Em Betim, o presidente transformou a defesa da Petrobras em programa explícito de reconstrução nacional.
Na Refinaria Gabriel Passos, em Betim, Luiz Inácio Lula da Silva fez do discurso um marco político sobre o futuro energético do Brasil.
Mais do que uma fala de ocasião, o presidente apresentou uma contraofensiva para recolocar o Estado no centro das decisões estratégicas do setor.
Ao defender a recomposição da Petrobras e denunciar o desmonte recente, Lula traçou a fronteira entre um projeto nacional e a lógica de liquidação de ativos.
“Mesmo a Petrobras provando o sucesso que ela provou, sempre aparece alguém insinuando alguma desvantagem na Petrobras para vender um pedaço da Petrobras”, declarou o presidente, segundo registro do InfoMoney. A frase resume a crítica de Lula a uma visão que, mesmo diante da relevância histórica da empresa, insiste em fabricar justificativas para seu fatiamento.
Em Betim, o presidente tratou essa prática como sintoma de um debate econômico deformado por dogmas privatistas. Em vez de reconhecer a Petrobras como geradora de divisas, tecnologia e capacidade industrial, essa lógica a reduz a um estoque de ativos negociáveis.
Lula não ficou na abstração e citou diretamente os bens estratégicos que, segundo ele, precisam voltar ao controle nacional. Também indicou, de forma explícita, o caminho político para reverter parte das vendas realizadas no período Bolsonaro.
A Refinaria Landulpho Alves, em São Francisco do Conde, na Bahia, vendida por US$ 1,65 bilhão ao fundo Mubadala Capital em 2021, foi mencionada como alvo de recompra. “Pode demorar um pouco, mas nós vamos comprar”, afirmou Lula, estabelecendo uma agenda de reversão para negócios considerados lesivos ao interesse público.
O mesmo horizonte foi apontado para a Refinaria de Mataripe, também na Bahia, que passou para as mãos da Acelen. Ao citar as duas operações, o presidente desenhou um mapa de reconquista de ativos que considera essenciais para a soberania energética.
Outro ponto central do discurso foi a BR Distribuidora, lembrada por Lula como exemplo concreto do prejuízo causado ao consumidor pela obsessão privatista. Vendida a partir de 2019 sob o argumento de baixa rentabilidade, sua saída do patrimônio estatal, na avaliação do presidente, rompeu o elo entre a política de preços da Petrobras e o preço efetivamente cobrado na bomba.
“Se a BR tivesse na nossa mão, teríamos a garantia de que o preço que a Petrobras aumenta ou não aumenta chegaria na bomba para o consumidor”, argumentou. A observação recoloca no centro do debate a função social e regulatória de uma grande empresa estatal no mercado de combustíveis.
Sem esse instrumento, o país fica mais exposto à volatilidade internacional e à lógica estrita da maximização do lucro. Em momentos de choque externo, como o provocado pela guerra no Oriente Médio, a ausência de mecanismos públicos de amortecimento pesa diretamente sobre a população.
A fala de Lula, porém, não se limitou à revisão das vendas do passado. Ela também projetou uma Petrobras expandida, capaz de combinar recuperação interna com presença internacional e ousadia exploratória.
Nesse contexto, o presidente mencionou as negociações para exploração de petróleo na costa da Namíbia. Segundo ele, houve sinal verde da vice-presidente do país, Netumbo Nandi-Ndaitwah, o que insere a Petrobras em uma nova frente de atuação externa.
Lula conectou esse movimento à busca por reservas na Margem Equatorial brasileira, área de fronteira geológica com a Guiana e o Suriname, onde grandes descobertas foram feitas. A associação não foi casual, porque aponta para uma estratégia de longo prazo baseada na ampliação das reservas e na preservação da capacidade nacional de decidir sobre seu próprio abastecimento.
“Não é possível que Deus não tenha deixado um pouquinho pra nós”, brincou o presidente. Em linguagem popular, a frase condensou uma aposta geopolítica de alto risco, mas também de enorme potencial econômico e estratégico.
A mensagem é clara: a Petrobras não pode se contentar em administrar o que já foi encontrado. Para Lula, a empresa deve liderar a busca por novas reservas que sustentem a autossuficiência e o desenvolvimento das próximas gerações.
Essa ambição, no entanto, exige uma companhia forte, integrada e subordinada ao interesse nacional. Foi nesse ponto que o presidente redefiniu, com nitidez, a relação entre a empresa e seu verdadeiro proprietário.
“A Petrobras tem que saber que ela não é dona do Brasil, é o Brasil que é dono dela”, afirmou. A frase funciona como recado político e administrativo a uma cultura corporativa que, em certos momentos, pareceu se enxergar acima do Estado e dos cidadãos.
Lula reconhece que a Petrobras é uma empresa de economia mista e lembra sua listagem em Nova York. Mas deixa claro que essas características são meios operacionais, não a razão de existir da companhia.
A finalidade, segundo o presidente, é servir ao projeto de nação. Isso altera completamente a hierarquia de prioridades, porque recoloca investimento, refino, pesquisa, exploração e proteção ao consumidor acima da lógica de curto prazo do mercado financeiro.
O contraste com o governo Bolsonaro apareceu de forma inevitável ao longo do discurso. Se a administração anterior tratou a Petrobras como ativo a ser vendido para gerar caixa imediato e atender a dogmas ideológicos, a atual a reposiciona como braço executivo de uma política industrial e de soberania.
Lula evocou ainda a memória dos petroleiros, que, como disse, sabem bem “quais foram os governos que tentaram construir e destruir”. A frase tem peso histórico porque conecta a disputa atual a uma longa batalha sobre o papel do Estado no desenvolvimento brasileiro.
A reconstrução em curso passa, na visão do presidente, pela recuperação da capacidade de refino perdida com as vendas e pelo reinvestimento em pesquisa e exploração. A própria Refinaria Gabriel Passos, palco do discurso, foi apresentada como símbolo desse esforço, com perspectiva de chegar a uma produção de 240 mil barris de petróleo por dia.
Esse dado ajuda a entender o sentido econômico da estratégia. Cada barril refinado no Brasil significa mais emprego, mais tecnologia e mais valor agregado produzido internamente, em vez da simples exportação de petróleo bruto como commodity.
No fundo, o que Lula propôs em Betim foi uma reconexão em várias camadas. Reconectar a Petrobras ao seu propósito original de desenvolver o país, reconectar a política de combustíveis à capacidade do Estado de proteger a população e reconectar o futuro energético brasileiro à coragem de explorar novas fronteiras.
A recompra de ativos é mais cara, mais lenta e mais complexa do que a venda apressada. Ainda assim, para o presidente, esse é o preço da reconstrução de uma soberania que não se recompõe com discursos vazios, mas com controle real sobre os instrumentos decisivos da economia nacional.


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