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A militância política e a teoria da relatividade

Por Miguel do Rosário

16 de junho de 2021 : 15h45

O Cafezinho não é um instrumento para fazer a campanha política de nenhum partido, movimento ou candidato.

A favor ou contra.

Não estamos aqui para “atacar” ou “defender” ninguém.

Nossa militância é pelo jornalismo, pela liberdade e pela cidadania, seguindo o Código de Ética do Jornalista, onde está escrito que é dever do jornalista lutar pela liberdade de pensamento e de expressão; defender os princípios constitucionais e legais; e defender os direitos do cidadão.

Esse é o nosso lado.

Somos contra Bolsonaro porque consideramos que ele atenta contra todos esses valores fundamentais.

Agora, os movimentos, correntes, partidos, candidatos, militâncias, estão sempre mudando. Uma hora se radicalizam, outra se moderam. Num momento, defendem tal ou qual bandeiras, em outro criticam-nas. Numa hora acertam, noutra erram, na opinião do observador.

Isso é normal. “Tudo flui como um rio”, dizia Heráclito.

Os movimentos políticos mudam, porque envoltos no turbilhão de suas próprias contradições, suas lutas pelo poder, suas deficiências e qualidades.

Entretanto, esses movimentos às vezes se deixam enganar por uma ilusão de ótica. Eles olham pela janela do trem e vêem as pessoas que estão paradas, observando-os com atenção crítica, e acham que elas é que estão se deslocando.

Daí entra a teoria da relatividade especial, a descoberta revolucionária de Albert Einsten. Talvez não seja o outro que esteja mudando, mas você mesmo.

Quando um militante diz que um blog político “mudou” sua linha editorial, talvez devesse refletir se foi mesmo o blog que mudou, ou se foi ele mesmo, seu candidato ou seu movimento.

Além disso, é totalmente absurdo pretender que, no ambiente de fortes mudanças políticas, um veículo continue agindo sempre da mesma forma, sem reagir a essas mudanças. Isso é impossível.

Um jornalista tem toda a liberdade de votar ou apoiar um candidato, de mudar de ideia em seguida, de mudar novamente. Em seu trabalho, porém, deve se esforçar em relatar os fatos com o máximo de independência e imparcialidade.

Samuel Wainer, o grande jornalista, era um militante do PTB, um apoiador de Getúlio Vargas, e seu principal jornal, Última Hora, foi um importante baluarte de seu governo na grande imprensa. Mas quando era o momento de criticar e pressionar, ele o fazia. Wainer tinha suas ideias, suas referências. Se Vargas se afastava delas, a Última Hora criticava. Não seria justo dizer que o Última Hora “mudou”, e sim Vargas.

O chato, porém, é que as pessoas acabam acreditando nos rótulos que elas mesmas inventam, e daí quando passamos a fazer críticas a seu candidato ou movimento, elas “tomam um susto”, e dizem que “mudamos”. Não. Não mudamos em nada. As pessoas é que alimentam uma imagem estereotipada sobre nosso trabalho. Frequentemente, não lêem nossos textos, não acompanham nosso raciocínio, nossas críticas, o que também ajuda a construir esse tipo de impressão superficial sobre o que pensamos ou não.

As militâncias também passam por grandes mudanças. Muitas vezes, o próprio militante, imerso no coletivo, não percebe a mudança, porque ele está dentro dela. Para quem está dentro do trem, a mesa do vagão restaurante à sua frente, ou o copo de uísque em sua mão, não estão se mexendo. Para quem está de fora, porém, tanto a mesa como o copo estão se deslocando em alta velocidade.

Se faço alguma crítica, é porque, em minha percepção, a mudança aconteceu do lado de lá. Quem mudou foi a militância, o candidato e o partido. Não eu.

Posso estar errado, naturalmente, mas isso é humano e jornalistas são, apesar de alguns indícios em contrário, humanos.

Se a mudança lhes parece “drástica”, é porque  – de onde estou, parado em meu ponto de observação – a mudança “drástica” aconteceu do lado de lá.

Do meu ponto-de-vista, permaneço onde sempre estou, desde 2010 tentando me manter estável e firme, em favor de um projeto de emancipação popular e nacional, em meio a esse redemoinho alucinado da política nacional.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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11 comentários

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Francisco*

17 de junho de 2021 às 12h14

Miguel está correto no que diz, afinal é fato que Ciro desgarrou-se do que, penso, Miguel botava fé e acreditava, e ninguém é obrigado a seguir junto quando sabe que não vale a pena quando o caminho apequena-se e afunila.

O único reparo a fazer, por não entender, sendo Miguel mais que ‘safo’ nas coisas da política, conhecendo a fundo o cenário político brasileiro e mais que suficientemente a trajetória de Ciro no mesmo, ter optado em seguir junto a jornada que sabidamente, há mais de 40 anos, estreita-se e leva a ELE, obrigatoriamente.

Infelizmente e anacronicamente, ainda não sendo uma nação, o Brasil de fato é dicotômico, dois lados representando um povo multifacetado: Casa Grande e Senzala, Classe Dominante e Excluídos do Baile, uma só ‘Direita’, a da classe dominante e uma ‘Esquerda’ que pensa e age como se o Brasil não fosse dicotômico, fracionando-se de forma fratricida para derrotar o atraso a que nos condena a raiz dessa dicotomia: Patrimonialismo e Desigualdade.

O PT é uma organização política multifacetada e democrática, desde a origem, e que sobreviveu consolidando-se de forma irreversível, sob bombardeio incessante e sem limites da classe dominante, da fundação até os dias atuais, por mais de 40 anos, por obra e arte de um inédito engenho político brasileiro, que permitiu que assumisse o poder de direito e impedisse que a classe dominante retomasse-o através do voto, obrigando-a a recorrer ao golpe, não rechaçado e redundando na tragédia anunciada do Bolsonaro, pelo fato da esquerda fragmentada não entender que enquanto não eliminarmos essa dicotomia, não é preciso mais que uma organização forte para combater o unitário lado dominante, basta o PT para tanto, pois pronto e resistente, bastando ir modificando-o por dentro conforme necessário, e não combatendo-o por fora para deleite do lado dominante unitário, que só pensa em destruir o PT, desde sempre, sabe-se lá por que, não é mesmo, Ciro Gomes?

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Mateus Nogueira

17 de junho de 2021 às 11h20

Muito interessante esse texto. Concordo muito com esse negócio de que tudo muda e talz… porém tem algo que não mudei e venho falando isso ja ha tempos, Ciro não tem capacidade de encabeçar um projeto de união nacional. Esse pensamento não me faz um anticirista e nem um petista inveterado, apenas uma observação que ainda não vislumbrei possibilidade de mudança

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Geurgetown F. Araujo

17 de junho de 2021 às 09h25

Miguel, segundo minha interpretação de tempos atrás era implícito sua simpatia pelo Ciro. Tudo bem que você nunca fez apologia a ele. Agora você parece mais neutro. De minha parte não vejo problema algum nisso. Cada um tem sua preferência, mesmo você sendo um grande jornalista que é.
Abçs
Geurgetown

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Felipe

17 de junho de 2021 às 06h06

Todo trem tem estação de origem e destino, todo trem pode ter paradas, recolher ou deixar passageiros.
A origem e o destino do trem também são apenas um , talvez não seja o mesmo para os passageiros ou observadores externos.
Assim como não são as mesmas, as janelas pelas quais olham os passageiros, a mesa que se sentam ou mesmo o Whisky que bebem.
Isso depende da classe da passagem.
No trem, cada janela, cada mesa e cada bebida tem um preço e depois do embarque, de quando em quando o cobrador passa para checar.
Quem vê de fora, vê o trem ir e vir, tem nuances rápidas do que e de quem está dentro do trem e pode ou não embarcar, é uma questão de vontade, destino e ticket.
Cedo ou tarde todos precisam tomar o rumo de casa, seja a pé, de bicicleta, carro ou trem.
A não ser que se more na estação ou perto dos trilhos, aí são muitos os trens, muito o barulho e somente as nuances em movimento.

Acho que que chave está na palavra “projeto”, não é possível fazê-lo por nuances!

Segurei lendo! Mesmo que em outras páginas
duvidaveis! Saudações !

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Alexandre Neres

17 de junho de 2021 às 01h41

Miguel, eu estou um tanto quanto pessimista com a situação, após ler ultimamente o Marcos Nobre, a Esther Solano e o Paulo Batista Nogueira Jr. Que faase! Depois de tudo o que aprontou, o capitão cloroquino ainda encontra um apoio surpreendente em nossa sociedade.

Veja os incautos e desavisados nessa altura do campeonato que têm a pachorra de defender o voto impresso. Alguns supostos progressistas e pseudos se unindo com bolsominions, trocando figurinhas neste blogue, para criticar suas análises.

A foto de FHC e Lula nesse sentido é paradigmática. Sobretudo o príncipe num arroubo de grandeza depois de muito tempo hibernando se deu conta de que o que está em jogo é nossa democracia e a Constituição Federal de 1988. Talvez se os dois não tivessem digladiado tanto não teríamos chegado a este ponto, mas por outro lado as querelas políticas fazem parte.

Tem algumas pessoas que vieram ao mundo e perderam a viagem. Não se apercebem que arrumam um jeito ou outro para ficar do lado errado da história. Com certeza, se vivas ou atuantes em 1964 estariam reclamando da corrupção no governo Jango. Jango cometeu diversas falhas, mas e daí? Vão dizer que Vargas era um ditador e realmente foi, mas não entenderam nada.

Seria lindo se o campo progressista no Brasil fosse formado por pessoas sem defeitos, se dadas as condições e circunstâncias que não escolheram, não tivessem que conciliar tanto e mesmo assim serem perseguidos ferozmente. A linha evolutiva do campo progressista brasileiro passa inexoravelmente pelo trabalhismo e pelo seu herdeiro natural, qual seja, o PT. Que bom seria se seguisse uma linha reta, ideal, sem bater cabeça, se não existisse a tal da realpolitik.

O quadro é de extrema gravidade e esta turma sem foco se volta contra o PT, não raro comparando-o a Bolsonero, invocando a esdrúxula tese da polaridade simétrica ou dos dois extremos. Santa ignorância! O pior é que o próximo governo progressista, para cumprir a tarefa primordial de afastar a barbárie, vai ter que compor em demasia e por consectário vai estar de pés e mãos atados para levar a cabo as medidas que precisam ser tomadas, até porque nosso campo está dividido. Outro desgoverno o país não aguenta, é hora de todos os democratas se unirem em torno do mínimo programa em comum para evitar o pior e derrotar o obscurantismo.

Por fim, mas não menos importante, apesar de meu interesse diletante pela política e na condição de leigo, com tanta nulidade e baixa capacidade para empreender análises por aqui, haja vista boa parte dos comentários abaixo, queria sugerir uma matéria tratando da tão decantada física quântica da qual não entendo bulhufas. Pra essa turma que pensa que lá para abril do ano que vem é que o cenário irá começar a se definir, abordar o aspecto de que ações levadas a cabo neste momento alteram as condições desde então e a partir daí nada será como antes. Se eu interfiro no campo político, se eu lanço meu olhar em um objeto, há uma interação e as partículas se movem produzindo uma nova realidade que não mais será a mesma, tanto para mim quanto para o objeto. As placas tectônicas da política estão se movendo nesse exato instante. Um movimento precipitado ou antecipado pode desencadear uma miríade de possibilidades e obstar outras. “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia.”

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EdsonLuiz.

16 de junho de 2021 às 20h32

Acompanho o jornalzinho ‘ocafezinho’ desde, acho, outubro, quando em agosto comprei um tablet para uma criança, para ajudá-la a estudar em meio à pandemia, e nào sei por qual motivo a pessoa que me fez o pedido para a criança não veio buscar o tablet.

Eu nunca tinha tido tablet nem celular. E não queria ter.

Comecei a ler jornal de papel aos 10,11 anos de idade, em barbearias. Ia todo dia e pedia para ler, por causa dos times para os quais torcia, o Rio Branco e o Botafogo. De cambulha, fui me acostumando com a leitura de outras editorias além da editoria de esportes. Como o esporte era ainda é publicado nas ūltimas páginas, me habituei a ler os jornais do fim para o início, da última página para a capa.

A grande imprensa, a Folha, o velho JB, o Estadão, o Globo, comecei a ler aos 19 anos, quando consegui entrar na universidade. Lia na biblioteca por não ter dinheiro para comprar.

Não vivo sem boa imprensa. O dia que acabarem com a grande imprensa eu me mudo para onde ainda houver democracia.

Sou acostumadíssimo com jornal. Nunca houve um só dia, após ler pela primeira vez, que nào lesse jornal.

Minha opinião sobre o nosso ‘ocafezinho’?
É um jornal de verdade!

Falo isso por exercício de simpatia?
Nào, eu detesto exercício de simpatia. Jamais faria isso.

Então eu falo que ‘ocafezinho’ é um jornal de verdade por que eu concordo com o ‘ocafezinho’?
Também não é por isso. Eu discordo mais do que concordo com os cafezinhos – e alguns cafezões – que este jornal me serve.

Eu gosto de ‘ocafezinho’ porque é um jornal democrático. Quanto a gostar mais ou gostar menos do que ‘ocafezinho’ me serve, isso a mim não importa. Quem lê sou eu.

Claro que eu tenho completa consciência das limitações de recursos dess deste nosso jornalzinho para produzir matérias e que por isso muita coisa é apanhada de segundas fontes.

Longa vida ao jornal ‘ocafezinho’.
E que um dia consiga crescer para se viabilizar e manter independência e democracia.

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    EdsonLuiz.

    16 de junho de 2021 às 21h14

    Em tempo:

    Eu também jamais tinha escrito nada além de uma matéria para um jornal local para atender um pedido de uma namorada e duas colunas, também a pedido, para o meu sindicato, de auditores fiscais estadual.

    Afora estes três textos, só havia escrito textos para provas e trabalhos estudantís e centenas, talvez milhares, de relatórios de auditoria, que são de natureza bem diversa de respostas colocadas aqui.

    Escrevi nesse pouco tempo, de outubro até agora, todos os textos de natureza política que escrevi na vida, afora aquelas três exceções citadas.

    Gosto de participar, mas vi que é um espaço que alguns tratam não como jornal; tratam como rede social, e destilam aqui toneladas de ódio e extravagâncias pessoais. Seria bem mais proveitoso se fossem civilizados, educados e se mantivessem no âmbito opinativo.

    Responder

Rosinei Brandão

16 de junho de 2021 às 19h59

O povo se enganou. Votou para Presidente e elegeu um miliciano.

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Paulo César Cabelo

16 de junho de 2021 às 18h52

Sei não Miguelito , pra mim você abandonou o Ciro e passou a bajular o Lula por que viu que Lula vai ganhar e tá de olho numa futura verba.
Lembro que em 2018 você pregava diálogo com Bolsonaro e chamava a esquerda de ” policiofóbica”
Você é aquele amigo que some na hora do problema mas na hora da festa tá sempre lá.

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Jones Dari Goettert

16 de junho de 2021 às 18h09

Todos mudamos… E você também, Miguel. Ou não?

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Valeriana

16 de junho de 2021 às 17h06

As mulheres sempre à frente contra o governo da morte.

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