Há cerca de 100.000 anos, o Texas Central abrigava um tatu do tamanho de um leão e tartarugas com carapaças de 1,3 metro — em meio a florestas úmidas onde hoje há pradarias secas. A descoberta em Bender’s Cave, após seis expedições entre 2023 e 2024 nos rios subterrâneos do sistema, desafia o modelo climático dominante para o Edwards Plateau.
Paleontólogos da Universidade do Texas liderados por John Moretti e o explorador John Young identificaram fósseis de espécies exigentes em calor e vegetação densa: o grande tatu-pampathere Holmesina septentrionalis, tartarugas gigantes do gênero Hesperotestudo, mastodontes e preguiças terrestres. Esses animais dependiam de ambientes úmidos e florestas fechadas — bem diferentes das paisagens abertas e frias que se achava terem dominado a região durante o Último Máximo Glacial.
As tentativas de datar os fósseis por radiocarbono falharam devido à contaminação por água carbonatada nos ossos. Em vez disso, os cientistas agora estudam uma crosta de calcita mineralizada sobre os ossos, formada logo após a deposição, para estabelecer uma idade mínima. A hipótese mais forte aponta para o Estágio Isotópico Marinho 5 (MIS 5), o último interglacial quente, entre aproximadamente 112.000 e 130.000 anos atrás.
Uma análise estatística de agrupamento hierárquico comparou os fósseis de Bender’s Cave com outros 43 sítios pleistocênicos no Texas, revelando que essa caverna se assemelha mais a locais do MIS 5 do que às regiões associadas ao período glacial tardio. As evidências indicam um ambiente de floresta úmida, similar ao de regiões costeiras e do norte do Texas durante esse interglacial.
Espécies como Holmesina podiam atingir tamanhos comparáveis aos de um leão, enquanto Hesperotestudo apresentava carapaças de cerca de 1,2 a 1,3 metros — dimensões que exigem um ecossistema capaz de sustentar calor constante e abundante vegetação. Estes dados confrontam mapas climáticos digitais que mostravam o Edwards Plateau dominado por pradarias frias há dezenas de milhares de anos.
Os fósseis parecem ter sido arrastados para o interior da caverna por inundações, normalmente através de sumidouros naturais, depositando-se sobre lama e sedimentos de córregos subterrâneos. A água rica em minerais gerou crostas de calcita que selaram os ossos logo após seu depósito, preservando boa parte sem necessidade de escavação pesada.
Esse achado sugere que o clima do Pleistoceno tardio no Sul dos EUA era mais diversificado do que se supunha. Se confirmado o interglacial cálido, modelos de mudança climática devem incorporar flutuações regionais omitidas em dados anteriores — com impactos diretos sobre previsões paleoclimáticas, práticas de conservação e estimativas de reação da fauna e da flora ao aquecimento. Além disso, reforça a importância da pesquisa regional e de metodologias inovadoras como a datação de minerais e análises estatísticas avançadas para reconstruir nosso passado, o que pode oferecer lições valiosas diante da crise climática atual.
Com informações de zmescience.com.


Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!