O movimento Houthi, que controla Sanã e extensas áreas do Iêmen, alertou os Estados Unidos de que a estabilidade no Oriente Médio depende do fim da ocupação israelense e das provocações americanas na região.
O Ministério de Assuntos Estrangeiros e Expatriados sediado em Sanã emitiu declaração oficial endossando o direito do Irã à defesa soberana diante das hostilidades. A chancelaria iemenita denunciou a agressão coordenada entre Washington e Tel Aviv contra o território iraniano.
As ações navais dos Estados Unidos no golfo de Omã foram classificadas como atos de pirataria que violam o direito internacional. De acordo com o portal da agência RT, o sequestro de tripulações de navios mercantes iranianos encarece o custo global de energia e alimentos.
Os Houthis afirmaram que o bloqueio ao estreito de Ormuz pelas forças armadas iranianas constitui medida legítima para neutralizar ameaças à segurança nacional. O movimento reafirmou que não adotará neutralidade enquanto persistirem as ofensivas militares contra o Irã, o Líbano e a Palestina.
Donald Trump ordenou a manutenção do cerco naval e colocou tropas em estado de alerta máximo na região. Ele citou supostas divisões internas no governo iraniano para justificar a prorrogação das medidas de pressão.
O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã declarou que a via marítima estratégica continuará fechada até o fim definitivo do cerco americano. Qualquer aproximação não autorizada ao estreito será tratada como hostil e resultará em resposta imediata.
Com informações de ACTUALIDAD.
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Nadia Petrova
29/04/2026
Enquanto Washington e Teerã brincam de cabo de guerra em Ormuz, o preço do frete marítimo vai estrangular justamente quem mais depende de rotas abertas — e, de quebra, alimenta a inflação que corrói salários no mundo todo. A ironia é deliciosa: o “xerife global” cria o caos que depois usa como pretexto para mais presença militar, e os autocratas regionais agradecem a propaganda grátis. No fim, o livre-comércio é sempre a primeira vítima desses espetáculos de soberania.
Maria Antonia
29/04/2026
Os EUA colhem o que plantam com décadas de intervenções militares que só alimentam radicais e desestabilizam rotas comerciais. Bloqueio em Ormuz é a fatura do intervencionismo estatal: quem paga é o preço do petróleo e o nosso bolso. Menos xerife global, mais livre-comércio.
Mariana Oliveira
29/04/2026
Maria Antonia, seu comentário captura um ciclo perverso do intervencionismo estadunidense que desestabiliza regiões e depois cobra a conta de populações que jamais pisaram numa zona de conflito. Mas me permita deslocar o ângulo: essa fatura nunca é distribuída de forma neutra. Quando o preço do petróleo dispara ou as rotas comerciais sofrem abalos, quem sente primeiro e mais intensamente são corpos que já carregam o peso acumulado de múltiplas estruturas de opressão. Mulheres racializadas no Sul Global, por exemplo, arcam com o encarecimento de combustíveis para cozinhar, com a alta do transporte público que estrangula o acesso ao trabalho precarizado e com a elevação de insumos básicos que compromete a já frágil segurança alimentar de suas comunidades. O bloqueio no Estreito de Ormuz não é apenas um evento geopolítico abstrato; ele se materializa em filas por gás de cozinha, em refeições puladas e em meninas tiradas da escola para economizar recursos. A crise é generificada e racializada muito antes de chegar ao nosso bolso no Hemisfério Sul — e aqui no Brasil, os corpos negros e periféricos sentem essa corrente de choque com uma intensidade que o argumento do livre-comércio como panaceia simplesmente ignora.
Pensar interseccionalmente, como Kimberlé Crenshaw nos ensina, é desmontar a ilusão de que intervenções militares ou desregulamentações comerciais produzem efeitos homogêneos. Os EUA plantaram décadas de imperialismo no Oriente Médio, sim — mas colhem dividendos políticos e econômicos que jamais pingam nas mesmas mãos que seguram a ponta da miséria. O intervencionismo estatal que você critica é irmão siamês do livre-comércio que você defende, e ambos se alimentam de uma arquitetura global onde a soberania de nações periféricas é reduzida a peças num tabuleiro energético. A abertura irrestrita de mercados, longe de ser uma solução pacífica, frequentemente opera como continuação da guerra por outros meios: mantém intactas as hierarquias entre quem extrai e quem processa, entre quem consome e quem é consumido como força de trabalho descartável. As mulheres iemenitas, por exemplo, enfrentam uma crise humanitária brutal que combina fome, deslocamento forçado e colapso do sistema de saúde — tudo isso aprofundado por bloqueios navais que transformam o estreito em um estrangulador de vidas. Elas não são apenas vítimas colaterais de um intervencionismo estatal; são o alvo direto de um sistema que bell hooks identificaria como patriarcal-capitalista-imperialista, cuja violência não escolhe apenas governos, mas se inscreve nos úteros, nos pratos vazios, nas horas perdidas em filas por ajuda humanitária.
A noção de “livre-comércio” que emerge no discurso liberal frequentemente apaga o fato de que mercados não regulados aprofundam assimetrias coloniais que nunca foram desfeitas. Enquanto celebramos a fluidez de capitais, empresas transnacionais lucram com a instabilidade que elas mesmas alimentam — e os corpos que sustentam essa acumulação são majoritariamente femininos e não brancos. Crenshaw nos lembra que opressões não competem; elas se sobrepõem e se reforçam. Um iemenita pobre não sente apenas os efeitos do bloqueio; ele sente esses efeitos de forma diferente se for mulher, se for negro (sim, há comunidades afro-iemenitas marginalizadas), se pertencer a uma tribo periférica ou se for um trabalhador migrante. O intervencionismo estatal e a ortodoxia do livre-comércio compartilham a mesma cegueira conveniente para essas intersecções — e é exatamente aí que a armadilha se fecha.
A sua conclusão — “menos xerife global, mais livre-comércio” — precisa ser confrontada com a pergunta incômoda que bell hooks repetiria: livre para quem e às custas de quem? Porque se a liberdade comercial não vier acompanhada de uma desmontagem das estruturas que racializam e sexualizam a pobreza global, continuaremos apenas trocando as botas dos soldados por logotipos de corporações, o fuzil pelo contrato de adesão. A tarifa invisível que incide sobre os elos mais frágeis da cadeia produtiva global não aparece nos gráficos do preço do petróleo, mas está lá, acumulando juros sobre costas exaustas. Enquanto não inserirmos a interseccionalidade no centro da análise geopolítica, qualquer discussão sobre bloqueios e rotas comerciais será uma abstração confortável que protege nossos privilégios epistêmicos e materiais. O Iêmen não é apenas um alerta aos EUA; é um espelho de como o capital global sangra primeiro os corpos que já foram historicamente marcados como descartáveis.