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Foto: Leo Mota/JC Imagem

Cappelli escreve sobre o “acordo impublicável” de PT-PSB

Por Miguel do Rosário

02 de agosto de 2018 : 17h50

O ACORDO IMPUBLICÁVEL

Ricardo Cappelli

O que verdadeiramente motivou o acordo PT-PSB que levou os socialistas à neutralidade? Acertos políticos são como ilhas no oceano. O que aparece na superfície é uma ínfima parte do que fica escondido debaixo d’água.

O pragmatismo é plenamente justificável, e até recomendável, quando utilizado para o alcance de objetivos estratégicos superiores. Se o acordo anunciado tivesse como resultado o apoio do PSB ao PT na disputa pela presidência seria facilmente compreendido.

Os partidos envolvidos estariam fazendo sacrifícios para forjar a tão sonhada unidade da esquerda. Foi isso o que ocorreu?

A petista Marília Arraes viu sua candidatura ao governo de Pernambuco ser retirada e o PT nacionalmente continuar isolado. Sua cabeça foi servida em nome da unidade? Não.

O socialista Márcio Lacerda, pré-candidato ao governo de Minas Gerais, foi pego de surpresa ao ver sua cabeça fazendo companhia a de Marília na bandeja. Reagiu com indignação, revolta e “desprezo”.

Se as decapitações não aconteceram em nome da unidade da esquerda, o que justificou tamanha agressividade?

No dia anterior, consultado sobre a hipótese de neutralidade, Carlos Siqueira, presidente nacional do PSB, declarou: “não existe esta hipótese, o PSB não nasceu para ser satélite de ninguém”. No dia seguinte, tudo mudou.

Sabendo que o PSB caminhava para Ciro, o PT aumentou a pressão. Marília Arraes representava uma ameaça à reeleição do governador pernambucano Paulo Câmara. De onde é o presidente nacional do PSB? Pernambuco, claro. Uma eventual derrota do PSB no estado poderia colocar em risco o controle do diretório local sobre a legenda nacionalmente.

O PT, tendo consciência que o PSB não o apoiaria, levou às últimas consequências sua estratégia de manter a hegemonia na esquerda a qualquer custo. Fechou o acordo apenas pela neutralidade, com o único objetivo de isolar Ciro Gomes, alçado ao posto de “grande inimigo”.

Como se pode constatar, tudo costurado em nome dos mais elevados interesses nacionais.

Os desdobramentos são imprevisíveis. Alckmin, de longe, festeja. Viu um partido de esquerda ser anulado e parte dele ser autorizado formalmente a declarar apoio a sua candidatura. E o melhor, não precisou fazer nenhum esforço para isso.

Paulo Câmara também ganhou ao ser consagrado o único candidato de Lula em seu estado. Como se comportará Marília? A petista se construiu na oposição ao Palácio do Campo das Princesas. Seu eleitorado acompanhará o cavalo de pau?

O caso de Minas é mais complexo. Lacerda é um político tarimbado, não tem seu futuro atrelado ao PSB. Foi o candidato de consenso entre PT e PSDB à prefeitura de BH.

Com as digitais de Pimentel, governador petista de Minas, nas lâminas que cortaram seu pescoço, como reagirá o ex-prefeito de BH? Ficará apenas na indignação do primeiro momento? O tucano Anastasia lidera a corrida ao Palácio da Liberdade.

Na política nem sempre dois mais dois é igual a quatro. Pode dar dois mesmo, ou até menos.

Lula e o PT também alcançaram uma vitória dentro do objetivo que traçaram para esta eleição: manter a hegemonia na esquerda. O PDT ousou questionar? Isolado. O PSB ousou questionar? Anulado. É preciso reconhecer a eficiência petista.

Ciro, “o cabra marcado pra morrer”, sai derrotado na tentativa de construir alianças. Lula, Temer e Alckmin, de forma tácita, atuaram juntos para isolá-lo. O establishment político luta pela manutenção do “mais do mesmo”, uma disputa entre PT e PSDB. Se o povo está participando destes acordos e vai endossá-los é outro papo.

Nem o mais pessimista poderia imaginar este cenário. A esquerda brasileira colocando interesses regionais, a manutenção de poder em estruturas partidárias e a busca desesperada pela manutenção da hegemonia da derrota acima do Brasil.

Só os militantes apaixonados e desavisados ainda sonham com 2018. Nos partidos a derrota na eleição nacional é dada como certa e o salve-se quem puder está a todo vapor.

Convenhamos, 2022 é logo “ali”.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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16 comentários

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André Romero

03 de agosto de 2018 às 12h35

Miguel, estou muito curioso em ver a próxima pesquisa de rejeição aos partidos políticos, pois tenho a certeza de que a do PT aumentará.
Concordo com a análise de um leitor daqui quando ele fala que o PT conseguiu criar o antipetismo entre os próprios eleitores do campo popular.
Esse tipo de estratégia e jogo baixo podem ser até justificados no ambiente interno e nos gabinetes refrigerados dos partidos políticos, mas para as pessoas comuns e simpatizantes, de cujos votos eles dependem, esse tipo de manobra cai como uma bomba de vários megatons.
Tirando os cegos e fanáticos dessa análise, que permitem se reduzir a meros teleguiados e massa de manobra da propaganda do partido, o eleitor de visão mais aberta quer ver o país e sua vida, suas condições de trabalho e sua perspectiva de vida – e de sua família e amigos – melhoradas.
Todo eleitor do PT gostaria e ver os partidos progressistas unidos nessas eleições, até mesmo os fanáticos – ainda que esses só admitam que essa união seja em torno do seu próprio partido “de estimação”.
Uma parte considerável dos eleitores do partido se não aderiram ao Ciro, ao menos o viam como uma excelente alternativa, por tudo o que ele representa, sua postura, seu discurso de enfrentamento, sua capacidade técnica, a capacidade de defender suas ideias e pelo seu histórico de correção.
Isso por que para essas pessoas, o que interessa é ver o país consertado e da maneira que eles julgam que tem de ser – não necessariamente quem vai capitanear esse processo. E certamente apoiariam Ciro na hora da verdade, se necessário fosse, ainda que contra os ditames do PT.
A julgar com o que tenho lido e ouvido, com a manobra recente do PT – mais uma, dentre inúmeros exemplos ao longo de sua história – finalmente começa a “cair a ficha” de muitos petistas, cujas crenças e princípios estão há muito entrando em conflito com a realidade.
Há um choque e uma revelação crescente na cabeça de muitos do que o PT prega como propaganda e o que ele pratica por baixo dos panos, adotando as mesmas táticas – o messianismo tipo Igreja Universal e a destruição de desafetos como a Rede Globo – que ele acusa nos demais partidos, meios de comunicação e seus inimigos em geral.
Sempre tirando os fanáticos, cegos à razão e à reflexão, como o simpatizante do PT consegue encaixar na sua cabeça o partido que ele escolheu fazer um verdadeiro conchavo (não uma aliança) com um outro partido que acabou de derrubá-lo do Poder, apenas para prejudicar um terceiro que defende as mesmas ideias que ele e a quem poderia ter se aliado?
Como ele consegue ver como positivo o partido que ele escolheu como canal para melhorar a vida dele colocar seus interesses eleitorais na frente daqueles que o sustentam com os votos? Ainda mais sabendo das consequências que essa manobra trará para a vida de todos?
Se juntarmos a esse quadro a crescente desconfiança (e até desesperança) nessa idolatria e fantasia do Lula candidato, a medida que a data da eleição se aproxima, veremos que são cada vez maiores as chances de termos de decidir entre as duas piores opções do cenário político brasileiro – Bolsonaro ou Alckmin.
O fato é que o PT garantiu com essa manobra sua derrota nas eleições nacionais e eles sabem disso. E é bem provável que tenham arrastado para o buraco todo o campo progressista com ele. Ainda que se aliassem à Manuela e ao Boulos esse fato não mudará, pois a dispersão está formada e é enorme.
A se confirmar esse cenário tétrico, tenham a certeza de que essas manobras recentes irão cobrar um preço muito, mais muito mesmo além da mera derrota em 2018 e da simples continuação da destruição do nosso país para os próximos anos.
Eu já passei dos 50, estou vendo as coisas de longe e estou batendo palmas para maluco dançar. Tenho pena dos jovens idealistas, que só veem e entendem a realidade sob o prisma canhoto da propaganda de um partido político, capturados em suas cegas ilusões. É uma pena mesmo, pois aprenderão tarde demais que gastaram uma enorme energia e jogaram suas vidas fora defendendo gente e suas falsas ideias que simplesmente não valem a pena.

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Gustavo

03 de agosto de 2018 às 11h56

Agora quando alguém falar a palavra “Golpe” ela terá duplo sentido. Despertará dúvidas sobre qual golpe está se falando.

Li em muitos lugares que o PSDB e o PMDB se alinharam para dar um golpe no PT. O PT e o PSB não estariam (guardadas as devidas proporções) fazendo algo parecido ? Acho que um golpe foi dado na pretensa união do campo progressista.

Se Lula não for candidato (e tudo caminha pra isso), essa pode ter sido uma péssima ideia. Todavia não canso de me surpreender. É impressionante o dinamismo do cenário eleitoral. A todo instante uma surpresa inimaginável quando lá trás se olhava para o futuro

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Nelson

02 de agosto de 2018 às 23h40

Politica no Brasil não é coisa para amadores.
Tem líder politico injustamente na prisão e seus concorrentes diretos com exceção de poucos o defendem e consecutivamente defendem sua candidatura.
O Ciro com certeza não fazia parte desse seleto grupo e cuspia a todo canto seu fel, sua magoa, sem perder uma única chance.
Aos brasileiros que votariam em Ciro nada mudou, é só fazer campanha e votar nele.
Eu particularmente nunca votei e nunca votarei, creio que ele não tenha filosofia na vida, só vejo oportunismo nele, visto a quantidade de partido por que já passou. Mas cada um é cada um e vota em quem acredita que sua vida melhoraria, não é?

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Marco Polo

02 de agosto de 2018 às 23h22

A primeira tentativa de aliança almejada por Ciro Gomes foi com o DEM. Só depois da elite virar os calcanhares para o seu flerte é que o Ciro engrossou seu discurso esquerda. Não cheira bem, só isso.

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Alberto Lima

02 de agosto de 2018 às 21h43

Nunca mais o PT terá meu voto.
Não querem governo, querem poder!
E tenho certeza que não sou o único que pensa assim

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devanir marchioli

02 de agosto de 2018 às 21h14

O PT acabou de colocar no segundo turno as campanhas de Bolsonaro e Alkimim. Triste ver como o PT abandonou o povo para priorizar um projeto de poder regional que corre um sério risco de afundar. O PT segue o caminho suicida e acabará como um partidinho manico sem expressão nenhuma. Está podando as novas lideranças do partido (Marilia Arraes) que dificilmente continuará no partido e está ficando com as velhas lideranças que só fazem lambanças. Triste fim do PT.

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david marques

02 de agosto de 2018 às 21h10

Nóis tem qui intende que o Lula sempri sabe o que faiz, não é toa qui o homi ganho duas eleiçao e ainda judo a Dilma ganha as delas também, no total foi 4, então ele é uma das cabeça pensanti du partido, se ele acha que essa minina não deveria ser candidata, ela não deve de ser e prontu, si ele acha que milhor não apoiá o Ciro, nois não vamo apoiá, simpres assim, a nóis cabe acata a determinação do Lula, ele sabi o que ta fazendo. Então vamu bater palma pras decisao dele gente.

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Sandro

02 de agosto de 2018 às 19h56

Votei a vida inteira no PT, mas confesso que NUNCA MAIS terão meu voto. Completamente decepcionado, frustrado, triste. PT morreu!

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    hocuspocus

    02 de agosto de 2018 às 20h08

    hummm… seu comentário é um tanto estranho ,Os pts aplicaram ao longo de 13 anos o malfadado “pragmatismo” por carecer de base no Congresso,e vc diz que ainda assim sempre votou neles,e por que agora não??? que mudou??continuam “pragmáticos” como sempre foram

    Responder

      Sandro

      02 de agosto de 2018 às 21h44

      Porque agora está se aliando para boicotar um aliado, ato típico de um traidor, golpista, egocêntrico e sectário. Apesar de ter votado no PT a vida toda nunca fui petista, sempre fui e serei de esquerda, mas uma coisa posso te garantir, NUNCA MAIS o PT terá o meu voto!

      Responder

      Fred

      03 de agosto de 2018 às 01h21

      Simples… Em função da polarização entre o PT e o PSDB de anos… Muitos, assim como eu, não tinham outra opção mais a esquerda… Mas como o PT tá pouco se lixando em jogar o pais num buraco sem fundo, então vamos todos juntos… Com Bolsonaro ou Alckmin… Meu voto não tem mais…

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hocuspocus

02 de agosto de 2018 às 19h19

Os argumentos ciristas são divertidos ,imaginar que acordos feitos pelos pts sejam no sentido de anular ciro em lugar de ser uma intenção de ampliar a sua base ,é um deles.
A menos que as pesquisas até hoje conhecidas sejam falsas,a liderança indiscutível dos pts ,os levaria a se preocupar com os 4% do ciro que nunca decola ????? a própria intenção do ciro procurando os direitistas do autodenominado “centrão” não foi um tiro no seu pé ???.
Como diz o Fernando Brito,o principal desarticulador da campanha do ciro ,é ele próprio.
Agrego,a principal falha do ciro ,foi não ter assumido uma posição de confronto com o sistema ,criticando abertamente a prisão ilegal(sem provas) do Lula.
A caminhada do ciro encima do muro está prestes a acabar numa queda estrepitosa.

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    Lucas Correa de Almeida

    02 de agosto de 2018 às 19h36

    Falar que o Ciro não criticou a prisão do Lula é brincadeira. A linha entre petista fanático e bolsominion está se aproximando cada vez mais.

    Ciro tentou o quanto pode o auxílio do pt. Falou que Haddad seria um excelente quadro. Quando o pt reagiu batendo nele, disse que “era preciso esperar o tempo do pt”. E foi recompensado com uma simples apunhalada. Por que apunhalada?

    Porque isso não foi um acordo em pro do pt nacional. O psb vai se manter neutro. O pt rifou a própria candidata, jovem, mulher e promissora, para impedir a aliança pdt-psb, simplesmente isso.

    Sinto muito. Óbvio que se o pt for contra o Alckmin, Bolsonaro ou Marina pro segundo turno continuarei votando no pt. Mas defender do golpe, defender o desastre dilma-levy, defender inúmeros erros, não da mais. Que fiquem em sua arrogância e quem sabe daqui uns 20 anos a esquerda volte ao poder. Enquanto isso, Deus nos ajude.

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    Marco

    02 de agosto de 2018 às 21h20

    “imaginar que acordos feitos pelos pts sejam no sentido de anular ciro em lugar de ser uma intenção de ampliar a sua base ,é um deles”
    Não, não foi para aumentar base alguma. O acordo deixou o PSB neutro, não foi uma aliança. Foi tempo de TV e rádio jogados fora, a ponto de aumentar o percentual de tempo designado ao Alckmin do total do horário eleitoral.
    Vir petista falar que é pra “aumentar base” ou comemorar porque aconteceu a “aliança das esquerdas” com base nessa rasteira do PT no Ciro em troca de NEUTRALIDADE é forçar demais a barra.
    Agora, segundo turno entre Bolsonaro e Alckmin. Temos que engolir.

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    Sandro

    02 de agosto de 2018 às 21h46

    Vcs vao ver o PT definhar nessas eleições e depois vão ficar se perguntando o por que. Desce do pedestal porque o PT sem o Lula é igual a um drone sem hélices. O fim de vcs está perto!

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    O Chinês Comunista

    03 de agosto de 2018 às 08h34

    Diga-me o PSB vai apoiar o PT? PSB vai manter a neutralidade, apenas isso. Ampliação de base nenhuma, eles sabem que Ciro Gomes tem potencial para alavancar.

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