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Eric Andriolo: O povo como refém de Bolsonaro

Por Redação

19 de março de 2021 : 17h12

Por Eric Andriolo

Há meses o comportamento do presidente é o de um sequestrador: “se não quiser ver mais gente morrer, me dê as reformas que eu quero”.

O caso da “PEC Emergencial” é talvez o maior caso de extorsão legislativa na nossa história. É o caso de um presidente da República fazendo toda a população de refém para avançar sua agenda econômica. Se há um assunto mais urgente que esse, é a falta de atenção que os jornais brasileiros dedicaram a ele.

Precisamos ser muito claros aqui. Não é verdade que “contrapartidas” eram necessárias para aprovar um auxílio emergencial para a população durante a pandemia. Quando a crise chegou, diversos especialistas e políticos deram a receita: usar a dívida pública para pagar uma renda mínima e financiar ações de combate ao vírus, depois acertar as contas.

Além disso, como políticos da oposição lembraram mais de uma vez, não é necessário mexer na Constituição para dar auxílio a ninguém, especialmente em valores tão ridículos quanto os R$ 150 que a maior parte das pessoas receberá não como complemento, mas como renda.

As contrapartidas não eram necessárias, mas o governo não moveria um dedo sem elas.

Enquanto isso, o número de mortes acelera a olhos vistos. Todos os dias há um novo recorde. Passamos da média de 2 mil mortos diários e nosso sistema de Saúde já entrou em colapso, com cidadãos morrendo na fila da UTI em vários estados.

O Governo Federal a toda oportunidade se recusa a tomar qualquer atitude. Não compra vacinas, alimenta desinformação sobre remédios milagrosos, mente sobre decisão do STF como forma de jogar a responsabilidade nos estados e, vez por outra, insinua que a culpa é da população por não respeitar medidas de distanciamento — as mesmas que o presidente, sua equipe e sua família trataram de menosprezar e contrariar dia sim, outro também.

Toda hora surge um analista insistindo que existe lógica nesse caos, sugerindo algum tipo de pensamento eleitoreiro complexo. Discordo respeitosamente, mas veementemente, desses colegas.

Se existe alguma lógica, ela é completamente vil, mas cujos resultados são muito positivos para o campo ideológico que segura o governo: aquele que defende as medidas “liberalizantes” na economia.

O negacionismo de Bolsonaro deixou de ser uma manifestação do seu ódio à racionalidade governamental e se transformou em um mecanismo de chantagem.

Para Bolsonaro, quanto pior, melhor. Quanto mais gente morre, maior o desespero para que o governo faça alguma coisa — qualquer coisa — para diminuir o sofrimento geral. E tome reportagens de 15 minutos no Jornal Nacional mostrando o povo morrendo, doente, passando fome e chorando.

Isso para Bolsonaro é excelente notícia. Sua base flutuante de 30% do eleitorado foi tão radicalizada que se recusa a responsabilizá-lo.

Essas notícias servem apenas para publicizar seu crime. É isso o que um sequestrador quer, sempre. Esse tipo de criminoso adora ver seus reféns na TV, com armas apontadas a suas cabeças. Gosta de ligar para familiares para que ouçam o choro de seus entes queridos.

Isso é o motor do desespero que — nos cálculos do sequestrador — vai facilitar seu objetivo: extorquir concessões, pedir dinheiro. Ele conta com nosso afeto. Fazemos qualquer coisa para salvar as vidas sob a arma do bandido.
Bolsonaro é hoje esse bandido.

Seu comportamento nas políticas sanitária e econômica não faz sentido sob nenhuma outra lógica. Diante da escalada de mortes, o governo faz exigências. Não dará um passo sequer sem receber “contrapartidas”.

Essas contrapartidas dificilmente passariam de outra forma porque não têm por detrás delas nenhuma urgência ou necessidade, a despeito do que os “analistas” do mercado financeiro — os principais beneficiários e interessados nas reformas — possam dizer sobre o assunto.

Trata-se de reduzir investimentos públicos, desmontar a capacidade econômica do Executivo, congelar os salários, avançar privatizações e paralisar o poder de decisão do Estado.

Tudo na Constituição para privar o povo do direito de mudar de ideia. Se o resultado disso é menos dinheiro circulando e preços mais altos, os “analistas” parecem rapidamente esquecer suas aulas de economia, é como se a estagflação que se aproxima fosse resultado de alguma mágica da natureza, e não da inação do Executivo e das benesses da política de Guedes, desenhada para agradar investidores da Bolsa às custas do restante da nação.

Bolsonaro, como presidente, ultrapassou todos os limites do razoável. Não se trata mais de crime de responsabilidade, isso é terrorismo de Estado no sentido mais literal possível.

Sua administração escolhe vulnerabilizar o povo para extrair concessões para a camada mais rica, de forma a continuar a ter a boa vontade de setores financeiro e industrial, e opiniões brandas nas colunas dos grandes jornais.

Falando em Jornais: caro leitor, da próxima vez que se maravilhar com a oposição ferrenha que o Jornal Nacional parece dirigir ao presidente, lembre-se que não existe reportagem sem contexto, e que o ato de transmitir a notícia tem conteúdo em si mesmo.

Pergunte-se o seguinte: se o mesmo jornal mostrasse uma pessoa com uma arma apontada para sua cabeça (a violência, o horror!) e em seguida uma chatíssima reportagem sobre um indivíduo pedindo um helicóptero e dinheiro às autoridades, não seria estranho esquecerem de te dizer que a primeira pessoa é um refém da segunda e que sua vida é a contrapartida à aeronave e ao dinheiro? O que é que seria a verdadeira notícia aqui? Pois é.

Eric Andriolo é jornalista e cientista político

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3 comentários

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Paulo

19 de março de 2021 às 18h37

Estamos realmente num péssimo momento. E os agentes políticos e econômicos, além de uma ala do STF, buscando obter vantagens. Esse Congresso e a elite financeira vão entrar para a história como a nossa face mais cruel – nem a escravidão foi tão aguda em sua crueldade, além do que, na época, era vista pelas elites agrárias como natural, o que as eximia de sentir qualquer peso na consciência. É inacreditável o que está acontecendo. Eu jamais imaginei que viveria pra ver isso…

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Gabriela Machado

19 de março de 2021 às 17h46

Excelente texto!
Uma perspectiva que ainda não tinha visto e ainda mais revoltante.
Que esse genocida acabe antes de acabar com a gente.

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Gilmar Tranquilão

19 de março de 2021 às 17h46

Estão esperando o asno genocida pedalar kkkkkkk

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