A escala 5×2 consolidou-se como modelo majoritário entre os trabalhadores formais no país. Estudo promovido pelo Ministério do Trabalho e Emprego que cruza dados do eSocial e da Fundação Getulio Vargas revela que 66,8 por cento dos empregados com carteira assinada, o equivalente a cerca de 29,7 milhões de pessoas, já atuam sob essa jornada.
Entre as empresas que adotaram o sistema, 72 por cento registraram aumento direto de receita e 44 por cento informaram melhora no cumprimento de prazos operacionais. O custo adicional médio na folha de pagamento ficou em torno de 4,7 por cento, com variação entre 1,6 e 10,5 por cento conforme o setor.
Conforme apontou o portal Diap em sua análise do levantamento governamental, a mudança transcende o simples ajuste de folgas semanais. Setores com atendimento presencial intenso, como varejo, indústria, hotéis e supermercados, enfrentam a necessidade de revisar logísticas completas, redistribuir atividades, requalificar equipes, adotar tecnologias de gestão e absorver investimentos diretos na remuneração.
Hotéis de luxo como o Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, e o Palácio Tangará, em São Paulo, implementaram folgas duplas semanais mantendo a carga horária total e elevaram o aporte em negociação sindical, orçamento e programas de bem-estar e capacitação profissional.
No varejo, grandes redes como DPSP, que reúne Drogarias Pacheco e São Paulo, e a H&M redefiniram escalas em lojas físicas, escritórios e centros de distribuição. As empresas sustentam que a medida favorece o bem-estar dos colaboradores, a atração de talentos e a retenção de profissionais qualificados sem alterar a jornada semanal de 44 horas.
A transição, porém, exige planejamento minucioso para cobrir horários de pico de demanda e evitar interrupções nos serviços.
No campo legislativo, avançam pelo menos duas propostas de emenda à Constituição. A PEC 67/25 e a PEC 8/25 buscam fixar a jornada máxima de 40 horas semanais e garantir dois dias consecutivos de descanso, preservando o valor dos salários.
O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, defendeu em audiência pública que a economia reúne condições técnicas e econômicas para realizar essa transição de forma ordenada. A discussão ganha força à medida que o modelo 5×2 deixa de ser apenas bandeira sindical para se tornar realidade operacional em larga escala.
Especialistas e entidades do setor produtivo alertam, contudo, para riscos caso a redução de jornada ocorra sem ganhos equivalentes de produtividade. Estimativa do Centro de Liderança Pública projeta perdas de até 640 mil empregos se a mudança for implementada de maneira abrupta.
O comércio aparece como o segmento mais vulnerável, com possível queda de 1,3 por cento na produtividade e eliminação de cerca de 164 mil vagas sem ajustes compensatórios. Empresas com processos desorganizados, controles rígidos de ponto ou metas mal alinhadas tendem a sentir maior pressão no curto prazo.
A nova configuração exige indicadores precisos de produtividade por hora trabalhada, adequação setorial aos horários de maior movimento e transformação cultural na liderança, com ênfase em comunicação clara e definição objetiva de metas.
Além do impacto direto na folha, surgem custos indiretos com contratação de pessoal adicional, implantação de ferramentas tecnológicas de gestão, treinamentos intensivos e requalificação profissional. Nos hotéis de luxo citados, o processo demandou quase um ano de preparativos, incluindo estudos orçamentários detalhados e negociações com sindicatos.
A escala 5×2 coloca o país diante de um ponto de inflexão entre pressão social por melhores condições de trabalho, iniciativas legislativas e demandas concretas de eficiência operacional. Setores sensíveis revisam rotinas completas para manter competitividade enquanto acompanham o debate sobre a jornada de 40 horas. A experiência acumulada por empresas que já migraram para o modelo serve de referência para que outros negócios antecipem ajustes necessários em processos, cultura organizacional e indicadores de desempenho.
Com informações de cartacapital.com.br.
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