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A hipocrisia da redução de despesas

Por Miguel do Rosário

30 de maio de 2016 : 20h22

Charge:PXeira

No blog de Richard Jakubaszko

O Brasil sob nova direção retoma como prática a velha hipocrisia que sempre predominou neste país de semianalfabetos e sem cultura política. Para manter esse status quo os coronéis de ontem e de hoje nunca investiram na alfabetização e na cultura do povo. A mídia mente (e omite-se) desbragadamente, pois defende seus afilhados políticos, façam as besteiras que fizerem.

Só com o desconhecimento da sociedade consegue-se mentir tanto a respeito da propalada redução de despesas do governo federal.

Vejam e comparem o orçamento da União em 2 gráficos expostos abaixo:

Orçamento da União em 2008

Orçamento da União em 2014

Qual a diferença?

É brutal, a parte destinada ao pagamento da dívida, em 2008, era de 30,57%. Em 2014 decolou para 42,42% (e bateu nos 50% em 2016). Enquanto isso, a da Previdência caiu, era de 27,84% em 2008 e caiu para 20,05%

Ora, o orçamento da União é simples de entender, se olharmos para a Taxa Selic. De um lado, em 2012 andava na casa dos 7% e hoje está em 14,25%. Ou seja, explica-se o enorme aumento dos pagamentos aos bancos e rentistas. Lembro que cada 1% na Selic representa algo como R$ 5,5 bilhões de reais.

Essa questão da Selic, entretanto, não explica o todo.

Devemos entender que o orçamento é dinâmico. Grosso modo, tudo é uma questão de receita e despesa. Se a receita aumenta, é maravilha, mas se apenas as despesas crescem, vai faltar dinheiro no caixa. Na casa da gente também é assim.

De outro lado, a da receita, devemos colocar nessa conta as desonerações de impostos para estimular consumo, burrada de estratégia feita por Dilma Rousseff, em 2014 e 2015, para baratear eletrodomésticos e automóveis.

Quando se percebeu que o consumo não aumentou (o que geraria mais impostos, e isso compensaria as desonerações, e ainda garantiria emprego) já era tarde, o efeito danoso foi que reduziu a receita do governo. Aí, faltou dinheiro em caixa para as despesas rotineiras, e o governo foi ao mercado para cobrir o rombo de caixa. Igual a nossa c.c. nos bancos, quando se usa o cheque especial. O custo do dinheiro, é lógico, aumentou sobremaneira, o que explica a escalada da Selic, e, mais ainda, o aumento do percentual das despesas da União dirigidas para essa rubrica de “pagamento dos juros e da dívida pública”. Nos tempos de FHC essa rubrica sempre esteve acima de 50%, e chegou a ser de mais de 60% no final de 2000.

Agora, sob o novo governo, o que se pretende com a “redução de despesas”, é “equilibrar o orçamento”, caso contrário a Selic tem de aumentar ainda mais. A briga dos banqueiros, obrigando o governo a reduzir despesas, é para que “sobre” um dinheirinho para pagar os juros cobrados por eles. Baixar a Selic está fora de questão, é claro, e a mídia nem discute isso. Ela é fiadora do capital e dos rentistas. Por isso a mentira do governo, aplaudida pela mídia.

O que o novo governo faz? Finge que não vê a rubrica dos banqueiros, e olha para a Previdência e outras questões menores. A despesa da Previdência é grande, porque as pessoas vivem mais hoje em dia, mesmo assim ela caiu, e querem reduzir ainda mais. E porque o orçamento total foi reduzido, comparando-se 2008 com 2014. Conclusão, o futuro aposentado vai pagar a conta, vai ter de trabalhar mais tempo, e vai reduzir o total de seus proventos, porque ao mesmo tempo o Salário Mínimo deixará de conquistar ganhos reais em relação à inflação.

Não vi, em nenhum momento, o governo falando em aumentar impostos. Pelo contrário, o ministro de plantão deixou claro que isso está fora de cogitação. E tomem-se medidas drásticas de reduzir ministérios, cortar cafezinho ali, eliminar a sobremesa por lá, cortando o Minha Casa, Minha Vida, paralisando as obras de infraestrutura etc., etc.

Rico neste país não paga imposto, essa é a verdade absoluta e inquestionável. Enquanto o trabalhador começa a pagar imposto sobre a renda a partir de um salário merreca de R$ 1.903,00 os empresários não pagam nada sobre os dividendos (lucros) auferidos de suas empresas. Não há, no Brasil, imposto sobre herança, ou sobre doações (de verdadeiras fortunas) para seus herdeiros. É por causa disso que o Michelzinho já tem patrimônio de R$ 2 milhões em imóveis, aos 7 anos de idade…

Não vi, em nenhum momento, o governo falar em cobrar dívidas atrasadas de impostos de empresas, que discutem isso na justiça há décadas.

Não vi, em nenhum momento, o governo falar de repatriação de dinheiro depositado em contas off shore e em paraísos fiscais, dinheiro comprovadamente oriundo de corrupção, mas que os abastados chamam de “propina”. Propina é gorjeta, e nunca vi montanhas de dinheiro serem chamadas de gorjeta. É que nossa elite corrupta se sente mais confortável se a semântica for mais simpática. Claro, também não são golpistas, apenas cumpriram a constituição, pois o estatuto do impeachment consta do livrinho. Mas não chame eles de golpistas, eles não gostam, pois são neoliberais, e constitucionalistas.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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2 comentários

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Airton Prestes

03 de junho de 2017 às 19h45

Exatamente isso! Sua crítica é coerente, parabéns pela sua lucidez!

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Marivane

30 de maio de 2016 às 23h04

Isso é o BRASIL

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