Por pelo menos 9 milhões de anos, Marte manteve um sistema magmático ativo sob a região de Tharsis, ao sul do maciço Pavonis Mons. A descoberta, publicada na revista Geology, indica que o planeta vermelho preservou processos internos complexos muito mais tempo do que se imaginava, redefinindo a linha do tempo de sua atividade vulcânica.
O estudo analisou imagens orbitais e dados minerais obtidos por instrumentos de alta precisão, sem depender de amostras físicas. A equipe identificou que os depósitos de lava observados não correspondem a uma única erupção, mas a múltiplas fases eruptivas alimentadas por uma mesma rede subterrânea de condutos. Essa persistência indica que o magma se deslocava, sofria transformações químicas e voltava à superfície em diferentes momentos, num ciclo prolongado de atividade interna.
Segundo o artigo divulgado pelo portal Redimin, a primeira fase eruptiva ocorreu por meio de fissuras extensas, liberando lava por longas fendas no terreno. Em estágios posteriores, a atividade se concentrou em aberturas cônicas, semelhantes a vulcões menores. Tanto os fluxos mais antigos quanto os cones recentes parecem estar ligados a uma mesma câmara magmática profunda, o que indica estabilidade estrutural e continuidade térmica por milhões de anos.
O instrumento CRISM (Compact Reconnaissance Imaging Spectrometer for Mars), a bordo da sonda Mars Reconnaissance Orbiter, foi essencial para identificar as composições minerais. As observações no espectro visível e infravermelho mostraram que os fluxos mais antigos são ricos em olivino, enquanto os mais jovens contêm piroxenos de alto cálcio. Essa diferença revela que o magma evoluiu quimicamente ao longo do tempo, alterando sua profundidade de origem e o período de armazenamento subterrâneo antes de cada erupção.
O autor principal do estudo, Bartosz Pieterek, destacou que as variações minerais refletem um processo dinâmico de diferenciação interna. Segundo ele, o comportamento do magma em Tharsis é comparável a ciclos vulcânicos prolongados observados na Terra, como os do Havaí ou da Islândia, embora em Marte esses fenômenos tenham ocorrido em condições de menor gravidade e atmosfera rarefeita.
Os pesquisadores combinaram cartografia de superfície e espectroscopia mineral para reconstruir uma história subterrânea inacessível à observação direta da superfície. Essa abordagem permitiu identificar camadas sucessivas de atividade, mas também evidenciou os limites da análise orbital. Fatores como poeira, erosão e resolução limitada — cerca de 200 metros por pixel — ainda dificultam a interpretação detalhada, o que reforça a necessidade de missões futuras com capacidade de amostragem direta.
Os cientistas propõem que investigações futuras integrem dados hiperespectrais de alta resolução e medições de idade radiométrica mais precisas. Isso poderá determinar se esse tipo de sistema magmático duradouro é comum em outras regiões vulcânicas jovens de Marte ou se representa um caso isolado na história geológica do planeta.
Além da relevância planetária, o estudo reacende o debate sobre a evolução térmica dos mundos rochosos e o papel dos vulcões no transporte de calor e gases do interior para a superfície. Em Marte, compreender a duração e a intensidade desses processos ajuda a estimar quanto calor o planeta ainda retém e se houve condições para circulação de água líquida subterrânea em períodos recentes.
E daí? A descoberta de um sistema magmático de longa duração em Marte não é apenas um detalhe geológico. Ela sugere que o planeta manteve energia interna suficiente para sustentar ciclos térmicos complexos em tempos relativamente recentes, o que amplia as possibilidades de processos hidrotermais e, potencialmente, de ambientes habitáveis no passado. Para o Brasil e outras nações do Sul Global que investem em pesquisa espacial, compreender essa dinâmica é estratégico: significa participar da nova corrida científica por soberania tecnológica e conhecimento sobre a origem e a evolução dos mundos rochosos do Sistema Solar.
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