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A aposta falha de EUA e Israel pois Irã mantém comando e desafia Washington

A aposta de Estados Unidos e Israel em desorganizar o comando político e militar do Irã por meio de bombardeios seletivos esbarra num limite estrutural que Washington parece subestimar. Segundo reportagem do South China Morning Post, analistas avaliam que a liderança iraniana deve preservar capacidade de reposição e continuidade mesmo após a morte de figuras […]

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A aposta de Estados Unidos e Israel em desorganizar o comando político e militar do Irã por meio de bombardeios seletivos esbarra num limite estrutural que Washington parece subestimar.

Segundo reportagem do South China Morning Post, analistas avaliam que a liderança iraniana deve preservar capacidade de reposição e continuidade mesmo após a morte de figuras centrais do Estado e da segurança nacional desde o início da ofensiva, em 28 de fevereiro.

O ponto decisivo é simples: a República Islâmica não funciona como um regime personalista dependente de um único líder ou de um círculo estreito de poder.

A comparação com a Venezuela ajuda a entender a diferença. No caso venezuelano, a operação relâmpago conduzida pelos Estados Unidos no início do ano teve como eixo a captura direta da chefia do Executivo, incluindo Nicolás Maduro e sua esposa, em uma ação de poucas horas.

No Irã, o desenho estatal é outro. Teerã dispõe de instituições mais capilarizadas, de uma burocracia consolidada, de forças armadas e de segurança com múltiplos centros de comando e de uma cultura política moldada por décadas de cerco externo, sanções e ameaça militar.

Em outras palavras, trata-se de um Estado preparado para funcionar sob pressão extrema. Essa característica ajuda a explicar por que a estratégia de “decapitação” encontra obstáculos muito maiores do que os imaginados por seus formuladores.

O chanceler iraniano Abbas Araghchi resumiu essa visão em entrevista à Al Jazeera, citada pelo jornal de Hong Kong. Para ele, indivíduos importam, mas o elemento decisivo é a solidez do sistema político.

A fala não deve ser lida apenas como retórica de guerra. Ela expressa uma característica histórica do Irã pós-1979: a construção de mecanismos institucionais de continuidade justamente para impedir que a eliminação física de lideranças produza colapso imediato.

É esse arranjo que dificulta a estratégia promovida por Washington e Tel Aviv. A guerra entrou na quarta semana, com Donald Trump ameaçando ampliar a presença militar dos Estados Unidos na região por meio do envio de mais navios de guerra e fuzileiros.

Ao mesmo tempo, a Casa Branca sinalizou uma pausa temporária de cinco dias nos ataques a usinas de energia. O gesto ocorreu em meio à disparada dos preços do petróleo e ao risco de agravamento econômico global.

Esse detalhe é mais importante do que parece. Ele mostra que a ofensiva militar não ocorre num vácuo geopolítico, mas dentro de um sistema internacional já tensionado por inflação energética, fragilidade logística e disputas comerciais entre grandes potências.

Quando o petróleo sobe de forma abrupta, o impacto ultrapassa as fronteiras do conflito. A Europa, subordinada à estratégia dos Estados Unidos e ao mesmo tempo vulnerável ao custo da energia, paga parte dessa conta com mais intensidade.

Os países importadores do Sul Global também sofrem. Economias como a brasileira podem enfrentar repasses em combustíveis, fretes e alimentos, o que transforma a guerra no Irã em problema concreto para muito além do Oriente Médio.

Por isso, o conflito não é um tema distante para o Brasil. Ele afeta preços, estabilidade internacional, rotas comerciais e o ambiente diplomático em que Brasília tenta defender uma ordem multipolar baseada em negociação e respeito ao direito internacional.

A insistência de Washington em resolver disputas por meio da força volta a expor a crise de legitimidade do chamado “Ocidente liberal”. Quando os Estados Unidos falam em soberania e democracia para uns, mas apoiam ou participam de bombardeios contra outros, o que aparece é a aplicação seletiva das normas internacionais.

No caso iraniano, essa contradição surge de forma ainda mais nítida. Israel, potência militar da região e Estado com longa trajetória de agressões e ocupação, age com respaldo político e militar de Washington, sob a justificativa formal da segurança.

O efeito concreto, porém, é a ampliação do caos regional. A experiência histórica sugere que campanhas aéreas podem destruir infraestrutura e matar quadros dirigentes, mas raramente conseguem, sozinhas, desmontar sistemas políticos com base social, aparato coercitivo organizado e narrativa nacional de resistência.

Foi assim em diversos conflitos recentes. A ideia de que bastaria eliminar nomes importantes para provocar implosão interna ignora a forma como o poder é distribuído no Irã e subestima o nacionalismo que costuma emergir quando um país é atacado externamente.

Mesmo setores críticos ao governo tendem a reagir de outra maneira diante de uma guerra aberta patrocinada por potências estrangeiras. A agressão externa, em vez de enfraquecer automaticamente o regime, pode reforçar sua legitimidade defensiva e ampliar a coesão entre instituições civis, militares e religiosas.

Esse é um dos riscos centrais da estratégia atual. O ataque pensado para paralisar o Estado pode acabar fortalecendo exatamente os mecanismos políticos e simbólicos que garantem sua sobrevivência.

Além disso, o Irã não está isolado como em outros momentos do passado. A consolidação de um mundo mais multipolar, com China e Rússia atuando como polos de poder e com o fortalecimento político do Sul Global, reduz a capacidade dos Estados Unidos de impor desfechos rápidos por vontade unilateral.

Isso não significa que Teerã esteja imune a danos profundos. As perdas humanas, os impactos sobre infraestrutura e o desgaste econômico são reais, e resiliência não é sinônimo de invulnerabilidade.

Significa, isto sim, que o objetivo político central de derrubar ou paralisar o Estado iraniano pode fracassar mesmo em meio a enorme destruição. É justamente esse contraste entre expectativa de colapso e avaliação mais cautelosa dos analistas que o South China Morning Post destaca.

A mensagem é clara. O Irã não é um alvo simples de neutralização, e a guerra pode se transformar em mais um atoleiro estratégico para Washington e seus aliados.

Para o Brasil, a lição é dupla. Primeiro, a escalada confirma a urgência de uma política externa ativa em defesa do cessar-fogo, da negociação e do multilateralismo, sem submissão ao discurso belicista do eixo atlântico.

Segundo, reforça a necessidade de pensar soberania energética, autonomia diplomática e integração com o Sul Global como respostas concretas a um mundo cada vez mais instável. Num cenário em que guerras regionais se convertem rapidamente em choques de preços e pressão geopolítica, dependência custa caro.

No fundo, o que está em jogo vai além do destino do governo iraniano. A disputa envolve o direito de países não alinhados existirem fora da tutela militar dos Estados Unidos e de seus aliados regionais.

Se a resistência iraniana se confirmar, seu significado será maior do que o de uma simples sobrevivência nacional. Em grande parte do Sul Global, ela será lida como mais um teste da capacidade de conter o unilateralismo armado que há décadas desorganiza regiões inteiras em nome de uma ordem que já perdeu boa parte de sua força de convencimento.

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