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O debate sobre o declínio de Dilma no Ibope

Por Miguel do Rosário

03 de abril de 2015 : 03h38

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Segundo a pesquisa CNI/Ibope, a aprovação à presidenta Dilma despencou brutalmente.

Passou de 52% para 19%.

A maior queda em três meses de um político que se tem notícia na história do mundo.

Diante da falta de criatividade do governo, que não conseguiu inventar um slogan decente após as eleições (o máximo que conseguiu foi desengavetar um “Pátria Educadora”, tirado de algum documento militar dos anos 50), o normal seria voltar ao que era antes da eleição, por volta de 44% em junho de 2014.

A história do ajuste fiscal, e uma situação econômica mais tensa, podem tirar aí, brincando, uns dez pontos.

O avanço dos ataques midiáticos nesses primeiros meses, violentíssimo, em função do inquérito da Lava Jato, também não ajuda a consolidar nenhuma popularidade.

Seria esperado, portanto, que Dilma estivesse com uns 30% a 34% de aprovação nesse período.

A queda no valor das ações da Petrobrás, no qual entram em jogo fatores geopolíticos  complexos, produz igualmente um dano na aprovação do governo.

Não é fácil lidar com Tio Sam e Dow Jones jogando juntos para ganhar dinheiro em cima dos brasucas ingênuos.

Entretanto, os números do Ibope revelam que Dilma sofreu pesadas baixas também junto a seu próprio eleitorado.

Dilma esqueceu que ganhou as eleições.

Esqueceu, sobretudo, como foi o processo eleitoral do segundo turno.

Dilma conquistou núcleos políticos e culturais fortíssimos.

Parte importante do eleitorado dilmista não aprova a Dilma de hoje, porque entendeu que ela ainda não provou que tem um coração valente para liderar a luta política contra a oposição conservadora.

O governo não é um ser isolado. O processo eleitoral consolida relações entre setores da população e o candidato.

A altíssima temperatura das eleições de 2014 produziu laços particularmente fortes, que não poderiam ser rompidos sem trauma.

A impressão que tivemos foi que Dilma tentou romper, sem nenhuma delicadeza, os laços políticos com seu próprio eleitorado.

E se deu, como o esperado, um trauma.

(Não é tentativa de trocadilho com o nome do ex-ministro da Secom, Thomas Traumann, embora não fosse um trocadilho absurdo).

Esse erro político valeu por quantos pontos de aprovação? Dez, vinte, trinta?

O governo não percebeu que a classe média, que ele mesmo ajudou a se expandir formidavelmente, precisa de novos sonhos?

Os slogans tradicionais estão gastos: Minha Casa Minha Vida, Bolsa Família, PAC, etc.

São programas fundamentais, e o povo gosta deles, mas quer novidade.

A gente adora ouvir aquela canção do Chico Buarque, mas não queremos ouvir a mesma música trezentas mil vezes.

É preciso mudar a abordagem, introduzir programas novos, até porque, a partir daí, coisas diferentes e originais realmente acontecem.

O governo precisa oferecer símbolos novos.

Um pouco mais de poesia nos discursos da presidenta caberiam bem, por exemplo.

O governo Dilma II começou e foi só porrada em cima da galera.

Tudo sem um aviso, sem um amaciante.

O eleitor de Dilma mais politizado sentiu-se traído, abandonado.

É uma minoria eleitoral? É, mas formou uma base intelectual poderosa, um think tank coletivo  e anárquico, que fez o combate contra a mídia nas eleições. E venceu.

Essa mesma base era o único trunfo que Dilma possuía para manter a estabilidade política, diante da ofensiva midiática violenta que passou a sofrer durante e após as eleições.

Dilma esqueceu tudo isso e  produziu apenas símbolos hostis à sensibilidade política de seu próprio eleitorado.

Katia Abreu, Levy, ajuste fiscal, corte de direitos.

Não teve um contraponto positivo.

Não teve um avanço na política externa, na comunicação pública, na cultura, na democratização da mídia, nada.

A gente entende que o governo precisa enxugar gastos, mas não é melhor que o faça discretamente, sem alarde, de maneira eficiente e silenciosa?

Não é preciso fazer do ajuste fiscal a única e exclusiva bandeira do governo!

A presidenta podia usar o pronunciamento na tv para transmitir um símbolo positivo.

Anunciar investimentos em alta tecnologia, criar um pólo de pesquisas avançadas em tecnologia de informação, inteligência artificial, robótica, coisas assim.

Está faltando dinheiro? Então invente uma coisa legal que se possa fazer gastando pouco e que contará com a simpatia do povo brasileiro.

Alguma política inovadora para os índios, para o meio ambiente, por exemplo.

Use a televisão para mobilizar e capitalizar a energia política do povo brasileiro!

Diante da campanha diária de desespero e apocalipse da nossa imprensa, a falta de agenda positiva do governo constitui uma odiosa traição política, o que explica a queda na popularidade da presidenta.

Dilma não forneceu um mísero ponto de apoio para a sua base se segurar diante da tsunami midiática que se formou nas ondas da Lava Jato.

A presidenta tem de governar para todos, mas sem uma base política própria, nenhum estadista se sustenta.

Obama cultiva uma relação de comunicação constante com seus eleitores, com quem ele dialoga, democraticamente, para pressionar pelas reformas que pretende implementar.

Obama manda email até hoje para mim, que me cadastrei anos atrás, pedindo apoio às lutas travadas no congresso.

Aqui, isso seria chamado de “bolivarianismo”. Pior, o governo parece acreditar nisso, e fica quieto apanhando, achando que está sendo muito democrático.

Não está. Está sendo, ao contrário, antidemocrático, ao cortar, voluntariamente, a sua própria língua, com medo da mídia.

O presidente governa para todos, mas não deixa de ser um agente político que deve sua existência, sua força e sua estabilidade a uma base de eleitores.

Um presidente democrata não espera apoio da base republicana. A base republicana quer mais é que o presidente democrata se exploda, quiçá até literalmente.

A base de Dilma é o eleitorado que votou no PT, incluindo aí uma elite cultural com muita força nas universidades, no movimento estudantil, nas profissões liberais, na classe média.

Dilma também tem suas “elites”, formada por gente altamente capacitada, que faz, espontaneamente, uma guerra diária contra a manipulação da mídia.

Dilma tem de jogar com essa base, que é a base que deseja o seu bem, quer vê-la com saúde, valente, feliz.

A outra base, que não votou nela, quer mais é que a presidenta se dane. Quer derrubá-la de um jeito ou outro. Ou então que ela morra de uma vez.

Isso, infelizmente, também é democracia. Ou pelo menos é o tipo de truculência próprio do estágio vivido hoje por nossa democracia.

Dilma tem de governar para todos, mas não pode esquecer que é um ser político, que tira a sua vida, a sua força, de suas bases políticas.

Esta é a base que lhe dará sustentação para enfrentar a luta política do dia a dia, até o último dia de seu governo.

A única maneira do governo Dilma sair das cordas é acreditando na capacidade de resistência e na criatividade de seu eleitorado, que fez, espontaneamente, um trabalho incrível nas eleições.

O twitter da presidenta, uma ferramenta de comunicação evidentemente importante, com 3,3 milhões de seguidores, entre eles todos os jornalistas e políticos do país, é usado apenas para produzir mórbidos necrológios.

O último é de 9 dias atrás, lamentando a queda de um avião na Europa.

Diante desta situação, o pesquisador do Ibope pergunta a um eleitor de Dilma o que está achando de sua maneira de governar, e ele responderá “ruim, péssimo!”.

A opinião brasileira, de qualquer forma, é volátil e segue ondas. Vimos isso nas últimas eleições. Onda Marina, refluxo. Onda Aécio, refluxo, uma nova ondinha ao final. Onda Dilma, refluxo, onda, recuo de novo.

A opinião vai e vem na onda das marés da política.

O governo tem de preparar a sua onda. Mas não conseguirá isso sozinho. O governo não tem força política, não tem inteligência, não tem criatividade, para lutar isoladamente contra os dragões da mídia.

Tem de ir atrás de sua base, estabelecer pontes de diálogo. Mas não basta simular um diálogo. Esse tem de ser verdadeiro. Falando, ouvindo e respondendo.

O governo ainda tem importantes ferramentas de poder em suas mãos.

Pode começar, por exemplo, atualizando o twitter da Dilma, usando-o para influenciar na narrativa que se faz da atmosfera política, para defender ou explicar suas posições, para se desculpar, admitir erros, pedir informações, conversar. Engajar-se em campanhas em prol de alguma causa nobre.

Isso não é esquerdismo, não é bolivarianismo, não é radicalismo. É algo que um presidente de direita também faria. É fazer política, cazzo.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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17 comentários

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surreal

07 de abril de 2015 às 10h45

EXISTE UMA GUERRA COMERCIAL CONTRA O BRASIL, COM AJUDA DE POLÍTICOS TRAIDORES E ENTREGUISTAS, O BRASIL POSSUI MUITOS RECURSOS NATURAIS E ESTRATÉGICOS, COMO POR EX. ENORMES RESERVAS DE PETRÓLEO E ESSE MANIFESTO VEM SE REPETINDO A MAIS DE UM ANO:
O POVO QUER SABER… SE NÃO QUEREM OU NÃO PODEM CHEGAR NOS VERDADEIROS MAFIOSOS TUCANALHAS, CORRUPTOS SECULARES E NA MÍDIA MÁFIA ANTI-NACIONAL, VERDADEIROS LESA PÁTRIA, QUALQUER OPERAÇÃO DA PF MP E STF CONTRA A CORRUPÇÃO SERÁ APENAS OPERAÇÃO POLÍTICA COVARDE DESTRUIDORA DE NOSSO POVO, PORQUE DESSA FORMA A JUSTIÇA CONTINUARÁ SENDO UMA BALANÇA MUITO DESEQUILIBRADA. O POVO QUER SABER… E OS MAFIOSOS CORRUPTOS TUCANALHAS SOLTOS??? SOLTOS DE INÚMERAS CPIS. ATÉ QUANDO??? ATÉ QUANDO OS CORRUPTOS TUCANALHAS VÃO CONTINUAR SENDO BLINDADOS PELOS JUÍZES E MÍDIA CÚMPLICE MERCENÁRIA SONEGADORA DE IMPOSTOS??? O POVO QUER SABER. ATÉ QUANDO??? OU ATÉ QUANTO??? OU MUITAS EMPRESAS, POLÍTICOS, O POVO BRASILEIRO E A DEMOCRACIA VÃO PAGAR AS PENAS, MENOS O LÍDER DAS CORRUPÇÕES: O PSDB E SEUS PROTEGIDOS? E ATÉ QUANDO A MÍDIA CRIADORA DE CAOS E SONEGADORA VAI TRAIR O BRASIL E CONTINUAR IMPUNE???

http://caixadoistucanodefurnas.blogspot.com.br/

http://www.juniorpentecoste.com.br/2014/07/quem-e-o-lider-da-corrupcao.html

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Gustavo Horta

04 de abril de 2015 às 14h01

Eu espero 2018 para acreditar em qualquer dessas pesquisas!
A Istoé/Sensus que o digam! Né não?

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Samuel Oliveira

04 de abril de 2015 às 07h18

“Programas novos”, ” poesia no discurso”, tudo issso é secundário… o principal é o acinte de no dia 30 de dezembro estar anunciando corte em “seguro-desemprego”(?!?!) como se fosse um coisa banal e ainda ficar surpreso com a reação do seu próprio eleitorado. Nomear a Katia Abreu( por escolha pessoal e contra o próprio PMDB) e ficar surpresa com a reação do seu próprio eleitorado.
O principal foi revelar uma arrogância que sempre esteve escondida do seu eleitorado e só ficamos sabendo depois, inclusive com histórias desencavadas de anos antes, mostrando que esse estilo não é de agora, mais apenas a blindagem era maior antes. .

Grande parte do eleitorado ( a parte que se mantia ativa pelo face, a parte articulada) da Dilma não é passivo, não está esperando novas propagandas do João Santana, já aceitou a Dilma gaguejante, apenas quer motivos palátaveis para engolir o Joaquim Levy, não quer engolir: “acabou as eleições, voltei a ser uma désposta esclarecida, aceitem minhas decisões que doi menos”
Doi menos em quem Dilma? Doi menos em quem? Chupa essa bala de 19% que não foi de graça, você pagou por ela…

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oldeir ridelo

03 de abril de 2015 às 13h06

Miguel do Rosario, concordo em parte com vc. Mas a esquerda não pode abandonar a Presidenta, porque ela não esqueceu das suas origens, sua ideologia. Ela continua com o compromisso social e com as bandeiras da esquerda. Mas pra seguir com essa luta é preciso cuidar da economia e resgatar a credibilidade do país junto à comunidade financeira/econômica internacional. E a esquerda brasileira brasileira tem de se unir em torno da presidenta pra ajudá-la neste momento difícil, que deverá passar em breve. Não será esse apoio um sacrifício muito grande e, ademais, apoiar nas horas boas é fácil, difícil é apoiar nos momentos de dificuldade. Nós temos de apoiar em todos os momentos: nos bons e nos ruins, até porque a fase ruim vai passar, e vai passar mais rápido se contar com o nosso apoio. Não façamos o jogo da direita, não sejamos inocentes úteis!

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    Miguel do Rosário

    03 de abril de 2015 às 13h09

    mas é justamente isso que falo no post. dilma tem de procurar esse apoio da esquerda que deu a ela a vitória eleitoral. mas tem de partir dela. dilma tem agir politicamente para obter esse apoio. tem de dialogar, emitir símbolos que mobilizem o apoio da esquerda. não existe um botãozinho que alguém liga: apoio da esquerda, ligado. tem de construir politicamente.

    Responder

Joao ALves

03 de abril de 2015 às 12h44

Eu avisei desde quando a inflação começou a se descontrolar, o Brasil tem trauma de inflação, Dilma estava brincando com fogo.

Você acha que ser mais ativa no twitter vai compensar uma inflação de 8%?

Aa pessoas estão com raiva por coisas concretas, não é só por causa da mídia golpista não…

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    Miguel do Rosário

    03 de abril de 2015 às 12h54

    acho que ser mais ativa na comunicação, ajuda a estabilizar a política, e estabilizar a política ajuda a fazer política, inclusive política de inflação.

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Ernesto Silva

03 de abril de 2015 às 14h50

Se o pouco com Deus é muito e o mui sem Deus é nada!…Prefiro o pouco com Dilma do que o muito dos entreguistas da Pátria!…

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Osvaldo Alencar

03 de abril de 2015 às 14h26

A Globo/IBOPE está vencendo fácil.

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foo

03 de abril de 2015 às 09h33

Um ponto importante que a pesquisa não captura: desaprovação não significa falta de apoio.

Por todas as razões expostas nesse artigo, eu desaprovo este início de governo, incluindo aí o desempenho da Dilma neste segundo mandato.

Mas tentem tirá-la do poder e eu serei o primeiro a ir para as ruas.

Eu desaprovo, mas apoio o governo Dilma.

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    Vitor

    03 de abril de 2015 às 10h23

    Foo, muito bem observado…. E tem outra coisa, qual político hj eu aprovado??

    Responder

Luciano Henzel

03 de abril de 2015 às 12h11

Miguel do Rosário, Você sintetizou o sentimento de todos nós. Gostariamos ver por exemplo, a presidenta se manifestando sobre a mídia e as manifestações que aconteceram nesta semana contra a #GloboGolpista, Sobre a tragédia no morro do Alemão com o assassinato desta criança a queima roupa de forma covarde por parte do policial. A questão dos índios que já sofreram tanto na história e de modo especial nas mãos da ditadura militar. Em fim, são tantas circunstancias e bandeiras que estamos levantando e como resposta temos o silêncio mórbido do executivo. Ainda estamos aqui porque acreditamos e queremos um governo à esquerda. Votei em Dilma e votaria novamente, mas queremos estímulo e instrumentos para defender e lutar por esta causa.

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Marcos P Silva

03 de abril de 2015 às 12h08

mostra a metodologia ibope

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S Rod

03 de abril de 2015 às 08h43

A esquerda coxinha ajudou a baixa da Presidenta que apenas completou tres meses de governo. Uma irresponsabilidade e falta de carater da esquerda. Tragam FHC o sociologo de seus sonhos de volta.

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Edson Junior

03 de abril de 2015 às 10h59

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Sergio Telles

03 de abril de 2015 às 10h25

Na minha visão o melhor slogan seria “somos heróicos contra uma máquina de difamação arrasadora”

Responder

Felipe Rita Bueno

03 de abril de 2015 às 09h45

Ibope? O instituto que não mostra a “caixa preta” e que perdeu uma ação movida pelo SBT? O mesmo que há algumas semanas indicou o Jornal Nacional com 20 pontos e depois corrigiu para 25? Sem credibilidade.

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