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MBL ganha quase 400 mil curtidas em 15 dias. Milagre ou fraude?

Por Redação

30 de março de 2016 : 15h18

por Bajonas Teixeira de Brito Junior, especial para os Jornalistas Livres

No acompanhamento que fazemos das redes para a disciplina opinião pública, que lecionamos no Departamento de Comunicação da UFES, deparamos nos últimos dias um inusitado crescimento do Movimento Brasil Livre (MBL) que, acreditamos, merece ser discutido com atenção.

Os três movimentos gêmeos?—?Vem Pra Rua, Revoltados Online e Movimento Brasil Livre?—?vêm sendo considerados a grande novidade da mobilização de massa da classe média, a imagem da sua modernidade jovem, conectada às redes e ao ativismo político de direita.

Os aspectos mais salientes, e que constituem a base do poder desses grupos com as mídias?—?uma de suas lideranças, Kim Kataguiri, do MBL, estreou recentemente sua coluna na “Folha de S.Paulo” –, são supostamente a inserção que têm na opinião pública e seu impacto de massa. No dia 12 de março, na véspera da manifestação do dia 13, esses grupos possuíam juntos quase três milhões de curtidas em suas comunidades. São números que impressionam.

Ocorre que há indícios muito sólidos que nos levam a duvidar da consistência desses números e do poder desse gigantismo ‘popular’. E o primeiro e mais grave deles vem, justamente, do MBL, que cresceu em quase 400 mil likes na sua comunidade no Facebook, entre o dia 12 e o dia 27 de março. A situação registrada no dia 12 de março era a seguinte:

Revoltados Online?—?1.390.230

Vem Pra Rua?—?996.613

Movimento Brasil Livre?—?458.256

No dia 27, deparamos com situação bastante alterada:

Revoltados Online?—?1.556.641

Vem Pra Rua?—?1.114.058

Movimento Brasil Livre?—?824.754

O primeiro, e bastante contundente indício de anormalidade, é que a distância entre o Movimento Brasil Livre e o Vem Pra Rua, que era de 538.357, mais de meio milhão de likes, se reduz abruptamente para 289.304. Não há nada que explique essa mudança, uma vez que ambas as comunidades estavam em movimento ascendente, em razão da crescente intensidade da interação política nas redes, o que, portanto, imporia um crescimento que deveria ser proporcional.

Passando de 458.256 likes para 824.754, o MBL cresceu 79,97%, e isso o faz entrar em um padrão de total inconsistência com o percentual de crescimento das duas outras comunidades que dividem, com ele, a suposta representação da opinião pública da classe média anti-PT e anti-Dilma.

mbl1

mbl2

Os Revoltados Online possuíam 1.390.230 likes na comunidade em 12 de março, e passaram a 1.556.641 no dia 27. A taxa de crescimento foi de 11,9%. Esse crescimento é compatível com a maioria dos sites, comunidades e páginas da militância de direita no período. É o que se verifica também com o Vem Pra Rua, que passou de 996.613 seguidores para 1.114.058, isto é, o crescimento foi de 11,7%. Nesses casos, mais que se ressalta a paridade e a proporcionalidade que deveriam ser encontrados também no MBL.

Porém, a taxa de crescimento do MBL no Facebook, de 79,9 %, isto é, de 80%, é mais de 7 vezes superior ao crescimento das suas comunidades irmãs. O líder Kim Kataguiri, que já foi chamado de “adolescente-prodígio da internet”, terá que nos explicar esse milagre da multiplicação dos likes.

O absurdo desse crescimento fica bem expresso quando consideramos que, para crescer os mesmos 79,9% o Vem Pra Rua passaria de 996.613 para1.793.903 e os Revoltados Online, crescendo na mesma taxa, iria de1.390.230 para 2.502.414. Ao invés disso, o Vem Pra Rua foi para 1.114.058e o Revoltados Online para 1.556.641, ou seja, cresceram dentro das taxas razoáveis, de 11.9% e 11.7% respectivamente, como já indicamos acima.

É francamente admirável, contudo, que essas redes irmãs, a quem certamente não poderia passar despercebida a proporção de crescimento do MBL, não tenham dado publicidade a isso, fato que, tudo parece indicar, constitui uma gritante fraude aos processos de representação democrática. É importante situar esse ponto, porque o tamanho da sua rede tem qualificado o MBL como força e sujeito no debate político atual.

O MBL e seus parceiros falam em nome de uma suposta representação de opinião, ocupam os espaços da mídia, e cruzam cada vez com mais desenvoltura a esfera público-política. Seus palanques, como os que armaram na Paulista no dia 13, são os nós em que se concentram os fluxos dos manifestantes. E, como não poderia deixar de ser, é dessas estufas que se espera que saia a nova geração de políticos do país.

Mas eis que a estufas estão produzindo flores artificiais. E espécimes que, já jovens, investem nas mesmas fraudes, engodos e falcatruas dos veteranos da corrupção que eles pretendem denunciar. A prática de compra de pacotes de likes, aliás, pode não ser apenas imoral mas também constituir crime. Caso uma investigação comprove que esses pacotes fazem usos de bots para sequestrar dados de perfis e usá-los, contra a vontade de seus proprietários, para curtidas indesejadas, estaremos no que prevê o artigo 154 doCódigo Penal que determina como crime “invadir dispositivo informático alheio, conectado ou não à rede de computadores (…) com o fim de obter, adulterar ou destruir dados ou informações sem autorização expressa”.

O prejuízo imediato de maior impacto, contudo, é sobre a transparência do processo político, as práticas democráticas e a própria cidadania. O MBL é um movimento que se apresenta nos termos seguintes:

Ele se propõe como uma força de mobilização de cidadãos (“mobilizar cidadãos”), portanto, se compromete com as regras e as condições de uma sociedade democrática e representativa. A alegada modernidade desse grupo, aparece por exemplo, na matéria da “Veja”, que os faz pairar quase desencarnados na rede (como se produzir vídeos em massa, cartazes, banners, bonecos, etc., não exigisse montantes consideráveis de recursos) para materializarem-se em seguida nas ruas:

Saindo das redes sociais, onde se concentra a maior parte das atividades, eles também promovem ações de ruas. No começo do ano, o grupo fez um evento para contrapor a pauta do Movimento Passe Livre pela tarifa zero no transporte público. Desde novembro do ano passado, quando foi criado, o Brasil Livre já organizou três protestos contra a presidente Dilma Rousseff em São Paulo.

E a ninguém escapará que o nome Movimento Brasil Livre, é um plágio declarado de Movimento Passe Livre, cuja evidência foi enorme em 2013. O MBL valeu-se da projeção também da sigla, MPL, e se apropriou dela sem qualquer constrangimento. Mas diferente do MPL, cuja fundação dada de 2005, e que durante anos se dedicou a uma pauta muito concreta, o MBL cresceu abruptamente do nada, tornou-se exponencial na ribalta política do dia para a noite, e ninguém perguntou como se deu seu processo de acumulação de forças.

E é aí que talvez resida o calcanhar de Aquiles desses movimentos, em especial os três mais agigantados: não deixar claro como cresceram com tanta intensidade em tempo tão curto. A questão é a consistência efetiva da representação que pretendem ter. Se, como o Movimento Brasil Livre, pretendem mobilizar cidadãos, é preciso que fique claro que esses cidadãos não são robôs.

Um exemplo pode deixar claro o que está em jogo aqui. Em dezembro de 2015, depois de muito alardear os números que levariam às ruas, os três movimentos conseguiram juntar apenas 40,3 mil no dia 13 de dezembro, um domingo sombrio para os organizadores. Movimentos, como se sabe, são formas políticas que buscam mobilizar para uma causa. Mas o poder de mobilização dos três movimentos, caminha na contramão de seu aparente crescimento em números. Criados todos após setembro de 2014, cresceram ao longo de 2015 enquanto decrescia sua capacidade de levar às ruas seus ‘representados’:

mbl3

Os números inflaram, os likes robusteceram as páginas… Juntos, chegam a somar milhões, mas quanto mais cresciam menor era a capacidade de “mobilização” desses movimentos. Um caso típico daqueles em que “ a montanha pariu um rato”. É um grande paradoxo, que só vemos paralelo com a subida de Aécio, no primeiro turno das eleições presidenciais, quando o candidato subiu 14 pontos em 72 horas. Analisamos esse estranho fenômeno no artigo O paradoxo de Aécio.

O prodígio de crescer em quase 400 mil likes em duas semanas (de 12 a 27 de março), por pouco não iguala todo seu crescimento de 01 de novembro de 2014, data da fundação, até o início de março de 2016. Inchou em 15 dias quase o que havia levado 16 meses (480 dias) para crescer. E tudo isso diante dos olhos e das antenas da percepção pública. Parece que desprezaram a capacidade dessa opinião de monitorar e denunciar disparates de tal grandeza. O que, aliás, não parece tão longe da verdade, já que os radares da mídia não registraram nada. E isso compromete também, devido ao voto de silêncio guardado, os movimentos gêmeos do Movimento Brasil Livre, que nada disseram sobre o fenomenal crescimento do irmão caçula.

É muito preocupante o que esses números parecem revelar, porque desde que a sociedade em rede se faz dominante, os fluxos de likes são os que dão representatividade às comunidades, quase com o mesmo peso com que, até agora, o voto tem hierarquizado as forças políticas. Através dos likes são qualificados os movimentos, a sua força e a sua representatividade. Uns tornam-se protagonistas privilegiados, enquanto outros definham e somem. Por isso, ocorrendo uma trapaça aí, não estamos muito distantes do que ocorre com a fraude eleitoral. A manipulação digital desqualifica o espaço inteiro da representação e da esfera pública. Intoxica as próprias condições de exercício da democracia.

Não é aceitável uma hipertrofia nas redes, produzida por injeção de likes e perfis fantasmas, operados por robôs e comprados em pacotes de milhares. Esse ganho de musculatura através da injeção de curtidas fabrica apenas aparências e entidades sem vida.

Isso talvez explique por que as grandes mídias, em particular a Globo, deixaram as aparências de lado e partiram diretamente para o confronto político em aliança com o judiciário (de onde vieram vazamentos a granel). O motivo foi justamente o fracasso dos “movimentos” em promover a “mobilização”. Esses movimentos, com seus números hiperinflacionados, e seus efeitos pobres de mobilização, parecem pertencer mais à dimensão dos simulacros do que à realidade. O que não quer dizer que não estejam cumprindo bem o papel de dar legitimidade popular à movimentos acionados pelas elites, de dentro da Fiesp, da Febraban, da Globo etc. Assim que seu papel de prover alguma aparência de suporte de massas às manobras hoje em curso seja cumprido, eles serão retirados de cena e, como cenário usado, guardados em algum galpão do Projac.

O oposto total das ficções digitais da política da direita, foi a mobilização desencadeada a partir da Frente Brasil Popular que, com poucos mais de 20 mil associados em sua comunidade, levou multidões às ruas no dia 18. Boa parte do ímpeto no ataque direto que as elites faziam para sitiar e derrubar o poder constituído, foi refreado pelo susto que os assaltou diante da população (não de robôs) que tomou as ruas naquele dia.

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