A Secretaria de Polícia do Senado Federal (SPOL) abriu uma apuração para verificar informações sobre um suposto plano de atentado contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), após denúncias que ganharam repercussão nas redes sociais e envolveram o nome da influenciadora Deolane Bezerra.
O órgão registrou um boletim de ocorrência na tarde desta sexta-feira (29) e iniciou procedimentos para verificar a procedência e a extensão das informações recebidas.
A denúncia partiu de Misael Rangel da Silva e Souza, conhecido como MC Misa, funkeiro que ganhou notoriedade em 2016 com trabalhos lançados pela produtora KondZilla. Segundo o cantor, Deolane teria participado da articulação do suposto atentado, que envolveria integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) e pessoas ligadas à esquerda política.
A influenciadora está presa preventivamente desde 21 de maio, investigada por suposta participação em esquemas de lavagem de dinheiro ligados ao PCC. A prisão ocorreu em meio às investigações que apuram a estrutura financeira da facção criminosa, que expandiu suas operações para setores econômicos lícitos em diversos estados.
MC Misa coleciona polêmicas ao longo de sua trajetória. Em 2021, os influenciadores Ed Rocha Júnior e Tiane Felix registraram denúncia contra o artista na Polícia Civil de Santa Catarina por injúria racial e ameaça de morte.
Já em 2023, o funkeiro afirmou ter sido ameaçado por dois agentes públicos devido a uma dívida de R$ 30 mil em Ribeirão Preto (SP), mas os guardas civis metropolitanos citados foram inocentados pela investigação. O cantor também já havia acusado Deolane em 2024, quando foi processado por difamação após afirmar na internet que a influenciadora teria encomendado a morte de MC Kevin.
As investigações da Polícia Civil sobre a morte do funkeiro MC Kevin foram arquivadas em 2022 e apontaram que o óbito foi acidental, causado por uma queda. A acusação contra Deolane, portanto, já havia sido descartada pelas autoridades antes da nova denúncia.
Apesar da repercussão, a nota divulgada pela SPOL não cita Deolane nominalmente nem informa quem são os alvos específicos da apuração. Até o momento, não há confirmação oficial de que a influenciadora seja investigada pela Polícia do Senado em relação ao suposto plano, conforme apontou o portal Metrópoles.
A Polícia do Senado tem atribuição legal para investigar ameaças contra parlamentares e instalações do Congresso Nacional. A abertura de apuração não significa que os fatos narrados sejam verídicos, mas sim que a gravidade da denúncia exige verificação formal por parte do órgão de segurança da Casa.
A denúncia surge em um momento de intensa movimentação do clã Bolsonaro para blindar sua viabilidade eleitoral em 2026. Flávio Bolsonaro é um dos principais articuladores do PL e atua para manter o capital político da família mesmo após a inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A narrativa de vitimização, que coloca o senador como alvo de supostos planos de atentado, pode ser instrumentalizada para reforçar a coesão da base bolsonarista e pressionar por medidas de segurança institucional que favoreçam o discurso de perseguição política. Paralelamente, o envolvimento de Deolane Bezerra — figura com milhões de seguidores e já investigada por vínculos com o PCC — adiciona uma camada de complexidade ao caso.
Para o núcleo bolsonarista, a menção genérica a ‘pessoas ligadas à esquerda política’ na denúncia de MC Misa oferece munição retórica para atacar adversários e desviar o foco das investigações que atingem o próprio campo. O senador Flávio Bolsonaro já utilizou suas redes sociais para amplificar o caso, sem apresentar provas concretas que sustentem as alegações.
O uso político de denúncias sem comprovação não é novidade no ecossistema bolsonarista. Durante o governo de Jair Bolsonaro, foram frequentes as acusações de planos de atentado que jamais se materializaram, mas serviram para justificar medidas de exceção e ataques a adversários políticos.
A esquerda política, citada de forma vaga por MC Misa, não teve qualquer representante ou organização nominalmente apontado na denúncia que circulou nas redes. A imprecisão da acusação é, em si, um recurso retórico que permite atingir um espectro amplo de oponentes sem a necessidade de apresentar provas.
O histórico de acusações sem lastro feitas por MC Misa — incluindo a que foi arquivada sobre a morte de MC Kevin — impõe cautela na avaliação da nova denúncia. A SPOL mantém a apuração em andamento e não se pronunciou sobre prazos ou conclusões preliminares.
O episódio expõe como figuras com trajetória de acusações infundadas podem ser mobilizadas para alimentar narrativas de conveniência política. A blindagem eleitoral de 2026 passa, também, pela capacidade de manter o eleitorado bolsonarista em estado de alerta permanente contra supostas ameaças.
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