A ideia de que o universo não terá um fim definitivo, mas sim um colapso seguido de renascimento em ciclos sucessivos, voltou ao centro do debate científico com força renovada.
O catalisador mais recente é o conjunto de dados produzido pelo Instrumento Espectroscópico de Energia Escura (DESI), que sugere que a energia escura — a força responsável pela expansão acelerada do cosmos — pode estar perdendo intensidade ao longo do tempo.
Se essa tendência se confirmar em observações futuras, a gravidade poderia, em bilhões de anos, reverter a expansão e iniciar uma fase de contração universal. Esse cenário é exatamente o que a cosmologia cíclica prevê como pré-condição para um novo ciclo cosmológico.
A teoria ganhou defensores inesperados em um evento recente promovido pela revista New Scientist dedicado ao futuro do cosmos. Catherine Heymans, Astrônoma Real da Escócia, declarou abertamente sua afinidade pela proposta, destacando a elegância matemática e a simetria conceitual que ela oferece em relação às teorias de fim único do universo.
Adam Riess, laureado com o Nobel de Física de 2011 junto a Saul Perlmutter e Brian Schmidt pela descoberta da expansão acelerada do universo, também reconheceu o apelo intelectual da cosmologia cíclica. Para Riess, a teoria tem a vantagem de eliminar a singularidade de um universo único, abrindo espaço para múltiplos ciclos e, consequentemente, múltiplas janelas para o surgimento da vida e da complexidade.
O maior obstáculo teórico à cosmologia cíclica continua sendo a segunda lei da termodinâmica, que estabelece que a entropia de um sistema fechado nunca diminui espontaneamente. Em termos práticos, isso significa que cada ciclo herdaria a desordem acumulada do anterior, tornando ciclos verdadeiramente idênticos impossíveis e levantando a questão de como o universo poderia reiniciar suas condições iniciais.
O físico teórico britânico Roger Penrose desenvolveu uma resposta própria a esse impasse com a chamada Cosmologia Cíclica Conforme (CCC), uma teoria independente e matematicamente elaborada.
A CCC propõe que, em escalas de tempo suficientemente longas, o universo perde toda referência de escala — partículas massivas desaparecem e apenas radiação permanece — tornando o estado final de um ciclo estruturalmente indistinguível, em termos conformes, do estado inicial de um novo Big Bang.
A proposta de Penrose não é uma correção ad hoc ao problema da entropia, mas uma reformulação geométrica profunda da cosmologia, baseada na invariância conforme da geometria do espaço-tempo. Ela implica que ecos do ciclo anterior poderiam, em princípio, ser detectados na radiação cósmica de fundo — e Penrose afirma ter identificado candidatos a essas assinaturas, embora a interpretação dos dados permaneça em debate entre os especialistas.
Riess foi preciso ao delimitar as fronteiras do conhecimento atual: sem uma compreensão consolidada sobre a natureza da energia escura — se é uma constante cosmológica, um campo dinâmico ou algo ainda não catalogado pela física — qualquer previsão sobre o destino final do universo permanece especulativa.
Os dados do DESI abriram uma fissura na cosmologia padrão, mas ainda não são suficientes para fechar o debate em favor de nenhuma teoria.
O que está em jogo não é apenas uma questão de elegância teórica. A resposta sobre se o universo termina em expansão eterna e fria, em colapso gravitacional ou em renascimento cíclico determina a estrutura ontológica mais fundamental da realidade física — e os próximos anos de observação astronômica prometem estreitar, de forma decisiva, o campo de possibilidades.
Com informações de newscientist.com.
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Eduardo C.
17/04/2026
Interessante ver como novos dados do DESI reacendem o debate sobre a cosmologia cíclica. Contudo, é preciso analisar criticamente os números e as evidências antes de saltar para conclusões. Será que esses dados realmente sustentam a teoria ou estamos diante de uma interpretação precipitada?
Tadeu
17/04/2026
Interessante e tal, mas como é que isso afeta a inflação ou o mercado de ações? No final, o que me importa é o impacto no meu bolso.