Análise em vídeo das manifestações do 2 de outubro e as vaias a Ciro

Banco Central faz ajuste fiscal às avessas

Por Miguel do Rosário

03 de junho de 2015 : 23h48

Ás vezes eu acho que há um complô entre mídia, economistas neoliberais e o próprio governo para confundir a opinião pública brasileira na questão dos juros.

Por que os juros precisam subir tanto?

Numa entrevista recente à grande imprensa, um professor da UERJ deu uma pista. Segundo ele, os empresários brasileiros apenas concordam em segurar a inflação se o governo subir os juros, porque eles compensam o declínio do lucro no setor produtivo com aumento deste no mercado financeiro.

Tipo assim: o dono do Pão de Açúcar aceita segurar os preços se ele ganhar mais dinheiro investindo em títulos públicos.

Me pareceu uma explicação plausível.

Mas também uma tremenda cafajestagem desses empresários contra o Brasil e os brasileiros.

Isso explicaria os esforços para enfraquecer o governo: só um governo fraco aceita esse tipo de chantagem.

É um tanto absurdo porque vai contra o ajuste fiscal.

Juros mais altos consomem a receita do Estado de ambos lados: 1) obriga o governo a gastar algumas dezenas de bilhões a mais com juros; 2) deprime a economia e reduz a arrecadação tributária.

Ou seja, é um jogo de perde perde, e culmina com uma brutal transferência de renda dos mais pobres para os mais ricos.

Tem alguma coisa que não entendemos?

Acho que os economistas do Banco Central e do Ministério da Fazenda, por respeito aos brasileiros, deveriam nos deslindar esses mistérios.

Da mídia, não podemos esperar nada. Ela só quer fazer política.

Se ninguém quer nos explicar, seremos obrigado a estudar por conta própria, como sempre.

Já que o governo torra centenas de bilhões de nosso dinheiro com juros, acho que o mínimo que devemos fazer é estudar como isso acontece. Talvez seja a melhor forma de lutar contra as razões esotéricas dos técnicos do Banco Central, cujas decisões parecem pairar numa outra dimensão moral, acima de qualquer crítica por parte da nossa imprensa.

Segundo o Tesouro Nacional, a composição da dívida é a seguinte:

ScreenHunter_5847 Jun. 04 00.17

ScreenHunter_5846 Jun. 04 00.16

ScreenHunter_5845 Jun. 04 00.16

A única “boa”notícia nisso tudo é que o perfil da dívida melhorou bastante nos últimos anos.  Há menos títulos atrelados ao câmbio e o naco maior (30%) é de longo prazo (acima de 5 anos) e prefixados (40%).

Outros dados sobre a dívida pública podem ser analisados no relatório mensal elaborado pelo ministério da Fazenda, que reproduzo abaixo. A última edição é de abril.

*

Na Agência Brasil.

Taxa de juros aumenta pela sexta vez seguida e vai a 13,75% ao ano

03/06/2015 20h15

Wellton Máximo – Repórter da Agência Brasil Edição: Aécio Amado

Pela sexta vez seguida, o Banco Central (BC) reajustou os juros básicos da economia. Por unanimidade, o Comitê de Política Monetária (Copom) aumentou hoje (3) a taxa Selic em 0,5 ponto percentual, para 13,75% ao ano. Na reunião anterior, no fim de abril, a taxa também tinha sido reajustada em 0,5 ponto.

Com o reajuste, a Selic retorna ao nível de janeiro de 2009, quando também estava em 13,75% ao ano. A taxa é o principal instrumento do BC para manter sob controle a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Oficialmente, o Conselho Monetário Nacional estabelece meta de 4,5%, com margem de tolerância de 2 pontos, podendo chegar a 6,5%. No entanto, ao anunciar o contingenciamento do Orçamento de 2015, o governo estimou que o IPCA encerre o ano em 8,26%.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o IPCA acumula 8,17% nos 12 meses terminados em abril. De acordo com o boletim Focus, pesquisa semanal com instituições financeiras divulgada pelo Banco Central, o IPCA encerrará 2015 em 8,39%. Este ano, a inflação está sendo pressionada pelos aumentos de preços administrados como energia e combustíveis.

Embora ajude no controle dos preços, o aumento da taxa Selic prejudica a economia, que atravessa um ano de recessão, com queda na produção e no consumo. De acordo com o boletim Focus, analistas econômicos projetam contração de 1,27% do Produto Interno Bruto (PIB, soma dos bens e serviços produzidos pelo país) em 2015.

A taxa é usada nas negociações de títulos públicos no Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic) e serve como referência para as demais taxas de juros da economia. Ao reajustá-la para cima, o BC contém o excesso de demanda que pressiona os preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança. Quando reduz os juros básicos, o Copom barateia o crédito e incentiva a produção e o consumo, mas alivia o controle sobre a inflação.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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25 comentários

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Fabio

05 de junho de 2015 às 12h47

Miguel quando o juros era de 1 digito no inicio do gov. Dilma ,a economia tb não deslanchou o empresariado e os bancos boicotaram, minha tese é que a Dilma e o PT não souberam articular aquele momento, depois vieram as manifestações de 13 e deu no que deu.As contas já não estavam fechando desde o final do gov. Lula, e o empresariado que estava com o lucro na mão não quis investir, correr riscos. Esta articulação foi muito mal gerenciada, pois só para lembrar o juros era de 1 digito, mas não emplacou.

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Ruyderlan Lessa

05 de junho de 2015 às 11h43

Eles superdimensionaram a crise e o governo entrou na dança.

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Lázaro Antonio da Costa

05 de junho de 2015 às 11h19

Sonegação Fiscal dos ricos rouba R$ 200 bilhões em cinco meses

http://cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FPolitica%2FSonegacao-dos-ricos-rouba-200-bi-em-cinco-meses%2F4%2F33545

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Pedro ToppStamps

05 de junho de 2015 às 08h28

“O que destrói a humanidade: A Política, sem princípios; o Prazer, sem compromisso; a Riqueza, sem trabalho; a Sabedoria, sem caráter; os negócios, sem moral; a Ciência, sem humanidade; a Oração, sem caridade.”

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Josue Castilho

04 de junho de 2015 às 18h57

Mas essa dos empresários é uma verdade.
E pior: captam recursos subsidiados com juros camaradas no BNDES e aplicam no tesouro, ganham na diferença de juros e investem o que sobra na produção.
O jogo é cruel. O estado tem que sangrar para manter a iniciativa privada. Esse é o liberalismo à brasileira.

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Josue Castilho

04 de junho de 2015 às 18h46

Miguel. Há também uma explicação dentro do suposto ajuste.
Imagina que o governo esteja precisando de captar recursos. Ele coloca títulos pós fixados, ligados à SELIC, de médio/longo prazo. Para conseguir compradores, sobe a taxa. Capta rapidamente os recursos. Daqui à 5 anos, essa SELIC pode estar à 8%.
Fizeram isso em 2010. Os títulos que venciam em 2012/13 se tornaram batatas quentes mas mãos dos rentistas mais gulosos, quando a SELIC caiu para 7.25.
Por isso veio aquela enxurrada de críticas em 2013.

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Alexandre Pascoli

04 de junho de 2015 às 14h04

mas o PT nao criticava os juros altos quando o PSDB estava no poder??? e agora defendem o juros alto??? voces sao piadas e a midia tem culpa kkkkk e facil voces defenderem o PT porque ganham, o dinheiro de nossos impostos, pois nao tem capacidade de produzir, voces nao tem capacidade de trabalhar de forma honesta

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Raimundo

04 de junho de 2015 às 09h11

Miguel, quem é o professor da uerj? Onde está essa entrevista. Sabemos que vc é contra dar audiência para a grande mídia, mas podia talvez criar um link naofo.de.

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    Miguel do Rosário

    04 de junho de 2015 às 12h00

    Ok vou procurar

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Alvaro Cassiano

04 de junho de 2015 às 12h04

Chamo isto de gambearra para tentar corrigir 12 anos de cagadas homéricas..

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leandro

04 de junho de 2015 às 08h12

Nunca li tanta mentira. O governo aumenta juros para baixar a inflação e não tem outro remédio porque gasta muito e mal. Essa conversa de que empresario quer juros altos é só uma desculpa para culpar alguem pelo fracasso do governo. Ou o articulista pensa que só existem grandes empresários no pais? Que só eles que abastecem a pipulacao?

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    Miguel do Rosário

    04 de junho de 2015 às 12h02

    O gov não gasta tão mal assim, o problema é que a arrecadação fiscal per capita é muito baixa

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    Miguel do Rosário

    04 de junho de 2015 às 12h03

    Gov investiu muito em infra-estrutura. Diferentemente dos tucanos, q deixou até a infraestrutura hídrica à míngua

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Akin

04 de junho de 2015 às 07h40

Miguel gostaria de entender uma coisa, se alguém souber responder eu agradeceria.
Como faço para virar rentista e lucrar diretamente com esses juros altos?? Quantos milhões eu preciso para começar a investir em algo que eu possa ter retorno com esses juros?? Eu preciso ser banqueiro??? Pq do jeito que o mundo está dominado, acho que a melhor aposta é que nossos juros ainda serão dos maiores do mundo por um bom tempo.

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Nilo Miranda Miranda

04 de junho de 2015 às 10h16

Em pleno momento de desemprego, redução das atividades econômicas, o BC aumentar a taxa de juros é golpe contra os trabalhadores. A inflação é reflexos dos gastos do governo, aumento das tarifas do governo, a crise hídrica, o aumento da gasolina, não existe o aumento de preço por si só. Outro aumento dos preços se deve ao aumento dos impostos estaduais. Dilma precisa baixar essa roubalheira, deixar a economia andar com emprego, consequentemente vai arrecadar mais, pagar menos juros com as taxas baixas. E para controlar a inflação, o governo deve arrecadar mais e gastar menos, além de controlar a inflação investindo e financiando a melhoria na produção dos itens que elevam a inflação como é o caso dos alimentos.

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Lucia Romcy

04 de junho de 2015 às 05h05

Então chama o Lula para dar um jeito de abaixar essa porcaria, só banco lucrando!

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Joao Gabriel Lemos

04 de junho de 2015 às 05h03

“Por que o juros precisam subir tanto?” Então, acho que eu posso responder essa pergunta. É preciso entender que na teoria econômica clássica ou ortodoxa (usada pela Europa, EUA, Japão, Russia,Turquia, Africa do Sul, México, Colômbia, Chile e etc), quando a inflação sobe acima de patamares aceitáveis, ela deve ser combatida (no caso do Brasil, o governo decidiu que o aceitável é o teto da meta para o IPCA, de 6,5% ao ano). O controle da inflação passa pelo uso de alguns instrumentos, que de uma forma ou outra retiram dinheiro de circulação e esfriam a economia. Para retirar o dinheiro de circulação, você pode aumentar a exigência de retenção de dinheiro dos bancos no BC por meio do aumento do compulsório (o Brasil fez isso em 2012 sem muito sucesso). Um ajuste fiscal do governo também ajuda, porque o governo passa a gastar menos e isso reduz o dinheiro em circulação. Algumas outras experiências mais ousadas para retirar dinheiro de circulação já foram tentadas, com resultados trágicos (congelamento das poupanças no governo Collor ). É por isso que a técnica mais utilizada no mundo para o controle da inflação é o aumento dos juros. Quando o governo aumenta a remuneração que paga pelos seus títulos da dívida pública, os bancos investem seu dinheiro nesses títulos, ao invés de emprestarem para os consumidores/empresas. Eles fazem isso porque os títulos do tesouro nacional tem um risco de calote baixo, uma vez que o governo teria de falir, enquanto emprestar para os consumidores/empresas tem um risco de calote infinitamente maior. Pois bem, quando os bancos diminuem os empréstimos para os consumidores/empresas, por conta do aumento da selic, eles acabam tirando dinheiro de circulação. A consequência disso é que a inflação cai, No Brasil, existem fatores específicos que atrapalham o funcionamento dessa lógica que eu coloquei acima. O primeiro deles é que 50% do sistema financeiro simplesmente não responde à taxa básica de juros. O BNDES é o principal reponsável por isso. O Banco Central pode estar aumentando os juros para reduzir a quantidade de dinheiro em circulação e ao mesmo tempo o BNDES pode estar inundando o mercado com dinheiro, porque é um banco 100% estatal e não responde necessariamente à lógica dos mercados financeiros (como aconteceu nos últimos anos). Isso torna o aumento dos juros do BC ineficaz. No atual momento, imagino eu que a Presidente Dilma está priorizando o combate à inflação por um cálculo político, uma vez que algumas pesquisas revelam que o aumento exagerado dos preços revolta mais a população do que um pouco mais de desemprego (lembrando que o desemprego saiu de 5%, o patamar mais baixo da história e deve chegar a 10% até o final do ano, o que não chega nem perto do cenário desesperador da Espanha e de Portugal, com 25% de desempregados). Para a queda dos juros, temos que torcer desesperadamente primeiro pela queda da inflação. É importantíssimo que os índices de junho comecem a vir baixos, para pelo menos estancar a alta da SELIC, para depois ela começar a cair.

Responder

    Mauricio Reis

    04 de junho de 2015 às 13h43

    Meu caro, VC esta certo em quase tudo, mas eu discordo de VC em parte. O BNDES jamais teria a capacidade de “inundar” o mercado com dinheiro, pois mesmo sendo suas linhas de crédito mais vantajosas elas são destinadas ao setor “produtivo” e não a população em geral.
    Nossos empresários sempre tiveram a mentalidade de ganhar muito vendendo pouco, e o reflexo disso é que a produção nunca acompanhou s demanda o que entre outros fatores provocam o aumento de preços.
    Já faz tempo também que os empresários buscam reduzir direitos trabalhistas e redução de salários alegando no caso dos salários que estes não estão atrelados à produtividade causando um descompasso em suas receitas, o que ao meu ver é uma desculpa para aumentarem ainda mais seus ganhos. Resumindo tudo, essa inflação provocada pelo aumento dos preços controlados pelo governo (energia elétrica, combustível,o etc) aliada a ganância e interesses econômicos dos nossos empresários passa pelo desemprego que acaba reduzindo salários e força de quebra a mão de obra a buscar permanecer em seu posto de trabalho diminuindo a rotatividade que assustou muitas empresas que não conseguiam mais segurar trabalhadores, pois esses insatisfeitos buscavam melhores funções ou remuneração.

    Responder

    Peres Rusky

    04 de junho de 2015 às 14h07

    nao li tudo, mas é mais ou menos isso mesmo: instrumento de ajuste fiscal, de modo a esvaziar e liquidez do mercado de benas e servicos, redirecionando recursos para o mercado de capitais, de modo a desacelerar os precos. Existem outras opções, como aumento dos depositos bancarios compulsorios. Na verdade, nem é tao complicado entender isso, mas muitos economistas vomitam seu economês pra manipular as infoirmacoes segundo suas ideologias. Mas se trata mais de uma opção técnica do que ideológica. Parabens pela lucidez…

    Responder

    Thiago Hermes

    04 de junho de 2015 às 18h14

    Isso é algo que entendo tbm, mas o quanto vale a pena esse controle inflacionário? Até porque na prática tivemos reajustes em tudo; contas de água, energia, gasolina… Eu não sei se adiantaria reduzir os juros pois não sei se os mercados responderiam positivamente visto que não há confiança no momento mas uma coisa que não entendo é por que subiram tbm as alíquotas para os combustíveis, parece que querem por lenha na fogueira da inflação para apagar com altas de juros. Eu não consigo enxergar nenhum benefício para a população nessa maneira esdrúxula de aumentar a arrecadação e o custo político tbm é muito alto.

    Responder

Odorico Carvalho

04 de junho de 2015 às 03h38

A verdade é que não precisa subir nada! Essa é a fórmula tucana tão defendida por Serra e Aécio: juros altos, arrocho, desemprego. Fórmula que Lula desmoralizou em 2008 quando, Meirelles, por birra, subiu os juros. Lula chamou o Banco do Brasil e Caixa e mandou baixar juros e aumentar a oferta. O então presidente do BB se recusou a fazer isso e Lula o demitiu na hora. E transformou a tsunami a marolinha. Dilma está fazendo o contrário: vai transformar a marolinha em tsunami. Por mais que se queira defender, tem horas que fica impossível.

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Elza Beserra

04 de junho de 2015 às 03h21

Eu tbm não entendi essa, qnd a gente pensa, q as coisas estão nos trilhos, aí acontece o descarrilamento de um vagão… aff

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Francisco Ebeling Barros

04 de junho de 2015 às 03h19

Miguel, tem um grande economista italiano, Piero Sraffa, para o qual tx de lucro e tx de juros tendem a convergir. Mas nao eh um jogo de perde perde pq, para o empresario, no curto prazo, suas aplicacoes rendem muito. O capitalismo nao eh sobre produzir y ou z, eh sobre dar dinheiro.

Responder

    Miguel Do Rosario

    04 de junho de 2015 às 04h12

    É, tem razão. Sobre perde perde, me referi ao povo. Claro que tem quem ganhe, e muito.

    Responder

Tiago Borges Dos Santos

04 de junho de 2015 às 03h15

Ajuste as avessas mesmo, velha receita que ja provou-se fracassada mas que para os rentistas é o paraiso, ja para o trabalhador é tome arrocho, Dilma ta saindo pior que a encomenda.

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