Análise em vídeo das manifestações do 2 de outubro e as vaias a Ciro

Clube obrigar babá a usar branco é manter estigma da escravidão, diz diretora de ‘Que horas ela volta?’

Por Redação

03 de fevereiro de 2016 : 18h07

Desde que lançou Que horas ela volta?, a diretora de cinema Anna Muylaert virou uma espécie de porta-voz informal para questões envolvendo trabalhadores domésticos

por Mariana Della Barba, na BBC Brasil

Seu filme, no qual a atriz Regina Casé vive a doméstica Val, escancara um tipo de relação entre patrão e empregado que é realidade em muitas casas brasileiras.

Diante da “novela” das babás de branco que teve início no ano passado, Anna topou falar com a BBC Brasil.

Durante a conversa, a diretora falou de sua revolta com as regras de clubes paulistanos em exigir uniforme branca das babás de crianças sócias.

O caso começou quando a advogada Roberta Loria, que é sócia do Esporte Clube Pinheiros (zona oeste), resolveu acionar o Ministério Público de São Paulo, após se revoltar com o fato de o local dificultar a entrada da babá de suas filhas por ela não estar com uniforme branco.

Veja os principais trechos da conversa com Anna Muylaert:

Quando eu vi essa notícia (das babás sendo obrigadas a usar brancos pelos clubes), fiquei sem palavras. É uma regra extremamente autoritária, anacrônica, para marcar a divisão social. É algo que mantém o estigma da escravidão.

É como botar um anúncio, um aviso claro como uma melancia na cabeça, para que não haja confusão: eu sou um empregado, eu não entro na piscina, eu não sento na mesa.

Achei tudo tão terrível que fiquei pensando: ‘Até quando a gente vai achar legal ter escravo?’

É óbvio que se a babá e os patrões concordarem com o uso do uniforme branco, se ela quiser, não é nenhum problema. Agora, um clube exigir roupa branca, isso é querer manter uma situação em que os sócios são sempre privilegiados.

Direitos negados

Mas como fomos criados em meio a essas regras, o que acontece é que a Val (doméstica protagonista do filme, interpretada pela atriz Regina Casé) achava normal ela nunca ter entrado na piscina do patrão. E a babá do Pinheiros não achava um grande problema o clube obrigá-la a usar branco.

Claro que elas vão achar normal. São direitos que nunca lhes foram dados. Mas é justamente por isso é que é tão importante ter pessoas que tomam atitude, como a Roberta.

É preciso muito esforço para mudar. E não é fácil, porque parte da elite do Brasil quer manter tudo como se fosse há 400, 500 anos atrás. ‘Eu vou contratar uma mulher por um preço baixo e vou continuar na corte.’

Uma amiga minha uma vez reclamou que a empregada dela foi dormir no meio da festa que ela estava dando, já de madrugada. Eu virei e falei: ‘Olha, a escravidão acabou’.

Cinismo

Outro dia eu vi no Twitter uma frase genial: “Aplaude Que horas ela volta? no Facebook, mas em casa reclama que a empregada não sabe fazer estrogonofe”.

Isso representa muito bem que uma coisa é discutir a coisa na teoria e a outra é colocar em prática.

Outro dia, em uma palestra, uma menina que era filha de doméstica me contou como ainda recebe olhares de cima para baixo.

Exemplos assim mostram que ainda temos um longo caminho para avançar.

Mas acho que alguma coisa já começou a mudar. Só de estarmos conversando sobre isso já é algo. Antes, isso nem era discutido.

[Alerta de spoiler para quem não viu Que horas ela Volta?]

A babá topar usar branco no shopping mas ciente de que isso é para a mãe da criança posar de madame é a Val entrando na piscina da casa dos patrões.

Elas começaram a ver, elas já estão num outro patamar.”

 

Apoie O Cafezinho

Crowdfunding

Ajude o Cafezinho a continuar forte e independente, faça uma assinatura! Você pode contribuir mensalmente ou fazer uma doação de qualquer valor.

Veja como nos apoiar »

21 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário »

Enio

05 de fevereiro de 2016 às 18h38

A elite racista vê a luz no fim do túnel, mas é a luz da locomotiva LULA2018. #LulaEuConfio

Responder

Raimundo Freitas Freitas

05 de fevereiro de 2016 às 06h12

Eu também acho. Acaba com qualquer tipo de uniforme profissional, e vira logo bagunça de uma vez!

Responder

Giovana De Figueiredo

05 de fevereiro de 2016 às 03h17

A vulgaridade de quem precisa propagandear um empregado ao lado. Atestado de boçalidade.

Responder

Janaina Garcia

05 de fevereiro de 2016 às 02h41

Coisa mais brega! Precisa de uniforme caracterizado e ainda ser branco? Contrangedor! Não vejo outro motivo, além de distinção de classes! O primeiro mundo já aboliu esta prática há tempos! Uniforme é pra pessoas jurídicas, por normas de proteção, segurança, para facilitar a identificação dos clientes e transmitir a imagem da empresa. Mas pessoas físicas na rotina pessoal tem conotação soberba!

Responder

Terezinha Boro

04 de fevereiro de 2016 às 22h04

CONCORDO PLENAMENTE !!!

Responder

Anônimo

04 de fevereiro de 2016 às 18h53

Sei lá, seria bom se uma babá pudesse se vestir bem. Ñ pode. Acho pior ter q estar entre madames bem vestidas de short de lycra. Melhor uma camiseta e uma bermuda brancas. Tb sou favorável aos uniformes escolares.

Responder

Rita Bertolde Martins

04 de fevereiro de 2016 às 18h10

Muito triste!

Responder

Édna Lazarotti

04 de fevereiro de 2016 às 15h53

Madalena morre de medo da concorrência!

Responder

Ageo Barros

04 de fevereiro de 2016 às 09h33

Responder

Milton Quadros

04 de fevereiro de 2016 às 07h55

Os comentários que quem enxergou o que tem de pior em si mostrado pelo filme são dignos de piedade, mostram que essas pessoas, as que vestiram a carapuça, têm um longo caminho a percorrer até se tornarem minimamente humanas.

Responder

Andre Malaspina

04 de fevereiro de 2016 às 07h12

Se livre da opressão, peça demissão e vá trabalhar ao ar livre, em uma praia e tenha total liberdade da roupa que irá usar, ou peça.
Onde já se viu, exigir uma coisa dessas, que absurdo.
Essa elite opressora viu.

Responder

    Zé Paulo Cunha Rocha

    04 de fevereiro de 2016 às 10h19

    Exatamente André, isso funcionará muito bem depois que tivermos socializado todos os meios de produção e não houver mais concentração de renda na mão desses malditos clássistas que acham que a mereca que eles pagam aos pobres compra, além do trabalho, a dignidade.

    Responder

    Marcos Fernandes Gonçalves

    04 de fevereiro de 2016 às 13h43

    Não dá. Agora praia também tem que pagar. Que tal criarmos impostos maiores sobre grandes fortunas? Acho que aí dá para distribuímos renda e melhorar a vida dos pobres, de modo que ninguém mais precise trabalhar de doméstico. Opa, mas vcs não andam reclamando que não dá mais para contratar domésticas porque elas pedem salário alto? Melhor lavarmos nossa própria roupa (eu lavo a minha).

    Responder

    Andre Malaspina

    04 de fevereiro de 2016 às 13h50

    Marcos Fernandes Gonçalves Que tal administrar melhor o que se recebe de impostos no lugar de se aumentar ? Será que pagamos pouco ou não sabem usar ? Será que se todos fiscalizassem não mudaríamos a cultura do jeitinho, do rouba mas faz, do um contra o outro ? Que tal darmos condições para todos trabalharem e ganharem o seu sustento ?
    Só para esclarecer, o post acima é uma ironia, caso não tenham entendido.

    Responder

Zé Paulo Cunha Rocha

04 de fevereiro de 2016 às 00h08

Quem promove a segregação nesse caso são os que exigem os uniformes das babás, e de comunistas eles não tem nada….

Responder

Derli Ferreira

03 de fevereiro de 2016 às 23h08

A velha tática comunista de separar os ricos dos pobres para posar de defensores de fracos e oprimidos. E, em se estabelecendo isso, tirar proveito da massa dominada.

Responder

    Octavio

    04 de fevereiro de 2016 às 08h26

    Então, vc acha que a divisão das riquezas deve começar a partir dos mais pobres? O capitalista é aquele sujeito que, quando os seus negócios vão mal, sempre foi socialista desde de pequeno. Adora uma ajudinha do governo. Mas detesta “o bolsa família”.

    Responder

    Marcos Fernandes Gonçalves

    04 de fevereiro de 2016 às 13h38

    …porque… o capitalismo uniu ricos e pobres! Meu deus, o que o jornalismo de esgoto está implantando na cabeça dessas pessoas…

    Responder

    Derli Ferreira

    04 de fevereiro de 2016 às 14h01

    Marcos Fernandes Gonçalves eu não falei de união, mas de uma segregação que só existe na doutrina comunista e é aí o terreno fértil deles. Dominar sem parecer que o é.
    Hoje, no Brasil, de orçamento trilionário, temos líderes políticos abastados enquanto a massa depende de SUS sucateado, educação na penúria, minha casa minha vida, bolsa-família e etc.
    E o discurso de vocês é mídia golpista, que impõe esgoto na cabeça do povão. Ora, meu caro tenho discernimento suficiente para filtrar as coisas.

    Responder

Geraldo Antonio da Silva

03 de fevereiro de 2016 às 22h07

DEUS nos enviou Jesus sem uniforme , talvez eles desejem ser acima do PAI .
Bando de preconceituosos.
Todo sangue é vermelho e um acidente qualquer te põe na fila de nessescitados .
Sangue é vermelho, mas vocês gostam é de branco, e aí ?

Responder

Kika Zanon

03 de fevereiro de 2016 às 21h58

finalmente um país de igualdades…não peraí…

Responder

Deixe um comentário