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Negócio versus jornalismo e democracia

Por Miguel do Rosário

07 de agosto de 2015 : 11h36

O Negócio da Rede Globo (06/08/2015)

Por Frederico Bernis, no blog Alienado.

Em 2013, num restaurante, eu e uns amigos conversávamos exaltados, falando mal da Rede Globo. Eis que surge da mesa ao lado, atraído por nossa conversa e por um amigo em comum na nossa mesa, um simpático e famoso jornalista da emissora. Muito gentil e atencioso (e talvez incomodado pelo volume alto da conversa), ele nos abordou e disse mais ou menos assim:

“Gente, desculpa intrometer no assunto de vocês, mas preciso dar minha opinião. É ingênuo ficar demonizando a Globo. O que vocês precisam entender é que a Globo é apenas uma empresa que sempre fez, faz e continuará fazendo tudo o que for preciso pra se manter como empresa num mercado super competitivo. E é exatamente por que sempre fez tudo o que estava ao seu alcance pra se manter como empresa é que ela está aí há mais de 50 anos, cada vez mais poderosa. A Globo é uma empresa muito competitiva, um negócio, gente”.

Sei que muitos já sabem disso há tempos, que não é novidade nenhuma, mas confesso que ter ouvido aquilo da boca de um funcionário de longa data da emissora, naquelas circunstâncias, teve um impacto diferente. A partir dali, adquiri o hábito de nunca mais deixar de analisar as decisões da Rede Globo sob a ótica escancarada por seu jornalista: a ótica do NEGÓCIO.

Por exemplo: todo mundo que acompanha futebol sabe que há na crônica esportiva dezenas de profissionais mais capacitados para comentar um jogo de futebol do que o Ronaldo Fenômeno. Ronaldo foi indiscutivelmente um excepcional jogador, dos melhores de todos os tempos. Isso é uma coisa. Outra coisa é comentar sobre futebol na televisão. Ser comentarista competente demanda esforço e preparação, e hoje é difícil imaginá-lo assistindo a partidas, acompanhando o noticiário, o dia-a-dia dos clubes, etc. Como não se prepara, vive cometendo gafes, não sabe as coisas mais básicas que qualquer pessoa que acompanha minimamente o futebol está cansada de saber.

E aí vem a pergunta: ter como comentarista uma pessoa desatualizada a respeito do assunto sobre o qual comenta é bom para o telespectador? Claro que não. O que justifica a presença de Ronaldo nas transmissões da Globo é apenas e tão somente o fato de que Ronaldo (por ser um ídolo carismático e um dos atletas mais conhecidos do mundo) dá muito IBOPE (atrai anunciantes até quando faz dieta no Fantástico), e portanto ele é bom para o negócio da Globo. Não se trata do profissional mais capacitado para informar o telespectador sobre futebol, mas é sem dúvida o mais habilitado a assegurar os interesses comerciais da emissora que o contrata.

Partindo desse ponto de vista, seria absurdo pelo menos questionarmos a postura da emissora em outras áreas que não o futebol? O que aconteceria se aplicássemos essa lógica do NEGÓCIO às outras áreas do jornalismo da Rede Globo? Vejamos:

Será que Carlos Alberto Sardenberg é o profissional mais capacitado para informar o telespectador sobre economia ou ele é apenas o mais habilitado a assegurar os interesses da emissora que o contrata?

Será que Merval Pereira é o profissional mais capacitado para informar o telespectador sobre política ou ele é apenas o mais habilitado a assegurar os interesses da emissora que o contrata?

Afinal, perguntar não ofende e não devemos jamais perder de vista que “a Globo é apenas uma empresa que sempre fez, faz e continuará fazendo tudo o que for preciso pra se manter como empresa num mercado super competitivo”.

“É exatamente por que sempre fez tudo o que estava ao seu alcance pra se manter como empresa é que ela está aí há mais de 50 anos, cada vez mais poderosa. A Globo é uma empresa muito competitiva, um negócio”.

Sigamos então a mesma linha de raciocínio apresentada acima: quando o Ronaldo comenta um jogo, isso não é bom para a informação do telespectador, mas é ótimo para o negócio da Rede Globo. O negócio vem em primeiro lugar, a qualidade da informação em segundo.

Daí que, dentro dessa lógica do NEGÓCIO puro e simples, tudo se justifica. Podemos dizer que:

Quando Roberto Marinho resolveu apoiar OFICIALMENTE a ditadura militar e também esconder de seu noticiário o movimento DIRETAS JÁ, não o fez porque acreditava que um regime autoritário e tortura seriam bons para o país, mas porque seria ótimo para o negócio da Rede Globo. Entre a democracia e o negócio, escolheu o negócio.

Quando a Globo decidiu editar o debate entre Collor e Lula em 1989 para favorecer abertamente a candidatura de Fernando Collor (fato este já confessado pelo próprio Boni e também pelo falecido jornalista Armando Nogueira, ambos importantes funcionários da emissora na época) não tomou essa decisão tendo como premissa a prática de um jornalismo honesto, mas sim porque entendia que Collor seria comercialmente mais lucrativo para a Rede Globo. Entre o jornalismo e o negócio, escolheu o segundo.

Quando a família Marinho resolveu presentear Collor, Sarney, Antônio Carlos Magalhães e tantos outros políticos com retransmissoras da Rede Globo não estava preocupada com a democratização da informação no país, não estava interessada no que seria melhor para o telespectador. Seu propósito foi conquistar aliados poderosos que tinham condição de ajudar, com sua atuação política, na ampliação do negócio da Rede Globo.

Na hora de escolher entre o telespectador brasileiro e o negócio, a Rede Globo optou por salvar a própria pele.

Há 50 anos tem sido assim.

Links:

http://esportes.terra.com.br/uruguai/ronaldo-comete-gafe-e-preve-suarez-destaque-da-copa-america-2015,205cfd6b3be0d23db867ab379e8b31338mirRCRD.html
http://esportes.r7.com/futebol/noticias/ronaldo-cobra-r-6-milhoes-para-emagrecer-en-programa-de-tv-diz-jornal-20121012.html?question=0


Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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1 comentário

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decio viotto

07 de agosto de 2015 às 15h24

Está claro, porém é possível ter gente muito mais competente,
do que Merval, Sardenberg e quetais, para dar informação e ganhar
muito dinheiro com o negócio. Nazario Fenômeno não comenta porque
foi adorado como jogador. Comenta por que tem negócios com a
Globo, via J. Hawilla. Seria necessário, nesses tempos de internet, em
que todos querem ser protagonistas para plateias vazias, pesquisar o quanto
a propaganda realmente vende tendo pseudo celebridades como alavanca.
Publicidades que mararam época, e ficaram mais tempo no ar, foram aquelas
feitas por desconhecidos até então, como Carlos Moreno (Bombril), o
baixinho da Kaiser e, mais recentemente, o caipira do Posto Ipiranga. Além disso,
fazer negócio é uma coisa, outra coisa são negócios escusos, como a corrupção
no futebol brasileiro e mundial, apoiar a ditadura por que é um bom negócio.
Tentar quebrar o Brasil mais recentemente e dizer que é um bom negócio para
a Globo. Enfim, Merval, Sardenberg, Nazario, Galvão e tantos outros só estão lá porque não atrapalham o negócio. Ajudam a camuflar as barbaridades perpetradas por esta emissora, como este “famoso” amigo jornalista de vocês. Obrigado pela paciência

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