O presidente da Rússia, Vladimir Putin, realizou um encontro estratégico com o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, na cidade de São Petersburgo.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, destacou a extrema relevância do diálogo e afirmou que a importância da conversa é difícil de superestimar. O representante governamental enfatizou que o diálogo ganha peso ao se observar a evolução da situação geopolítica em torno da República Islâmica e de todo o Oriente Médio.
Peskov fez o comentário ao portal RT. O chanceler Araghchi, ao desembarcar no aeroporto de Púlkovo, considerou o momento oportuno para analisar as ações promovidas pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã.
Araghchi denunciou o que classificou como uma guerra imposta contra o Irã pelos Estados Unidos e por Israel. O chanceler expressou confiança de que as consultas bilaterais vão gerar coordenação diplomática eficaz.
Antes de chegar a São Petersburgo, Araghchi conduziu uma turnê que incluiu paradas em Islamabad, no Paquistão, e em Mascate, capital de Omã. Durante as visitas, o ministro apresentou a postura oficial de Teerã aos mediadores paquistaneses e alinhou assuntos diplomáticos com altos funcionários omanis.
O governo russo tem condenado as agressões militares contra o território soberano iraniano. As autoridades em Moscou reafirmam a disposição para ajudar a alcançar uma solução pacífica na região.
As autoridades russas alertaram que a continuidade da escalada de violência provocará consequências econômicas severas para o Oriente Médio e para o sistema global. O encontro em São Petersburgo ocorre em meio a intensas discussões sobre os rumos da região.
A cooperação entre a Rússia e o Irã tem se mostrado relevante para ambos os lados. O diálogo de alto nível permite o alinhamento de posições sobre temas sensíveis da agenda internacional.
Peskov indicou que a situação atual exige atenção redobrada por parte dos envolvidos. Putin e Araghchi puderam trocar impressões de forma direta durante o encontro, reforçando os laços entre Moscou e Teerã em um cenário de crescente pressão imperialista sobre a República Islâmica.
Com informações de ACTUALIDAD.
Leia também: Kremlin confirma reunião de Putin com chanceler do Irã em Moscou
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Gabriel Teen
30/04/2026
Kkkkkkkkkk os caras acham que tão discutindo geopolítica mas é só dois tiozão barbudo brincando de casinha com sanção
Eduardo Teixeira
30/04/2026
Enquanto discutem a coreografia diplomática, o que me chama atenção é o custo regulatório por trás dessa aliança. Sanções econômicas empurram inevitavelmente para a criação de rotas comerciais paralelas ao dólar, e adivinhem quem paga a conta no frete e na instabilidade cambial? No fim das contas, a burocracia e as sanções são só mais um imposto disfarçado para o setor produtivo.
Carlos Henrique Silva
30/04/2026
Eduardo, seu instinto de cutucar a camada regulatória como um imposto disfarçado ao setor produtivo é preciso na descrição do fenômeno, mas a raiz do problema é mais funda do que a burocracia sugere. As sanções não são simples contratempos administrativos que encarecem fretes e bagunçam câmbios — elas são, na verdade, instrumentos de uma arquitetura imperialista de acumulação por despossessão, para usar o conceito de David Harvey atualizando Marx. Quando o Ocidente exclui Rússia e Irã do sistema SWIFT ou congela reservas soberanas, não está apenas criando um “custo regulatório” como quem taxa uma importação. Está redesenhando à força a divisão internacional do trabalho, forçando esses países a operar numa zona de penumbra financeira onde o prêmio de risco é pago, claro, pelo setor produtivo local, mas sobretudo pela classe trabalhadora daqueles territórios, que vê sua moeda desvalorizar, sua inflação disparar e seus salários reais encolherem enquanto os capitais nacionais buscam rotas alternativas que beneficiam, em primeira instância, uma burguesia compradora local e os novos intermediários financeiros que emergem desses corredores paralelos.
Aqui entra o ponto que o Celio Fazendeiro, com sua defesa viril da soberania armada, convenientemente ignora: essas rotas comerciais paralelas ao dólar que você menciona, Eduardo, não são um grito de independência anticolonial, mas sim o sintoma de um processo de financeirização periférica que Gramsci chamaria de transformismo — as elites estatais russas e iranianas renegociam sua posição no sistema-mundo sem alterar um milímetro a lógica de exploração interna. O Irã dos aiatolás e a Rússia da cleptocracia putinista são regimes que instrumentalizam o discurso da resistência antissanções para consolidar internamente aquilo que Nicos Poulantzas definiria como um Estado capitalista fortemente autoritário, onde o bloco no poder — composto por setores militares, energéticos e, agora, por uma nova casta de operadores financeiros que lucram com o câmbio paralelo e o contrabando legalizado — drena o excedente do setor produtivo e da massa trabalhadora com a mesma voracidade que o imperialismo ocidental drena suas periferias.
O custo de que você fala, portanto, não é meramente um “imposto disfarçado” num sentido liberal de ineficiência regulatória. É a expressão de uma dupla compressão: de um lado, as sanções ocidentais asfixiam o acesso a tecnologia, crédito e mercados; de outro, as burguesias estatais locais usam essa asfixia como justificativa para intensificar a extração de mais-valia absoluta (arrocho salarial, informalização, corte de direitos) e para criar circuitos financeiros opacos que socializam os prejuízos e privatizam os ganhos cambiais. O frete mais caro e a instabilidade da taxa de câmbio que penalizam o pequeno e médio empresário, o agricultor iraniano ou o operário russo são precisamente o mecanismo pelo qual uma fração da classe dominante desses países realiza sua acumulação num ambiente de capitalismo sitiado. É a velha dialética centro-periferia replicada dentro do próprio campo “anti-imperialista”: o custo regulatório não é um acidente da burocracia; é a forma concreta que a luta de classes assume no contexto de guerra econômica.
Portanto, concordamos que o setor produtivo sangra, mas precisamos qualificar de qual setor produtivo estamos falando e para onde escoa esse sangue. Enquanto a esquerda caviar — para usar a expressão do próprio Celio — se distrai com a coreografia diplomática de Putin e Pezeshkian, o que está em curso é uma brutal transferência de renda do trabalho para setores rentistas e militaristas nos dois países, mediada exatamente por essa arquitetura de sanções e contra-sanções. A verdadeira soberania não se mede pela quantidade de mísseis ou pela existência de um sistema de pagamentos alternativo, mas pela capacidade de uma sociedade controlar democraticamente seu excedente econômico e decidir soberanamente sobre seu destino produtivo. E nisso, infelizmente, tanto o contribuinte russo quanto o iraniano seguem rigorosamente apartados das decisões que seus respectivos Estados tomam em nome de uma suposta resistência geopolítica.
Celio Fazendeiro
30/04/2026
Papo de patriarcado estatal? Só rindo dessas análises de divã que não aguentam ver dois países soberanos se armando e fechando negócio sem pedir bênção de ONG europeia. Aqui no Brasil a esquerda caviar quer desarmar o cidadão e depois fica com inveja de quem tem força pra valer.
Paulo Ribeiro
30/04/2026
Caro Celio, sua provocação merece uma resposta à altura, não porque eu espere convencê-lo — a experiência nos ensina que o convencimento é uma arte que exige condições materiais e simbólicas raramente disponíveis no calor de uma caixa de comentários —, mas porque seu argumento sintetiza, com uma clareza quase didática, os equívocos que uma certa esquerda brasileira insiste em reproduzir quando troca a análise concreta da conjuntura por bravatas que flertam com o autoritarismo. O problema não está em reconhecer que Rússia e Irã são Estados soberanos que buscam afirmar seus interesses geopolíticos sem pedir licença às potências ocidentais. Isso é um fato descritivo, e qualquer pessoa minimamente informada sobre a história do imperialismo sabe que a soberania nacional é uma conquista dos povos, não uma dádiva dos impérios. O problema, e aqui entra o convite gramsciano que você parece rejeitar, é tratar a soberania como um fetiche, como se a mera declaração de independência diante do Ocidente já garantisse, por si mesma, um conteúdo emancipatório às alianças entre Moscou e Teerã. A soberania, na tradição do materialismo histórico que herdei de Gramsci e Mariátegui, não é uma casca vazia que pode ser preenchida por qualquer projeto de poder: ela é sempre a expressão jurídico-política de um bloco histórico concreto, de uma aliança de classes que dá direção moral e intelectual ao Estado. E o bloco histórico que Putin e o aiatolá Khamenei representam é tudo, menos popular ou libertário.
Quando você ironiza as “análises de divã” sobre o patriarcado estatal, revela uma incompreensão profunda do que significa articular gênero e classe na tradição marxista — não como um “papo” identitário importado, mas como uma chave analítica indispensável para entender por que certos Estados, mesmo quando enfrentam o Ocidente, o fazem reforçando estruturas internas de opressão que atingem desproporcionalmente as mulheres, as dissidências sexuais e as minorias étnicas. Althusser nos ensinou que o Estado não é apenas um “comitê executivo da burguesia”, mas um conjunto de Aparelhos Ideológicos que reproduzem as relações de produção. Ora, qual é o principal Aparelho Ideológico mobilizado pelos regimes russo e iraniano para construir consentimento em torno de sua “força soberana”? A família patriarcal, a religião ortodoxa ou xiita reinterpretada como doutrina de Estado, a perseguição aos movimentos feministas e LGBTQIA+ como “agentes do Ocidente degenerado”. Não se trata, portanto, de um detalhe psicológico ou de uma análise “de divã”: trata-se da ossatura material do poder. A aliança Putin-Khamenei não é apenas geopolítica; ela é, simultaneamente, uma aliança de elites masculinas, brancas (no sentido simbólico do poder racializado) e heteronormativas que selam seus acordos comerciais e militares sobre os corpos das mulheres iranianas obrigadas ao hijab e dos soldados russos pobres enviados para morrer na Ucrânia. Ignorar essa dimensão é fazer, deliberadamente, uma análise capenga — e, pior, é abrir mão de um critério emancipatório que sempre distinguiu a esquerda socialista da esquerda nacionalista que, vez por outra, se encanta com “homens fortes” no poder.
Por fim, a menção ao “desarmamento do cidadão” e à suposta “inveja” da força russa e iraniana é reveladora de uma confusão perigosa entre poder popular e poder estatal repressivo. A esquerda pela qual milito — e que você, com desdém, chama de “caviar” — nunca defendeu o desarmamento do povo como sujeito político coletivo; defendeu, isto sim, que a verdadeira força de uma nação não está nos arsenais nucleares, mas na capacidade de suas classes trabalhadoras de se organizarem, de disputarem hegemonia e de construírem instrumentos próprios de defesa que não se confundam com as polícias militares que matam jovens negros nas periferias, nem com as milícias que impõem o terror em territórios controlados pelo tráfico e pelo crime organizado. Mariátegui, pensando a partir do Peru semifeudal dos anos 1920, já alertava: a força de um projeto socialista não está em copiar as formas estatais do capitalismo central ou de seus rivais autoritários, mas em enraizar a luta nas tradições comunitárias e nos sujeitos oprimidos que o Estado liberal e o Estado bonapartista igualmente massacram. Sua defesa implícita da “força pra valer” de Putin e do Irã é, no fundo, um elogio à violência estatal como fim em si mesma — e isso, Celio, tem nome na filosofia política: chama-se fascismo, ou, no mínimo, um cesarismo regressivo que Gramsci identificou com precisão cirúrgica. A esquerda que se preze não tem “inveja” de tanques e de polícias secretas; tem, isto sim, a memória longa dos que tombaram lutando contra ditaduras que também se diziam “soberanas” e “fortes”, da Rússia czarista ao Irã do Xá, e que sempre terminaram esmagando exatamente o povo que diziam defender. Se há algo de que sinto inveja, não é da força bruta de nenhum Estado: é da coragem das mulheres iranianas que queimam seus véus nas ruas, dos objetores de consciência russos que fogem do alistamento e dos movimentos populares que, em todo o mundo, insistem em construir poder desde baixo — sem pedir bênção a ONG europeia, mas também sem se ajoelhar diante de nenhum tirano de plantão.
Julia Andrade
30/04/2026
O espetáculo diplomático entre Rússia e Irã, embalado em declarações de importância histórica, parece sempre orbitar uma zona de conforto que a análise geopolítica tradicional hesita em nomear: a aliança do patriarcado estatal. Não se trata apenas de dois países sob sanções buscando rotas comerciais alternativas ou coordenando posições no tabuleiro mundial. Trata-se de um pacto de gênero que se expressa em gramáticas comuns — o controle sobre os corpos, a vigilância da moralidade, a sacralização da família heteronormativa como núcleo intocável da nação. Quando o Kremlin e Teerã falam em valores tradicionais, não estão fazendo filosofia abstrata: estão legislando sobre úteros, sexualidades dissidentes e o direito de existir fora do binário que sustenta o poder deles.
É sintomático que, na mesma semana em que se celebra esse encontro estratégico, o Irã siga executando manifestantes e a Rússia amplie sua legislação contra a chamada propaganda LGBT. A diplomacia de alto nível não paira acima da vida cotidiana — ela a estrutura. Cada aperto de mão entre Putin e Araghchi ecoa nas celas onde mulheres iranianas são detidas por mostrarem os cabelos, nas clínicas clandestinas onde pessoas trans russas tentam sobreviver à criminalização de suas identidades. A aliança estratégica entre esses Estados tem um subtexto que a linguagem asséptica dos comunicados oficiais esconde: a solidariedade entre regimes que entendem a dissidência de gênero e sexual como ameaça existencial ao seu projeto de poder.
Lendo os comentários anteriores, especialmente o do Major Ricardo, percebo como esse discurso encontra eco em setores que se imaginam críticos do globalismo, mas que reproduzem exatamente a mesma matriz de exclusão. Evocar valores tradicionais e ordem interna como entidades neutras é ignorar que toda tradição é um campo de disputa, e que a ordem interna que esses Estados defendem se constrói sobre a expulsão de corpos indesejados. Não há psicanálise marxista alguma nessa constatação – há materialidade histórica. O Irã pós-revolução islâmica e a Rússia pós-soviética reinventaram suas masculinidades nacionais em oposição ao que classificam como decadência ocidental, e essa reinvenção custa vidas reais, de Teerã a São Petersburgo.
A provocação do Paulo Gestor sobre planilhas de custo-benefício é pertinente, mas insuficiente. Claro que a população russa e iraniana sofre com inflação e carestia enquanto recursos são drenados para a máquina militar. Mas o custo mais profundo é aquele que as rubricas contábeis não capturam: o estreitamento do horizonte de possibilidades para quem não se encaixa no molde do cidadão de bem que esses regimes idealizam. Segurança ontológica, para usar um termo caro aos estudos culturais, é um luxo que alianças geopolíticas como essa sistematicamente negam a mulheres, pessoas queer e minorias étnicas que ousam existir fora do roteiro.
Enquanto a esquerda ocidental muitas vezes se perde em debates sobre como se posicionar diante desses Estados – se condena o imperialismo americano e portanto releva o autoritarismo doméstico deles, ou se faz o contrário –, as ruas do Irã e os arquivos de processos judiciais russos contam uma história mais complexa. A luta contra o imperialismo não pode ser dissociada da luta contra o patriarcado e a heterocisnormatividade. Quando celebramos acriticamente cada movimento que desafia Washington, corremos o risco de aplaudir também a construção de um mundo onde a liberdade segue sendo privilégio de poucos, muito bem guardada por homens que se encontram em palácios para decidir, entre outras coisas, o que farão com os corpos que ousam não se curvar.
Paulo Gestor RJ
30/04/2026
Olho para esses comunicados grandiosos e me pergunto: cadê a planilha de custo-benefício por trás da pose? Aliança estratégica é bonita no papel, mas o contribuinte russo e o iraniano precisam saber se isso vai se traduzir em menos inflação ou só em mais rubrica militar. Gestão que se mede por aperto de mão e adjetivos pomposos costuma entregar pouco resultado concreto.
Mariana Alves
30/04/2026
O espetáculo cuidadosamente coreografado pelo Kremlin, com direito a declarações de “importância difícil de superestimar”, revela muito mais do que mera diplomacia entre potências sob sanções ocidentais. Revela uma gramática política que merece escrutínio rigoroso: a construção retórica do excepcional, do grandioso, do histórico, como estratégia discursiva para legitimar alianças que, no fundo, operam dentro da mesma racionalidade instrumental que dizem combater. É a velha técnica de hipostasiar o encontro para ocultar as contradições que ele carrega. Afinal, o que significa “superestimar” uma reunião? Significa crer que os acordos ali firmados transcendem as determinações estruturais do capitalismo global contemporâneo — e isso, francamente, é uma ilusão que a história recente já desmentiu inúmeras vezes.
O alinhamento entre Moscou e Teerã não constitui, como pretendem alguns setores da direita nacionalista, uma “resistência ao globalismo” ou uma defesa heroica da soberania dos povos. Trata-se, isto sim, de um rearranjo geopolítico perfeitamente inteligível dentro da crise de hegemonia que caracteriza o interregno atual — para usar o conceito gramsciano, tão pertinente aqui. O multilateralismo às avessas que Rússia e Irã ensaiam, centrado em acordos energéticos, militares e logísticos, não rompe com a lógica do capital transnacional; apenas disputa seus fluxos, suas rotas, seus nós de acumulação, tentando reorganizar as cadeias de valor em benefício próprio. A multipolaridade que anunciam está longe de ser emancipatória: ela substitui a dominação unipolar estadunidense por uma competição interimperialista cujo custo humano já se mede em vidas ceifadas da Ucrânia ao Iêmen, passando pelo saque continuado de recursos naturais em territórios periféricos.
E aqui é preciso retomar, com o devido rigor analítico, a discussão que se esboçou nos comentários anteriores sobre os tais “valores tradicionais” que essa aliança pretensamente protege. A tradição que o regime de Putin e a teocracia iraniana instrumentalizam não é um dado cultural neutro, como bem lembrou minha xará Mariana; é uma tecnologia de controle biopolítico que opera pela regulação dos corpos, das sexualidades dissidentes, da autonomia reprodutiva e da liberdade de expressão. A defesa da “família”, da “ordem interna” e dos “valores morais” contra uma suposta agenda globalista funciona, na prática, como dispositivo de legitimação de estruturas profundamente violentas de dominação de gênero e classe. Não é coincidência que esses mesmos regimes que erguem a bandeira do conservadorismo moral sejam também aqueles que reprimem sindicatos, perseguem minorias e concentram riqueza em proporções obscenas.
O que torna essa discussão especialmente urgente para nós, no Brasil, é a maneira como setores da direita local — incluindo, infelizmente, certos militares da reserva que frequentam estas páginas — compram acriticamente essa narrativa de “soberania” sem jamais se perguntarem a quem ela realmente serve. Soberania para quem? Para os trabalhadores russos que têm seus salários corroídos pela inflação enquanto o orçamento militar dispara? Para as mulheres iranianas que arriscam a vida ao tirar o hijab? Para os camponeses brasileiros que dependem de fertilizantes importados cujo preço é ditado por cartéis geopolíticos? A resposta honesta, por mais incômoda que seja, é que essa aliança dita anti-hegemônica protege, antes de tudo, os interesses de elites extrativistas, de aparatos militares e de oligarquias financeiras que se acomodam perfeitamente à fase atual do capitalismo em crise.
Como professora que passa boa parte do tempo analisando com meus alunos os mecanismos ideológicos de naturalização do poder, vejo nesse encontro de São Petersburgo um caso didático de como os Estados conseguem transformar alianças táticas entre autocracias em narrativas épicas de resistência civilizacional — e de como certos setores da opinião pública, inclusive à esquerda, caem nessa armadilha. A crítica consequente não pode se contentar em denunciar a hipocrisia do Ocidente (que é real e documentada); precisa também desmontar a mitologia que Rússia e Irã constroem sobre si mesmos. Sem esse duplo movimento crítico, corremos o risco de trocar um sistema de dominação por outro igualmente letal — e, como advertia Walter Benjamin, não há documento de cultura que não seja também documento de barbárie. O encontro de Putin com Araghchi será lembrado, no futuro, não pelo que o Kremlin diz que ele significa, mas pelas consequências materiais que suas decisões terão sobre os corpos concretos que jamais pisarão nos palácios de São Petersburgo.
Major Ricardo Silva
30/04/2026
Engraçado ver gente citando psicanálise marxista como se fosse ciência, enquanto dois países soberanos se alinham contra essa agenda globalista que quer só desarmar o cidadão de bem. Quem só sabe chorar preço de gás não entende que, sem força militar e ordem interna, logo não tem gás nem arroz nenhum na prateleira. Putin e o Irã mostram que o eixo da resistência aos valores tradicionais está mais vivo do que nunca.
Mariana Oliveira
30/04/2026
Major Ricardo, o senhor evoca “valores tradicionais” e “ordem interna” como se fossem entidades neutras, pairando acima de corpos e vivências concretas. Mas a tradição que o Irã e a Rússia de Putin defendem tem nome, endereço e gênero: é a tradição do patriarcado armado, que criminaliza a dissidência sexual, submete mulheres ao controle reprodutivo e trata minorias étnicas como ameaça à pureza nacional. Não é por acaso que, enquanto o senhor fala em “cidadão de bem”, a polícia moral iraniana arranca véus de mulheres nas ruas e o Kremlin financia movimentos ultraconservadores mundo afora para reverter direitos LGBTQIA+. A interseccionalidade, conceito que Kimberlé Crenshaw forjou para entender como raça, gênero e classe se sobrepõem, desmonta essa falácia: a “ordem” que o senhor defende nunca foi feita para proteger a todos — ela foi erguida sobre a exclusão sistemática de quem não se encaixa no padrão homem-branco-hétero-cristão que esses regimes idolatram.
O senhor zomba de quem “chora preço de gás”, mas esquece que as crises inflacionárias e a carestia de itens básicos não atingem a todos igualmente. bell hooks nos ensinou que o sofrimento econômico é generificado e racializado — são as mulheres negras e periféricas, no Brasil e em qualquer lugar, que pagam primeiro a conta quando o Estado prioriza tanques em vez de creches, quando aliados internacionais boicotam sanções enquanto a carne desaparece do prato de suas crianças. A força militar que o senhor tanto exalta não enche barriga, Major; ela desvia recursos de políticas sociais que poderiam aliviar a vida de quem realmente sustenta a sociedade com trabalho mal pago e invisível. Que “ordem” é essa que exige canhão e deixa o gás de cozinha como artigo de luxo? Que “resistência” é essa que se ancora na repressão sexual e no silenciamento de vozes feministas e antirracistas?
Putin e seus aliados iranianos não estão defendendo a soberania dos povos — estão blindando um modelo de dominação que se nutre da vulnerabilidade alheia. O “eixo da resistência” ao qual o senhor se refere exporta, na verdade, um projeto de poder que usa a família tradicional como biombo para o autoritarismo. A Rússia descriminalizou parcialmente a violência doméstica em 2017, sob o argumento de “preservar a tradição familiar”; o Irã executa ativistas dos direitos das mulheres e enforca homens gays. Isso não é força, é covardia institucionalizada. A segurança que realmente importa não vem de mísseis, mas de uma rede de proteção social que impeça que mulheres sejam assassinadas por seus parceiros, que pessoas trans sejam expulsas do mercado de trabalho, que crianças negras cresçam com o estigma de viverem em zonas de guerra urbana.
Portanto, quando o senhor invoca os “valores tradicionais”, eu pergunto: a tradição de quem? A minha, como mulher não branca e periférica, não está representada nessas alianças geopolíticas. A tradição que me contaram é a da exploração colonial, do estupro corretivo, da subjugação doméstica. A resistência que eu reconheço é a das feministas interseccionais que, de Teerã a Moscou, de São Paulo a Cabul, desafiam cotidianamente o pacto entre capital, Estado e patriarcado. Enquanto o senhor se maravilha com apertos de mão ditatoriais, há mulheres organizando cozinhas solidárias para contornar a inflação do gás e redes de cuidado que sobrevivem exatamente porque recusam essa “ordem” excludente. A verdadeira segurança, Major, é a que constrói autonomia e dignidade — não a que se impõe com cassetete e retórica de guerra.
Augusto Silva
30/04/2026
Carlos Meirelles falou em “gastança em defesa” como se o problema fosse o Estado gastar, quando na real o complexo militar-industrial americano agradece de joelhos cada vez que um país emergente corta seus próprios investimentos estratégicos e terceiriza segurança — o resultado é dependência tecnológica e déficit comercial crônico, não “liberdade econômica”.
E essa fixação com o gás do João Santos é quase poética: o camarão que o brasileiro paga caro pelo botijão tem muito mais a ver com a política de preços da Petrobras atrelada ao mercado internacional do que com o aperto de mão entre Putin e Araghchi — mas é sempre mais fácil culpar o fantasma geopolítico do que entender o que a ANP e o CADE andam fazendo aqui dentro.
João Santos
30/04/2026
Tudo teatro de chefão, no fim a conta cai no colo de quem rala. Aqui no Brasil a gente já conhece esse filme: muito aperto de mão e o gás continua pesando no contracheque. Confiar em acordo de russo e iraniano é jogar dinheiro fora.
Carlos Meirelles
30/04/2026
Enquanto o Kremlin posa de estrategista e o pessoal aqui fica contando moeda do gás, o que ninguém enxerga é que essa dança de ditaduras só serve pra justificar mais intervenção estatal e gastança em defesa — no fim, o trabalhador russo, iraniano e brasileiro pagam a conta com inflação e menos liberdade econômica. Se o Brasil quiser mesmo proteger o pobre, é menos pajubá diplomático e mais corte de imposto na veia.
Luciana
30/04/2026
Tanta conversa fiada e meu carnê do gás continua subindo. Esses encontros de gente grande são bonitos na foto, mas na minha loja o que importa é o juro do cartão que não para de comer minha margem.
Letícia Fernandes
30/04/2026
É quase comovente observar, nos comentários que me antecedem, o desfile involuntário daquilo que a psicanálise marxista tão bem descreve como o recalque estrutural do sujeito sob o capital: a redução imediata de qualquer evento geopolítico ao preço do gás e do arroz, como se a política internacional fosse uma abstração desconectada da vida material, e como se a vida material, por sua vez, fosse apenas a soma de aflições individuais no supermercado. Há nesse gesto uma renúncia epistemológica que o próprio sistema cultiva com esmero — a incapacidade de perceber que o preço do gás é, precisamente, a expressão doméstica terminal de uma cadeia global de dominação imperialista, extração de mais-valia e disputa interimperialista. O encontro entre Putin e o chanceler iraniano não acontece em uma esfera separada da existência; ele é um sintoma agudo de um sistema-mundo em fratura, e sua importância não deriva das personalidades envolvidas, mas do que ele sinaliza sobre a reconfiguração da superestrutura política que administra a exploração em escala planetária.
O que está em jogo nessa reunião, e que escapa a quem busca apenas o reflexo imediato na prateleira do mercado, é a contestação material à arquitetura unipolar que sustentou, desde Bretton Woods, a hegemonia do capital financeiro anglo-americano sobre as periferias do mundo. Rússia e Irã, cada qual a seu modo, são nações que sofreram o peso das sanções como instrumento disciplinador do Ocidente — sanções que, não custa lembrar, não atingem as burguesias compradoras desses países, mas sim suas classes trabalhadoras, suas populações mais vulneráveis, exatamente como as políticas de austeridade atingem o povo brasileiro enquanto os rentistas comemoram a Selic nas alturas. A aproximação entre Moscou e Teerã é, portanto, um movimento tático no tabuleiro da luta anti-imperialista, e enxergá-la apenas como “pose em palácio”, como disse um dos comentaristas, é sucumbir à mistificação promovida pela própria imprensa burguesa, que trata relações internacionais como encontro de celebridades para ocultar os interesses de classe que as movem.
Há um ponto na intervenção do colega Ronaldo Pereira que merece ser expandido: ele menciona, acertadamente, a classe operária russa e iraniana, mas me parece necessário radicalizar essa intuição. A verdadeira solidariedade entre os povos russo e iraniano não está no aperto de mãos protocolares em São Petersburgo — nisso ele tem toda razão —, mas tampouco está em uma abstração retórica sobre “luta comum contra o capital”. Ela reside, concretamente, no fato objetivo de que tanto o operário russo submetido às sanções quanto o trabalhador iraniano estrangulado pelo bloqueio econômico são vítimas do mesmo processo de acumulação por espoliação que, no Brasil, assume a forma da desindustrialização, do desmonte da Petrobras, da entrega do pré-sal e da precarização uberizada do trabalho. O que os vincula não é a diplomacia de seus governos, mas a posição comum que ocupam na divisão internacional do trabalho. E é exatamente essa conexão que a ideologia dominante — inclusive na sua versão “preocupada com o gás” — precisa ocultar, fragmentando a percepção de classe em mil ansiedades cotidianas desconectadas.
Permito-me um breve diagnóstico psicanalítico desse fenômeno: o que os comentários de Tadeu, Rubens e Ronaldo Silva expressam, com sua insistência quase sintomática no “preço do arroz”, é a introjeção completa do princípio de realidade burguês, que reduz toda a experiência humana à esfera do consumo imediato e transforma o cidadão em um eterno administrador de sua própria miséria, incapaz de erguer os olhos para a totalidade que o oprime. Não se trata, aqui, de desprezar a fome ou a aflição do orçamento doméstico — seria obsceno fazê-lo. Trata-se de apontar que a exclusividade dessa preocupação, o fechamento hermético do horizonte político ao preço da mercadoria, é exatamente o que a burguesia deseja: um proletariado tão exausto pela sobrevivência que jamais se constitua como classe-para-si, que jamais pergunte por que o gás está caro, de onde vem o gás, quem controla sua extração, quem lucra com sua distribuição e quem decide, em última instância, as condições sob as quais a energia circula pelo mundo.
Encerro, portanto, com uma provocação que é também um convite: e se, em vez de perguntar se a reunião de Putin com o chanceler iraniano vai baixar o preço do arroz amanhã, perguntássemos por que a nossa sobrevivência cotidiana está sequestrada por decisões tomadas em salões distantes, por líderes que não elegemos, em nome de interesses que não controlamos? A resposta a essa pergunta é o começo do despertar político. Enquanto isso, seguiremos presos no círculo vicioso de uma consciência infeliz que mede o mundo pela cesta básica, sem jamais se dar conta de que a cesta básica é o termômetro de uma doença cujo nome é capitalismo, e cuja cura não virá de nenhum Kremlin, de nenhum palácio em São Petersburgo, mas da organização independente daqueles que, em todo o planeta, produzem a riqueza e arcam com a escassez. O resto é ruído — ou, como diria um analista diante da fala repetitiva e estéril do paciente que resiste à cura, é resistência a sair do lugar sintomático que, apesar de doloroso, oferece a segurança ilusória do conhecido.
Ronaldo Pereira
30/04/2026
O pessoal aqui falou do gás e do arroz, e têm razão: enquanto os chefes de Estado brindam em São Petersburgo, a classe operária do Irã e da Rússia continua sentindo o peso das sanções. A verdadeira solidariedade não se faz com aperto de mão entre governos, mas na luta comum contra a exploração em cada fábrica, em cada porto.
Ronaldo Silva
30/04/2026
É isso aí que o Tadeu falou, e o João Batista completou bem. Pode ter reunião de presidente russo, americano, o diabo a quatro, no final do mês o que pesa é o preço do gás e da comida. Enquanto esses caras fazem pose em palácio, a gente aqui na corrida se matando pra pagar IPVA e gasolina a 6 conto o litro.
João Batista
30/04/2026
Tadeu, meu irmão, tua pergunta é a mais honesta dessa thread inteira — porque nem só de pão vive o homem, mas sem o pão o estômago ronca e a alma não consegue nem rezar. Esses poderosos se reúnem em palácios e o povo aqui na quebrada contando moeda pra comprar o gás, enquanto a imprensa fica nesse teatrinho geopolítico que não enche barriga de ninguém. Jesus não mandou a gente discutir império, mandou dar de comer a quem tem fome — e é isso que falta nesse noticiário todo.
Tadeu
30/04/2026
Tá, mas esse blablablá todo muda o quê na cotação do dólar amanhã? Me diz aí se essa reunião vai baixar o preço do arroz ou segurar a Selic, porque até agora só vi discurso.
Rubens O Pescador
30/04/2026
A turma do “faz o L” fica nessa conspiração de quinta série enquanto a gente lembra que no governo do Lula o povo tinha dinheiro no bolso e carne na mesa todo fim de semana. Hoje o cidadão não tem nem pro gás e ainda quer dar pitaco em reunião de presidente russo com iraniano — vai entender.
Luan Silva
30/04/2026
Putin de mãos dadas com aiatolá e a esquerda ainda chora falando em democracia, faz o L agora, otário!
Lucas Pinto
30/04/2026
Luan, reduzir a complexidade geopolítica a um “Putin de mãos dadas com aiatolá” é exatamente o tipo de simplificação que Foucault descreveria como efeito de um regime de verdade: um discurso que estabelece o que é visível e o que é obsceno, quem são os sujeitos autorizados a falar em nome da democracia e quem deve ser automaticamente desqualificado como tirano. A sua indignação moral parte do pressuposto — jamais questionado — de que a democracia liberal ocidental é o horizonte universal da política, quando na verdade ela mesma é um dispositivo histórico de gestão de populações, fundado na exclusão colonial e na acumulação de capital. Esse mecanismo funciona como uma lente que torna invisíveis as alianças duradouras do Ocidente com monarquias absolutistas como a Arábia Saudita, ou o apoio entusiasmado a ditaduras militares sempre que estas serviram aos interesses das corporações transnacionais. A pergunta que fica: por que a mão dada entre Washington e Riad nunca provoca o mesmo escândalo?
A insistência no bordão “faz o L agora” revela algo mais sintomático ainda do ponto de vista da luta de classes no plano simbólico. Gramsci nos ensinou que a hegemonia se constrói também pela saturação do senso comum com significantes vazios que operam como pontos de condensação afetiva — o “L”, aqui, funciona como um fetiche que unifica uma série de ansiedades difusas (anticomunismo, nacionalismo de fachada, ressentimento social) sem jamais exigir uma análise material das relações de força. É puro gozo ideológico: ao invocar o “L”, você se insere numa comunidade imaginária de “patriotas” que tudo entendem, enquanto o “otário” é aquele que ousa pensar fora da caixa do liberalismo realmente existente. O curioso é que essa retórica opera de maneira perfeitamente funcional à manutenção do status quo capitalista, que depende tanto da demonização de alianças anti-hegemônicas quanto do esvaziamento de qualquer discurso que aponte para alternativas sistêmicas ao mercado global.
Marx já demonstrava que o capital não tem pátria e não se constrange com formas de governo — o czarismo russo do século XIX, que sua ideologia certamente pintaria como “autocracia oriental”, era um parceiro comercial perfeitamente respeitável para as potências liberais. O que está em jogo no encontro entre Putin e o chanceler iraniano não é um embate abstrato entre democracia e autoritarismo, mas a construção de um bloco histórico concreto que desafia a arquitetura financeira e militar do dólar, das sanções unilaterais e da OTAN como polícia global. Reduzir isso a uma torcida de futebol geopolítico, com “lados” pré-fabricados pelo noticiário corporativo, é colaborar involuntariamente para a naturalização da ordem vigente — exatamente como Foucault descreve o poder que se exerce não só pela repressão, mas pela produção de subjetividades dóceis que internalizam os critérios do adversário antes mesmo de começar a pensar.
Tonho Patriota
30/04/2026
ISSO É O FORO DE SÃO PAULO COM RUSSA E IRÃ AGINDO NAS SOMBRAS, FAZ O L AGORA!
João Carlos da Silva
30/04/2026
Tonho, sua insistência em personalizar a geopolítica num “Foro de São Paulo” imaginário é precisamente o mecanismo que Gramsci descrevia como hegemonia pelo senso comum — uma cortina de fumaça que impede o povo de enxergar as estruturas reais de dominação. Enquanto você grita “faz o L”, o capital financeiro transnacional segue impune, porque desviar o olhar para um bode expiatório sempre foi mais fácil do que enfrentar a desigualdade que nos esmaga.
Luciana Santos
30/04/2026
Com tanta citação de filósofo, o assunto parece artigo de revista chique. Na minha realidade, importantes mesmo são as tarifas e o preço do pão, que ninguém discute.
Laura Silva
30/04/2026
Marta, sua provocação como historiadora é preciosa e merece ser levada a sério. Mas creio que a chave para decifrar essa “importância difícil de superestimar” está menos na geopolítica e mais na economia política que Marx nos legou. O encontro entre Putin e o chanceler iraniano não é um acidente diplomático nem um gesto de resistência anti-imperialista — é a expressão madura de um capitalismo de compadrio que encontra, na guerra e nas sanções, seu mecanismo mais eficiente de acumulação. Enquanto a mídia ocidental demoniza o Irã e a Rússia como ameaças à “ordem liberal”, esquece-se de que ambos os regimes são, em essência, gestores brutais de uma integração subalterna ao mercado mundial. Vendem petróleo, gás e minérios; compram armas e tecnologia de vigilância; reprimem sindicatos e movimentos populares. A aliança que se celebra em São Petersburgo não é uma frente de libertação dos povos, mas um consórcio de elites rentistas que aprenderam a lucrar com o cerco imperialista sem jamais contestar a lógica do capital.
É aqui que discordo respeitosamente do tom de alguns colegas que veem nesse encontro uma reedição do “eixo do mal” ou uma simples luta entre potências. O que está em jogo é a própria anatomia do capitalismo contemporâneo, que produz “Estados párias” justamente para ter com quem negociar nos porões da legalidade internacional. A Rússia de Putin e o Irã dos aiatolás não são resquícios feudais ou teocráticos que sobrevivem à modernidade; são produtos da modernidade neoliberal, que dissolve soberanias populares e fortalece soberanias do capital. A esquerda que aplaude esses regimes como “anti-imperialistas” comete o mesmo erro que os velhos social-democratas cometeram ao apoiar aventuras coloniais em nome do progresso. Lênin já alertava, há mais de cem anos, que o imperialismo é a fase superior do capitalismo, e não uma política externa que se possa simplesmente “corrigir” com alianças táticas. Ele é uma relação social, uma forma de exploração que atravessa as fronteiras e une burguesias de todas as bandeiras contra os trabalhadores de todas as nações.
Por isso, a retórica do Kremlin — essa “importância difícil de superestimar” — deve ser lida como o que é: um discurso de legitimação para um bloco de poder que se alimenta da miséria que ele mesmo produz. Na Rússia, a guerra na Ucrânia serve para justificar o esmagamento de qualquer oposição interna e a transferência de riqueza para oligarcas próximos ao poder. No Irã, as sanções estrangulam a população enquanto a Guarda Revolucionária expande seus negócios. O povo, como bem lembrou a Maria Silva, quer paz e dignidade. Mas paz e dignidade não virão de cúpulas entre chefes de Estado, e sim da organização autônoma dos que vivem do próprio trabalho — no Irã, na Rússia, no Brasil e em todo o Sul Global. Nossa solidariedade não pode ser com Estados, mas com as mulheres que desafiam o hijab obrigatório, com os operários russos que se recusam a ir para o front, com os camponeses que resistem ao agronegócio em todos os cantos do planeta.
Encerro com uma reflexão que talvez dialogue com o que a Marta começou a esboçar: o verdadeiro movimento da história não está nos palácios de São Petersburgo, mas nas greves, nas revoltas silenciosas que o noticiário ignora. A ironia suprema desse encontro é que ele tenta monumentalizar um instante de poder, quando o que vemos, nas entranhas da sociedade, é a decomposição acelerada de todas as formas autoritárias de dominação. Que nós, como intelectuais, tenhamos a lucidez de não confundir a ferrugem dessas engrenagens com o brilho de uma pretensa emancipação. O inimigo principal está em toda parte onde o trabalho é submetido ao capital — e é contra ele, e não com ele, que se constrói um futuro digno para as famílias comuns que tanto nos comovem.
Marta
30/04/2026
Meus queridos, vejo aqui uma discussão riquíssima, com referências a Hobbes, Marx, Benjamin e Gramsci — dá gosto ver leitores que não se contentam com as manchetes rasas. Mas permitam que uma velha professora de história acrescente um ponto que talvez esteja escapando: o que o Kremlin chama de “importância difícil de superestimar” é, na verdade, uma tentativa de reescrever o roteiro da Guerra Fria sem os povos como protagonistas. A história nos ensina que alianças entre autocracias jamais trouxeram emancipação aos trabalhadores — seja na Rússia czarista, seja no Irã dos aiatolás. O que está em jogo não é uma “resistência anti-imperialista” genuína, mas uma dança de elites que usam a soberania nacional como biombo para manter seus privilégios.
E aqui eu preciso discordar respeitosamente da tentação de tratar esse encontro como um mero jogo de linguagem performática, como sugeriram alguns comentários. A linguagem do poder não é só retórica; ela produz efeitos concretos. Quando Peskov diz que o encontro é difícil de superestimar, ele está sinalizando aos mercados, às chancelarias e aos povos que Moscou e Teerã estão dispostos a aprofundar uma cooperação militar e econômica que vai muito além da retórica. Isso significa mais drones iranianos sobrevoando a Ucrânia, mais grãos ucranianos sendo bloqueados, mais famílias — como bem lembrou a companheira Maria — vendo seus filhos serem arrastados para guerras que não escolheram. A história do século XX está coalhada desses “encontros históricos” entre tiranos que terminaram em trincheiras e valas comuns.
Agora, eu pergunto: onde está o povo nessa equação? O trabalhador russo que enfrenta uma inflação galopante e a repressão implacável do regime Putin não foi consultado sobre esse abraço com a teocracia iraniana, assim como a juventude iraniana que luta heroicamente contra o regime dos aiatolás não quer ser usada como peça de xadrez geopolítico. Como professora, eu sempre digo: desconfiem de acordos entre poderosos que nunca vêm acompanhados de um plebiscito. A verdadeira importância histórica está nas lutas populares — nas ruas de Teerã, nas praças de Moscou, nos sindicatos brasileiros — e não em salões de São Petersburgo com tapetes vermelhos e sorrisos ensaiados.
Nós, do Brasil, temos uma lição preciosa a oferecer. O presidente Lula, com todos os limites que a conjuntura impõe, busca construir uma inserção internacional baseada na paz, na multipolaridade e, sobretudo, na soberania popular. Enquanto alguns meninos mal-educados insistem em demonizar qualquer diálogo que não seja subserviente a Washington, esquecem que a diplomacia brasileira foi capaz de condenar a invasão da Ucrânia sem alinhar-se automaticamente nem a Moscou nem à Otan. É isso que o Kremlin e seus pares temem: uma voz do Sul Global que não se dobra a chantagens, mas também não romanticiza tiranias. O encontro de Putin com Araghchi é importante, sim, mas não pela razão que o Kremlin imagina — é importante porque revela o desespero de dois regimes que estão perdendo a batalha por legitimidade entre seus próprios povos. A história, essa senhora implacável, já viu esse filme muitas vezes, e o final nunca foi feliz para os que apostaram contra as maiorias.
Maria Aparecida
30/04/2026
A irmã Maria tocou na ferida: o povo só quer paz. Mas essa paz não virá de alianças entre tiranos com as mãos sujas de sangue. Como Isaías já denunciava, ai daqueles que descem ao Egito em busca de ajuda, confiando em cavalos e carros de guerra, em vez de olharem para o Santo de Israel. O encontro de Putin com o chanceler iraniano não é sobre proteção dos fracos; é sobre blindar um clube de poderosos que pisam nos pobres e abafam os clamores por justiça. Deus não está nessa mesa.
João Augusto
30/04/2026
A retórica do Kremlin — “importância difícil de superestimar” — é precisamente o que Walter Benjamin identificaria como a tentativa de monumentalizar um instante de perigo desprovido de redenção. Gramsci, contudo, nos lembra que alianças entre potências semiperiféricas contra o centro hegemônico costumam mimetizar a lógica de dominação que fingem contestar, e o povo iraniano experimenta na carne o peso da teocracia que Pedro mencionou.
Pedro Almeida
30/04/2026
A falsa “importância difícil de superestimar” é puro jogo de linguagem do poder, como aqueles símbolos de autoridade que Hobbes já dissecava — só que aqui é a aliança entre um czarismo tardio e uma teocracia que asfixia seu próprio povo. Como Marx profetizou, a história se repete como farsa: agora vemos oligarquias que falam em nome da luta anti-imperialista enquanto esmagam a justiça social onde vivem.
Maria Silva
30/04/2026
Olha, fico aqui lendo essa discussão e pensando: enquanto o mundo se divide entre “eixo do mal” e “resistência anti-imperialista”, as famílias comuns — na Rússia, no Irã, aqui no Brasil — só querem viver em paz, com dignidade. O que me preocupa não é o rótulo ideológico, mas o fato de que lideranças se abraçam enquanto a corrupção e a falta de ética corroem as bases de todos os lados.
Caio Vieira
30/04/2026
A insistência do Kremlin em qualificar o encontro como “de importância difícil de superestimar” não é mero floreio diplomático — é a enunciação performativa de um bloco que se pretende contraponto à hegemonia ocidental, mas cuja costura interna revela mais sobre as ansiedades do capitalismo rentista russo-iraniano do que sobre qualquer utopia pluriversal. A expressão, na sua ênfase superlativa, carrega o gesto típico das razões de Estado que buscam naturalizar alianças pela teatralidade do anúncio, e não pela densidade do pacto. Como nos ensinou Maquiavel, o príncipe precisa parecer virtuoso; Putin e os aiatolás sabem que a encenação geopolítica é, ela mesma, instrumento de governamentalidade — mas para quem, e contra quem? A resposta não está nos mísseis que o Sargento Bruno invoca, mas na gramática simbólica com que essas elites administram o medo e a esperança de suas populações.
Dito isso, reduzir a reaproximação Moscou-Teerã a um “eixo do mal” é confortar-se no maniqueísmo que a indústria cultural estadunidense nos legou, sem jamais interrogar as mediações concretas. A provocação de Lucas Andrade, ao trazer Adorno e Foucault para o debate sobre biopoder e algoritmos, acerta ao deslocar o foco: o verdadeiro dispositivo de controle não está apenas no porta-aviões, mas na capilaridade das plataformas que nos fazem aplaudir ou execrar líderes estrangeiros como quem escolhe times de futebol. A soberania estatocêntrica que Bruno defende é, ela própria, uma forma de colonialidade do poder — ancorada na crença de que a emancipação de um povo se mede pela sua capacidade de projetar força bélica, e não pela sua autonomia diante das estruturas que reproduzem a dependência. Nesse sentido, a aliança russo-iraniana é menos “antagonismo ao imperialismo” e mais uma recomposição das periferias do sistema-mundo dentro da mesma lógica de acumulação por espoliação.
Fernanda Oliveira tem razão em apontar o cinismo da desdolarização festejada como ruptura anticolonial quando ela é, na prática, uma manobra de elites autoritárias para burlar sanções. Contudo, convém complexificar: não se trata de descartar o potencial tático da superação do dólar como arma — o subalterno, nos interstícios da ordem global, também pode se valer das brechas que essas alianças entre oligarcas e aiatolás abrem. O problema está em confundir tática com estratégia, e sobretudo em ignorar que, tanto em Moscou quanto em Teerã, a “luta anti-hegemônica” é discurso de legitimação de regimes que esmagam dissidências internas com violência patriarcal e de classe. O povo iraniano nas ruas não luta contra o imperialismo vestindo a camisa dos aiatolás; luta contra a própria teocracia que agora Putin corteja. A solidariedade às lutas empreendedoras do povo exige de nós esse discernimento: apoiar a resistência à opressão sistêmica do Norte Global sem romantizar os autoritarismos que se apresentam como alternativa.
Por fim, o que o assessoramento de Peskov chama de “importância difícil de superestimar” é, no fundo, o sintoma de um momento em que a geopolítica se tornou o grande espetáculo compensatório da falta de projetos populares de transformação. Enquanto o debate público oscila entre a paranoia securitista e a adesão acrítica a qualquer polo que desafie Washington, a racionalidade neoliberal avança sobre nossos territórios com planos diretores excludentes e a financeirização da vida cotidiana — como bem lembrou Vanessa Silva, cuja crítica à ausência de mobilidade real é mais radical do que parece. A verdadeira desdolarização da nossa existência começa menos na troca de moedas entre bancos centrais e mais na desmercantilização do comum, na recusa das subjetividades que o biopoder contemporâneo nos impõe. Que se encontrem Putin e Araghchi; a história, como Gramsci advertiria, não será escrita nas cúpulas, mas na trincheira molecular do cotidiano.
Sargento Bruno
30/04/2026
Luisa Teens, o apocalipse climático de vocês é o menor dos problemas quando Moscou e Teerã afinam a artilharia contra o Ocidente. Enquanto brincam de Greta, o eixo do mal avança sem freio e nossa soberania fica na mira. Acordem, patriotas de iPhone não seguram míssil.
Lucas Andrade
30/04/2026
Sargento Bruno, esse seu “eixo do mal” é a fábula que legitima a maquinaria bélica enquanto o biopoder já nos enreda nas técnicas minúsculas — Adorno e Foucault ririam da soberania que se exibe em mísseis e se entrega, alegre, aos algoritmos no mesmo iPhone que você chama de patriota.
Lucas Moreira
30/04/2026
Enquanto o pessoal briga se isso aqui é “eixo do mal vermelho” ou fantasmagoria ideológica, o dado concreto é que Rússia e Irã estão acelerando o comércio em rublos e riais, sem passar pelo dólar — isso mexe com preço de commodity e rota de pagamento. O gráfico de swaps bilaterais não mente, mas é mais fácil caçar fantasma político do que entender que o estado inchado aqui dentro é o que trava nossa competitividade de verdade.
Fernanda Oliveira
30/04/2026
Lucas, a desdolarização que você celebra é manobra de elites autoritárias pra fugir de sanções enquanto o povo iraniano enfrenta repressão brutal nas ruas — não é ruptura anticolonial, é bloco de conveniência entre oligarcas e aiatolás. Se o estado inchado aqui trava nossa competitividade, então que tal começarmos taxando os super-ricos e investindo em transporte público, em vez de normalizar aliança com quem enforca sindicalistas e mulheres?
Vanessa Silva
30/04/2026
Enquanto perdem tempo caçando fantasma vermelho em reunião de oligarca com teocracia, nossas cidades seguem sem plano diretor que priorize mobilidade real e adensamento inteligente. Essa fixação em teoria conspiratória é o verdadeiro obstáculo ao desenvolvimento urbano — e isso, sim, é difícil de superestimar.
Zé do Povo
30/04/2026
ACORDA BRASIL, O EIXO DO MAL VERMELHO TÁ SE AJEITANDO E A GENTE AQUI DEBATENDO METRÔ 😡🔥 DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA PRA CIMA DESSES COMUNISTAS INFERNIZANTES!
Bia Carioca
30/04/2026
Zé, enquanto você vê comunista até em reunião de oligarca russo com teocracia, aqui no Rio a gente só quer saber de trem que não descarrile e ônibus que não pegue fogo — mas isso seus mitos nunca pautam, né? O Rodrigo Neves ao menos fala de ferrovia e da ligação Niterói-Rio, enquanto vocês ficam gritando “Deus, Pátria e Família” em cima de catraca quebrada.
Luisa Teens
30/04/2026
A Greta te mandou um abraço e avisou que o apocalipse climático não é “eixo do mal”, é sua ignorância mesmo, #ForaBolsonaro
João Carvalho
30/04/2026
Caro Zé, sua “ameaça vermelha” é tão anacrônica que faria Joseph McCarthy corar: a Rússia de Putin é um capitalismo de compadrio ortodoxo e o Irã uma teocracia repressora de sindicatos — chamar isso de comunismo é confundir geopolítica com fantasmagoria ideológica, um erro de manual que nem os manuais soviéticos cometeriam.
Clotilde Pátria
30/04/2026
Meu Deus do céu, esse encontro é a prova de que o regime comunista global está se ajeitando para dominar tudo de vez! Putin e o Irã estão tramando a nova ordem vermelha, e aqui no Brasil o STF e o PT vão entregar o país de bandeja. Só a intervenção divina salva nossa pátria dessa desgraça!
João Silva
30/04/2026
Clotilde, com todo respeito, seu discurso é um exemplo clássico do que Paulo Freire chamaria de consciência ingênua misturando categorias históricas de forma acrítica: Putin lidera uma Rússia capitalista oligárquica e o Irã é uma teocracia, não exatamente exemplos de internacionalismo proletário. Essa fixação em um “comunismo global” fantasmagórico serve justamente para desviar o olhar da real desigualdade estrutural que o próprio capital financeiro globalizado produz todos os dias.
Maura Santos
30/04/2026
Clotilde, amiga, enquanto você vê comunista até na sombra, a gente aqui em SP só quer saber de metrô funcionando e luz elétrica que não apague do nada — lembra daquele apaguinho maroto que seus mitos entregaram pra gente? Foca no transporte público que salva mais que intervenção divina.
Mateus Silva
30/04/2026
Clotilde, a senhora consegue enxergar aliança comunista até num encontro entre o capitalismo oligárquico russo e uma teocracia que reprime sindicatos — é um feito ideológico e tanto transformar disputa geopolítica de elites em fantasma vermelho enquanto o material mesmo, como o transporte público da periferia, segue desmontado.