Pesquisadores da University of Maryland e da University of Concepción, no Chile, identificaram recentemente um circuito cerebral até então desconhecido que sinaliza ao organismo para interromper a ingestão de alimentos — e ele não começa nos neurônios, mas em outras células antes negligenciadas. A descoberta foi publicada em 6 de abril de 2026, no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences, com implicações potentes para o tratamento de obesidade e distúrbios alimentares. A fonte ScienceDaily divulgou os pormenores.
O mecanismo inicia-se quando há ingestão de alimento e os níveis de glicose no fluido cefalorraquidiano elevam-se. Células chamadas tanycitos, localizadas no hipotálamo, detectam essa alteração e convertem glicose em lactato, metabólito que anteriormente se acreditava seguir diretamente aos neurônios. A fonte EurekAlert! apresenta este estudo.
O lactato ativado por esse processo estimula células gliais conhecidas como astrócitos através de um receptor denominado HCAR1. Ao receber o sinal, os astrócitos liberam glutamato capaz de excitar neurônios cuja função é inibir o apetite — os chamados neurônios de saciedade. Conforme se descreve no relatório da EurekAlert!, esta ativação estabelece um caminho eficaz de sinalização.
Adicionalmente, foi observado efeito duplo: à medida que astrócitos ativam neurônios de saciedade, há indícios de que esse mesmo circuito silencia neurônios responsáveis pela promoção do apetite, reforçando a mensagem de interrupção alimentar por duas frentes. A esse respeito, o estudo sugere mecanismos de interconexão celular mais amplos do que se previa anteriormente.
O experimento foi conduzido em modelos animais, mas há relevância para humanos, uma vez que tanycitos e astrócitos constituem componentes presentes em todos os mamíferos. Investigações futuras visam testar se manipular o receptor HCAR1 nos astrócitos pode ajustar padrões de comportamento alimentar, possivelmente oferecendo novos alvos terapêuticos.
Essa via descoberta engloba química entre células, comunicação intercelular e circuitos cerebrais complexos — vai além da noção simplista de que apenas neurônios determinam se a ingestão alimentar deve cessar. Araneda, professor da University of Maryland, declara que essa compreensão amplia o campo terapêutico, podendo complementar abordagens existentes como o uso de Ozempic, considerando que nenhum medicamento atualmente atua especificamente nessa rota celular identificada.
O trabalho decorreu ao longo de quase uma década, liderado também por María de los Ángeles García-Robles, da instituição chilena, e coorientado pelo doutorando Sergio López. Desvelou-se um interruptor cerebral oculto — uma interseção tênue entre ciência, descobertas metabólicas e esperança para indivíduos com doenças alimentares ou excesso de peso.


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