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Compartilhar estupro coletivo nas redes: a nova versão da barbárie brasileira

Por Miguel do Rosário

27 de maio de 2016 : 13h42

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Por Camila Moraes, no El País Brasil

Um vídeo em que uma adolescente aparece nua, dopada e com marcas de violência se tornou viral na Internet nesta quarta-feira, 25 de maio, acompanhado de comentários que relatavam que ela foi vítima de um estupro coletivo – muitos deles de verve machista. Um grupo de homens a teria violentado na Zona Oeste do Rio de Janeiro, e depois alguns deles teriam filmado o crime com seus celulares para compartilhá-lo nas redes sociais. Uma das imagens compartilhadas mostra um homem com a língua para fora posando diante da pelve ensanguentada da menina.

O caso chegou às mãos da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI), que recebeu uma série de denúncias anônimas (mais de 800 foram enviadas ao Ministério Público do Rio), munidas em parte do material virtual que comprova a barbárie. A 23ª Promotoria de Investigação Penal trabalha agora nele junto à Delegacia Anti-Sequestro (DAS). As autoridades já encontraram a vítima – que está estável e teve sua identidade preservada pelo delegado encarregado, Alessandro Thiers – e localizaram dois dos autores das postagens, mas não informaram detalhes sobre a investigação.

Ela tem 16 anos, foi estuprada no sábado, 21 de maio, e encontrada três dias depois, e logo em seguida o vídeo viralizou. Permanece agora com a família, que pede o anonimato para preservar sua segurança e sua saúde física e mental, e terá de se recuperar após uma forte hemorragia e uma ruptura da bexiga. Seus parentes relataram à imprensa que a garota – resgatada na Praça Seca, Zona Oeste do Rio, por um homem que afirmou que já a havia visto no local – passou alguns dias fora de casa, sem dar notícias, e só souberam de seu paradeiro através do noticiário e das redes sociais. Estão em choque, como boa parte da sociedade brasileira.

Quem contou essa história primeiro, porém em tom jocoso, foi o usuário do Twitter @michelbrazil7. Michel postou inicialmente o vídeo, acrescentando entre risos os comentários de que “amassaram a mina” e “fizeram um túnel na mina, mais de 30”, em referência à violação grupal. Mesmo após a forte onda de protestos pelo seu post – superior à de compartilhamentos do vídeo, que também foi intensa, apesar de configurar crime de acordo com o Código Penal Brasileiro – ele manteve sua decisão de não apagar as imagens, até ter de eliminar seu perfil da rede. Agora é buscado pela polícia como criminoso, tendo ou não participado do estupro (essa, se comprovada, será uma acusação adicional).

Muitos dos que contribuíram com comentários machistas sobre o caso na Internet afirmaram que a adolescente estava bêbada e que tinha buscado que isso acontecesse com ela – como é comum escutar em crimes bárbaros contra mulheres, como esse. “Onde o trem passou… Essas mina dão muito mole mesmo”, escreveu um usuário do Twitter que teve o perfil bloqueado. Na contramão dos posts violentos, outros deram conta da revolta que a selvageria provocou, especialmente em mulheres. “Quando vocês homens saem à noite com medo de levarem seu celular, a gente sai com medo de ter nossos corpos violados”, escreveu Sofia Alves no Facebook. “Que doença é essa que atinge a 100% dos homens que tavam lá?”, concluiu, em um longo texto com mais de 7.000 compartilhamentos.

https://www.facebook.com/sofia.alves.barros/posts/1015805275166363

Casos como o da adolescente carioca são mais comuns do que se espera. Há praticamente um ano da atrocidade registrada em Castelo do Piauí (PI), quando quatro adolescentes foram vítimas de um estupro coletivo e atiradas de um penhasco, um caso parecido voltou a acontecer no Estado. Na sexta 20, mesmo dia em que a jovem da Zona Oeste do Rio foi agredida, um homem de 18 anos e quatro adolescentes estupraram uma menina de 17 anos em Bom Jesus – cidade de 22.000 habitantes que fica a 644 quilômetros da capital, Teresina. Ela foi encontrada ferida e amordaçada com a própria calcinha em uma obra abandonada depois de passar um tempo supostamente bebendo junto com seus agressores – que ela conhecia, segundo o relato da polícia.

Um estupro acontece a cada 11 minutos no Brasil, de acordo com o 9º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, cujos dados mais recentes são de 2014. Naquele ano, 47,6 mil pessoas foram vítimas do crime no país.

As redes sociais foram tomadas nesta quinta-feira por mobilizações para organizar atos em várias cidades brasileiras contra agressões a mulheres e contra a cultura do estupro. A ONU Mulheres divulgou, no fim do dia, nota condenando os crimes. Na quarta, as redes dividiram atenção na quarta-feira com a visita do ator Alexandre Frota ao ministro interino da Educação, Mendonça Filho. Frota – que confessou na TV aberta, em 2014, ter abusado sexualmente de uma mulher – teve audiência com o ministro na companhia de membros do Revoltados Online. Eles queriam dar sua contribuição ao MEC e à Educação do Brasil, o que gerou reações negativas, não apenas pelo conteúdo de propostas como a criação de uma “escola sem partido”. Escreveu a autora do Blog da Maria Frô: “Espero que vocês estejam felizes com a cultura dos Frotas estabelecida no país”.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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7 comentários

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Jst

28 de maio de 2016 às 08h20

É incrível como o Brasil consegue se superar todos os dias em matéria de infâmia e vergonha internacional. Tá difícil ser brasileiro.

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Fabiana

27 de maio de 2016 às 21h38

É preciso encontrar todos estes monstros, são um grave perigo à solta, são feras que têm que ficar em jaulas .
Quem tiver qualquer pista, não se omita, pois sua omissão o torna tão desprezível quanto qualquer monstro desses.
Estes monstros farão novamente, se não forem enjaulados, pois são frios e agem em grupo, mas tentarão livrar-se do testemunho da vítima.

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gilberto

27 de maio de 2016 às 17h32

Minha total e irrestrita solidariedade a essa jovem vítima, que ela encontre forças para superar o trauma desse crime hediondo.

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Marcia

27 de maio de 2016 às 14h36

Absurdo, RJ é terra sem lei.

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    Armando Divan

    27 de maio de 2016 às 15h29

    Não Marcia, o Brasil tem leis e justiça, mas acabamos de presenciar de forma cabal que elas só valem (mesmo que estejam inscritas na constituição) para castas privilegiadas da sociedade brasileira. Para os demais, simples mortais, as leis e a justiça não servem de qualquer garantia, antes pelo contrário, são utilizadas somente para punir e calar os que ousam se rebelar contra a tirania da polícia, da justiça, da mídia monopolista. ESSA AÇÃO É UMA ESPÉCIE DE RECADO DESSES SETORES PARA AS MULHERES: NÃO OUSEM QUERER SE REBELAR COM O LUGAR QUE A CASA GRANDE DESTINOU A VOCÊS.

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      duca

      27 de maio de 2016 às 17h37

      Não nos rebelarmos? Isso é que era bom! Temos de nos rebelar sempre!

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    Fabiana

    27 de maio de 2016 às 21h29

    A lei é feita para a proteção dos que a infringem.

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