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A ciência troca de trono

Quando o Estado planeja o futuro, a liderança mundial deixa de ser herança e vira resultado. A ordem científica moldada no pós Segunda Guerra entrou na reta final de uma mudança histórica. Um estudo exclusivo para o Nature Index, conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego, projeta que a China se tornará […]

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Quando o Estado planeja o futuro, a liderança mundial deixa de ser herança e vira resultado.

A ordem científica moldada no pós Segunda Guerra entrou na reta final de uma mudança histórica.

Um estudo exclusivo para o Nature Index, conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego, projeta que a China se tornará a maior financiadora pública de pesquisa do planeta nos próximos dois a três anos.

Se a projeção se confirmar, o mundo verá uma inversão de comando com peso muito maior que o de uma simples estatística orçamentária.

Desde 1945, os Estados Unidos exerceram liderança incontestável no investimento global em ciência e tecnologia. Agora, porém, o cruzamento das curvas parece ser apenas uma questão de tempo.

Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, ajustados por paridade de poder de compra, mostram que o investimento público chinês em pesquisa e desenvolvimento cresceu 90% na última década e chegou a 133 bilhões de dólares em 2023. No mesmo período, os Estados Unidos avançaram apenas 12%, somando 155 bilhões.

Robert Conn, especialista em política de pesquisa e co líder do programa Frontiers in Science and Innovation Policy, responsável pela análise, afirma que o momento mais provável para a ultrapassagem é 2028, com margem de cerca de um ano. A estimativa é considerada conservadora porque parte da hipótese de estagnação dos gastos americanos e de crescimento apenas moderado do lado chinês.

O estudo também levou em conta a desaceleração dos investimentos chineses no início desta década. Christopher Martin, presidente da Explorative Science Foundation, na Nova Zelândia, e participante da análise, explicou que a taxa anual de crescimento do governo chinês caiu para algo entre 1% e 5% após 2020, bem abaixo da média de 11% registrada entre 2005 e 2020.

Segundo Martin, a pandemia de 2020 tornou os formuladores de políticas mais conservadores. Ele acrescenta que esse movimento foi agravado pela crise do setor imobiliário chinês a partir de 2021.

Ainda assim, o impulso estratégico da China permanece intacto. No início deste mês, o governo anunciou propostas para que o gasto total anual em pesquisa, somadas todas as fontes, cresça pelo menos 7% ao ano no próximo ciclo de cinco anos, entre 2026 e 2030.

Yutao Sun, especialista em política de inovação da Universidade de Tecnologia de Dalian, avalia que o investimento público pode subir ainda mais. Se isso ocorrer, o ponto de cruzamento com os Estados Unidos poderá chegar antes do previsto.

A mudança, portanto, simboliza muito mais do que números em um gráfico. Ela sugere o deslocamento do centro de gravidade do conhecimento científico para um país que decidiu transformar ciência e tecnologia em eixo de poder nacional.

Para Meghan Ostertag, pesquisadora de política econômica no think tank Information Technology and Innovation Foundation, em Washington DC, a liderança chinesa abre caminho para uma nova hegemonia na ciência. Segundo ela, a China percebeu há muitos anos que tecnologia e ciência eram o caminho para se tornar líder mundial, e agora o restante do mundo começa a entender a dimensão dessa aposta.

Há, no entanto, um terreno em que os Estados Unidos ainda mantêm vantagem importante. Trata se da pesquisa básica, aquela que produz o conhecimento seminal do qual nascem as inovações futuras.

Nessa área, a China ainda está atrás. Em 2023, seu gasto total em pesquisa básica, considerando recursos públicos e privados, foi de 53 bilhões de dólares, menos da metade dos 120 bilhões aplicados pelos Estados Unidos.

A distância, porém, encolhe em ritmo acelerado. O investimento público chinês em pesquisa básica mais do que triplicou entre 2013 e 2023, enquanto nos Estados Unidos o aumento no mesmo período foi de pouco mais da metade.

A equipe do Frontiers in Science and Innovation Policy projeta que os gastos americanos em pesquisa básica devem cair em termos reais nos próximos anos. A razão, segundo a análise, é a incapacidade do Congresso de reverter integralmente os cortes solicitados pela Casa Branca.

Esse cenário coloca a China na rota de ultrapassar os Estados Unidos também na pesquisa básica dentro de uma década, de acordo com Robert Conn. Para ele, é justamente aí que podem ocorrer as mudanças mais profundas, porque a pesquisa básica funciona como a semente das descobertas e inovações que amadurecem anos depois.

A metodologia do estudo também recebeu ressalvas. Yutao Sun observa que o uso da paridade de poder de compra pode superestimar a capacidade chinesa de financiar pesquisa, já que equipamentos científicos e acesso a periódicos costumam ser comprados em mercados internacionais com preços globalizados.

A observação é relevante e ajuda a qualificar a leitura dos números. Ainda assim, ela não desfaz a tendência estrutural de convergência e possível ultrapassagem indicada pelos dados.

O custo da estagnação americana pode ser profundo. Uma análise de 2024 do Federal Reserve Bank de Dallas estima que o financiamento público respondeu por um quinto do crescimento da produtividade do setor empresarial dos Estados Unidos desde a Segunda Guerra, ao estimular o gasto privado em pesquisa e desenvolvimento e ampliar a inovação.

Se esse motor perde força, a competitividade futura da economia americana também entra em risco. O problema, portanto, não é apenas acadêmico, mas industrial, tecnológico e geopolítico.

O que está em curso é uma transição de era. A ascensão científica da China não é um episódio isolado, mas parte de um reposicionamento geopolítico mais amplo, em um mundo cada vez mais multipolar.

Essa virada desafia a velha crença de que a liderança tecnológica pertence por direito histórico ao Ocidente. E mostra, com números e planejamento, que soberania também se constrói com laboratórios, bolsas, centros de pesquisa e metas de longo prazo.

Para o Sul Global, inclusive o Brasil, a lição é direta. O caso chinês mostra que saltos tecnológicos não são milagre, mas consequência de estratégia nacional clara e investimento persistente.

Enquanto o debate público brasileiro frequentemente gira em torno de cortes de verbas para ciência, a China avança com metas quinquenais agressivas e transforma a produção de conhecimento em pilar central de seu projeto de nação. Os Estados Unidos, presos a ciclos de contenção orçamentária e disputas políticas de curto prazo, veem sua vantagem histórica se estreitar.

A hegemonia científica do século não será decidida por nostalgia nem por prestígio acumulado. Ela será moldada por quem teve coragem de investir no amanhã antes que o amanhã chegasse.

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