteúdo voltado ao debate público e à informação de interesse coletivo.

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