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Imagem: Brasil Escola

Rogerio Dultra: “Um Tartuffo”, esta nova montagem é Mollière mesmo?

Por Redação

22 de agosto de 2022 : 08h51

Por Rogerio Dultra

Teatro. Teatro de verdade. Que sacia os sentidos, aguça a mente e escancara de forma crua as angústias do tempo presente. Este é o sentido, nos dias de hoje, de se encenar os clássicos, como o é o ácido crítico do Ancien Régime e das pretensões pequeno-burguesas do século XVII, o francês Mollière.

Eis que esta montagem, subversiva de todo – e que fica em cartaz até semana que vem, somente –, inova ao “silenciar” um texto clássico, ou seja, é uma comédia satírica embalada na estética do expressionismo alemão, sem diálogo algum.

Tartuffo, charlatão travestido de religioso (o alvo original de Mollière era a Igreja e sua hipocrisia milenar), é apresentado nesta montagem de Bruce Gomlevsky como uma espécie de pastor evangélico, ladeado por milicianos armados.

O mutismo sui generis de “Um Tartuffo” contudo não é novidade, visto que há um filme mudo, o Herr Tartüff, de 1925, do diretor expressionista alemão F. W. Murnau.

O expressionismo, no cinema alemão, se caracteriza por distorcer e se distanciar da realidade e das expressões puramente lineares e racionais. Entretanto, o Tartuffo de Murnau não é expressionista, visto que mantém a estética de época de Mollière e seu realismo.

Encaixa-se mais no movimento Kammerspiel, preocupado em explorar a subjetividade dos personagens através de um desenrolar lento e cotidiano.

A falta de diálogos na montagem brasileira tem uma dimensão completamente distinta e, talvez por isso, um impacto estético e simbólico muito maior que o do filme da Alemanha de Weimar. Tentarei explicar o porque, sem spoillers.

Na montagem “Um Tartuffo”, Gomlevsky resolveu ceder aos improvisos nos longos meses de ensaio, nos idos de 2018, e percebeu que seria interessante levar todas as cenas só com as expressões corporais, alguns dos insights pessoais dos atores, a mímica e a montagem de som e luz.

Quando subiram as cortinas rubras do Teatro Dulcina, que fica bem atrás do bar Amarelinho, na Cinelândia, fui arrebatado neste último domingo e logo na primeira cena, pela mais pura e potente estética da distopia do real: a pessimista expressão do artista sobre o mundo, pintada em cores fortes, de forma pessoal e trágica e numa dinâmica que borra, dialeticamente, a oposição entre sonho e pesadelo.

Tocando fogo na tradição bolorenta das montagens burocráticas de Mollière, Gomlevsky produziu uma das montagens mais inovadoras do clássico francês, incorporando tudo de bom que pode advir do expressionismo, a começar pela própria figura do Tartuffo, uma representação energética do fundamentalismo de fachada, transmutado em vontade de poder e potência destrutiva.

O Tartuffo de Gomlevsky não se apresenta, portanto, como um simples charlatão, um farsante em busca de ascensão social, através da exploração da família de um incauto, mesmerizado pela retórica pseudorreligiosa.

Interpretado de forma intensa por Yasmin Gomlevsky, irmã do diretor, o personagem central é o protótipo de um tirano em ação. A desmedida é a sua regra: é, ao mesmo tempo, risível, falso, mortal. E num de seus excessos, o sexual, o tirano se desnuda e poderá até mesmo ser, eventualmente, desmascarado.

Mas saber de quem se trata Tartuffo será o suficiente para a redenção dos demais personagens?

A encenação discute temas fortíssimos e atuais, como as relações não-binárias, a opressão política às religiões de matriz africana, a violência contra a mulher, a exploração do trabalho, a masculinidade tóxica, o frenesi financeiro de certas vertentes do pentecostalismo, além do fascismo que tem dominado a política contemporânea, especialmente no Brasil.

Para que toda essa complexidade temática possa acontecer diante de nossos olhos, e de forma absolutamente cristalina – repita-se, sem diálogo algum –, a gramática das expressões corporais dos atores teve que se constituir de forma marcial.
Como insiste o diretor, e com razão, “criamos um espetáculo muito preciso”.

Esta precisão enche os olhos do espectador de maneiras inusitadas, como a “caça à galinha” ou nas cenas mais fortes de briga ou de violência.
O elenco, diga-se de passagem, é um show à parte.
Cada um e cada uma dos atores e atrizes encarna um arquétipo e o modela como o autor provavelmente gostaria de ver acontecer nesse mundo novo, mas, convenhamos, sem tantas novidades assim no que respeita às questões políticas retratadas.

Mollière, portanto, não só se reconheceria nessa montagem muda e, ao mesmo tempo, prenhe de expressão, como certamente aplaudiria de pé os predicados que este grupo pôs a público com o seu trabalho.

Por fim, digo que a resolução do conflito no final da peça é um verdadeiro tapa na cara da sociedade brasileira. E isso, garanto, faz desta montagem tão complexa e interessante um evento obrigatório para quem estiver nas proximidades da cidade do Rio de Janeiro nesta semana. Quem assistir, não irá se arrepender.

P.S.:
Agradeço especialmente à atriz e diretora Giulia Brandão Mérida pela insistência em que a gente fosse ao Teatro conhecer esse espetáculo. Acabei aplaudindo de pé e com entusiasmo. Teatro com T maiúsculo. E serão as últimas apresentações (dias 27 e 28 de agosto).

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