Quando a realidade supera a ficção.
Em 2014, arrastaram-na pelas ruas de Madureira como quem arrasta lixo. Em 2026, executaram-na em Cascadura como quem abate um animal. Entre Cláudia Silva Ferreira e Andrea Marins Dias, doze anos de diferença, duas mulheres negras, um único agente de Estado: o 9º Batalhão de Polícia Militar de Rocha Miranda. Este ensaio propõe-se a pensar essas mortes não como tragédias isoladas, mas como expressões de uma mesma máquina de matar, uma máquina que transforma favelas em cemitérios, policiais em carrascos, e a impunidade em política de governo. Para fazê-lo, recorro à literatura que, para mim, melhor capturou a essência de sistemas absurdos e opressivos: Franz Kafka, que descreveu a burocracia como destino inescapável, e Fiódor Dostoiévski, que escavou a culpa, a vigilância e a violência do poder. O argumento central que aqui desenvolvo é simples e terrível: o 9º BPM opera como instrumento de um genocídio negro estrutural no Brasil, cuja lógica de extermínio atravessa gerações, classes e tecnologias, e cuja impunidade só pode ser compreendida através das categorias do absurdo kafkiano e da culpa coletiva dostoiévskiana.
O Processo: Cláudia e a lógica kafkiana do sistema
No romance O Processo, Kafka apresenta Josef K., um homem comum que acorda certa manhã acusado de um crime que desconhece, por uma autoridade que não consegue identificar, submetido a um julgamento sem fim onde a culpa é pressuposta e a inocência é impossível. A obra é frequentemente lida como metáfora da burocracia moderna, mas sua potência reside em algo mais profundo: a descrição de um sistema onde a lei existe não para proteger, mas para condenar; onde o processo é a punição; onde a espera pelo julgamento consome a vida do acusado mais eficazmente que qualquer sentença.
Cláudia Silva Ferreira viveu e morreu dentro de um processo kafkiano. Não o processo judicial que viria depois, mas o processo existencial que marca a vida de todo corpo negro na periferia do Rio de Janeiro. Acordou de madrugada para comprar pão, como fazia todas as manhãs. Não sabia que, na lógica do 9º BPM, já era culpada. Sua culpa não precisava ser provada: residia em sua presença no Morro da Congonha, em sua cor, em sua classe. Os policiais que a mataram não a conheciam, não tinham evidências contra ela, não a acusavam de crime específico. Simplesmente executaram-na e depois arrastaram-na porque podiam.
O que Kafka não previu, contudo, foi o espetáculo. Em sua obra, o sistema opressivo opera no silêncio, na penumbra, na burocracia invisível. O 9º BPM opera na luz do dia, com plateia. Colocaram o corpo baleado de Cláudia no porta-malas, deixaram-no cair na estrada Intendente Magalhães, arrastaram-na por 350 metros enquanto o asfalto rasgava sua carne. Não foi acidente. Foi mensagem didática, pedagogia do terror: o corpo negro não merece cuidado, merece profanação; não merece dignidade, merece exposição pública. Os policiais riam enquanto populares gritavam horrorizados. O processo kafkiano aqui ganha uma dimensão teatral, performática: a culpa não é apenas pressuposta, é exibida, dançada, celebrada.
Dois dos agentes envolvidos já carregavam nas mãos o sangue de outras 69 pessoas, todas mortas em “autos de resistência” entre 2000 e 2014. São assassinos em série protegidos por fardas do Estado, operando impunemente num sistema que premia o corpo policial não pela preservação da vida, mas pela produção da morte negra. Aqui, o absurdo kafkiano encontra seu limite: em Kafka, o sistema é cego, mecânico e impessoal. No 9º BPM, o sistema é encarnado, desejante e sádico. Não há apenas burocracia opressiva, há gozo na opressão.
A justiça, quando finalmente chegou, dez anos após o crime, revelou a face mais pura do absurdo. O juiz Alexandre Abrahão Dias Teixeira, da 3ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, absolveu os seis policiais envolvidos. Em sua sentença, transformou o arrastamento em “erro de execução” dentro de uma suposta legítima defesa. Chamou a morte de Cláudia de “efeito colateral”. A linguagem é reveladora: efeito colateral é o termo que militares usam para civis mortos em bombardeios, resíduos de operações, sobras de guerra que não merecem nome próprio. Cláudia, mãe de quatro filhos, cuidadora de quatro sobrinhos, operária que acordava às 4h30 para sustentar sua família, foi reduzida a estatística indesejável, a ruído de fundo na sinfonia do extermínio.
Em Kafka, Josef K. nunca descobre de que crime é acusado. Em 2024, Cláudia foi absolvida de culpas que nunca lhe foram formalmente imputadas, por um crime que ela não cometeu, por juízes que nunca a reconheceram como sujeito de direito. O processo se fechou em seu nó absurdo: a vítima é culpada de ter morrido, os carrascos são inocentes de terem matado, e a lei é o instrumento que garante essa inversão.
Crime e Castigo: Andrea e a culpabilidade sem culpa
Se Kafka descreve o sistema opressivo, Dostoiévski escava a consciência do opressor. Em Crime e Castigo, Raskólnikov, um estudante pobre, assassina uma velha agiotista convencido de que sua ação é justificável, que ele está além do bem e do mal, que é um “homem extraordinário” com direito de transgredir. O romance inteiro é a história de sua culpa, de sua necessidade de expiação, de sua confissão final como única forma de redenção.
Os policiais do 9º BPM não conhecem a culpa. Não há Raskólnikov entre eles, nenhum torturado pela consciência do crime cometido. Há apenas a certeza da impunidade, a cultura do extermínio, a certeza de que a farda blinda contra qualquer consequência. Andrea Marins Dias, 61 anos, médica ginecologista, voltava dos cuidados com os pais idosos. Deveria estar segura pelos parâmetros do racismo brasileiro, que sempre operou uma hierarquia de vulnerabilidade mesmo dentro do grupo racializado, ela acumulava atributos protetivos: profissão liberal, renda estável, moradia em bairro de classe média e carro próprio.
O 9º BPM não fez distinção. E aqui reside uma verdade que Dostoiévski não previu: a culpa não pesa sobre o assassino quando o assassinato é institucionalizado, quando é política de Estado, quando é rotina. Confundiram seu carro branco com um T-Cross cinza. Erro grotesco, impossível para quem opera com mínima racionalidade. Mas não é a racionalidade que move aqueles policiais. É o estímulo à morte, a certeza de impunidade que permeia cada canto do batalhão como umidade corrosiva. Gritaram antes de atirar: “Não vai sair? Vai tomar! Vai morrer aí dentro!” As câmeras corporais estavam convenientemente descarregadas. A autópsia revelou o que já sabíamos: tiros na coluna, nos pulmões, no fígado, no coração. Execução.
Andrea era negra. Essa é a chave que desmonta qualquer tentativa de separar seu caso do de Cláudia. Não houve “confusão” de classe. Houve continuidade racial absoluta. O que une as duas não é apenas o batalhão, não é apenas a violência, não é apenas a impunidade. É a cor que, no Rio de Janeiro, transforma qualquer cidadão em alvo potencial, que anula distinções de status diante do fuzil policial, que opera como marca de vulnerabilidade transversal às classes.
Em Crime e Castigo, a confissão de Raskólnikov é arrancada pela investigação de Porfírio Petróvich, um magistrado que compreende a psicologia do criminoso e conduz seu interrogatório com paciência quase maternal. No Brasil, não há Porfírio Petróvich. Há juízes como Alexandre Abrahão Dias Teixeira, que transformam arrastamentos em “tentativas de socorro” e execuções em “erros de execução”. A culpa não é extraída; é negada. O castigo não é aplicado; é substituído por afastamento administrativo, férias forçadas, rotina doméstica preservada.
A ironia dostoiévskiana aqui atinge proporções grotescas: enquanto Raskólnikov sofre por ter matado uma velha agiotista, os policiais do 9º BPM riam enquanto arrastavam Cláudia, gritavam ameaças antes de executar Andrea, e são absolvidos por um sistema que não reconhece em suas ações qualquer crime. A culpabilidade, na literatura russa, é o peso que esmaga a consciência. No Rio de Janeiro, é a ausência que permite o crime contínuo.
O Castelo: Vigário Geral e a inacessibilidade da lei
Em O Castelo, Kafka apresenta K., um agrimensor que chega a uma vila dominada por uma burocracia invisível, centrada em um castelo inacessível, e passa a vida inteira tentando, sem sucesso, falar com as autoridades, obter reconhecimento, ser aceito pelo sistema. O castelo é sempre presente, sempre distante, sempre inatingível. A lei existe, mas não para ser cumprida; existe para ser interpretada, adiada, negada.
O 9º BPM é um castelo kafkiano. Desde 1993, desde a chacina de Vigário Geral, onde 21 pessoas negras foram executadas por policiais da unidade, o batalhão opera como instância inacessível da lei. As famílias das vítimas batem às portas, apresentam evidências, exigem justiça. O castelo responde com silêncio, com adiamentos, com absolvições. Das 52 pessoas denunciadas pelo Ministério Público na chacina de Vigário Geral, apenas quatro foram condenadas. Nenhuma cumpriu pena integral. A Organização dos Estados Americanos denunciou o Brasil por conivência com o genocídio. O castelo continuou erguido.
Trinta e três anos separam Vigário Geral de Andrea. O mesmo batalhão, a mesma impunidade, o mesmo sangue escorrendo pelas ruas da Zona Norte. O que mudou foi a tecnologia de registro e encobrimento: em 1993, não havia câmeras de celular para capturar a barbárie. Em 2014, o vídeo do arrastamento de Cláudia viralizou, provocando comoção momentânea que não se traduziu em justiça. Em 2026, as câmeras policiais estavam “descarregadas”. O aparato de encobrimento evolui em paralelo ao de vigilância, sempre um passo à frente, sempre encontrando brechas para manter o castelo inacessível.
A diferença entre K. e as famílias de Cláudia e Andrea é que K., no final, morre de exaustão burocrática. As famílias brasileiras são obrigadas a continuar vivendo, a continuar batendo às portas do castelo, a continuar sendo atendidas por porteiros que prometem transmitir suas petições a autoridades invisíveis que nunca respondem. O absurdo kafkiano aqui ganha uma dimensão de crueldade particularmente brasileira: não é apenas a inacessibilidade da lei, mas a promessa constante, sempre adiada, sempre negada, de que um dia, finalmente, a justiça chegará.
Os Demônios: a possessão coletiva do 9º BPM
Em Os Demônios, Dostoiévski descreve uma cidade provinciana dominada por uma ideologia niilista que leva seus personagens à destruição mútua. O romance é uma meditação sobre como ideias podem possuir coletivamente, transformando indivíduos em instrumentos de forças maiores que eles mesmos não compreendem. O 9º BPM é habitado por demônios semelhantes: não a ideologia niilista do romance, mas a ideologia do extermínio, a crença de que a segurança pública se constrói através da eliminação física do outro, especialmente quando esse outro é negro e pobre.
Os policiais que mataram Cláudia e Andrea não são, individualmente, monstros. São homens, e são quase sempre homens, inseridos em uma estrutura que os forma, arma, protege e incentiva. O problema não são “alguns policiais ruins”. É a possessão coletiva, a ideologia que transforma fardas em licenças para matar, que converte comunidades em territórios inimigos, que substitui a proteção da vida pela produção da morte. O 9º BPM é campeão de operações letais no Rio de Janeiro não apesar de sua história de chacinas, mas por causa dela. Cada absolvição, cada afastamento administrativo, cada “erro de execução” declarado por juiz de vara criminal é combustível para a próxima chacina. É mensagem enviada aos agentes: matem, que a impunidade está garantida.
Aqui, a literatura russa encontra seu limite. Em Dostoiévski, os demônios são eventualmente expulsos, a possessão termina, a redenção é possível. No Brasil, os demônios são institucionalizados. O sistema judiciário que absolve os assassinos de Cláudia, a corregedoria da PM que “investiga” os assassinos de Andrea, o governo estadual que mantém o batalhão operacional apesar de três décadas de genocídio, tudo isso é parte da possessão. Não há exorcista. Não há redenção em perspectiva. Há apenas a continuação do ritual.
A Metamorfose: quando a vítima se torna culpada
Em A Metamorfose, Kafka conta a história de Gregor Samsa, um caixeiro-viajante que acorda certa manhã transformado em um inseto monstruoso. A obra é frequentemente lida como metáfora da alienação do trabalho moderno, mas sua potência reside na descrição de como a metamorfose de Gregor é acompanhada por uma metamorfose igualmente terrível em sua família: de cuidadores, tornam-se algozes; de amorosos, tornam-se impacientes; de protetores, tornam-se assassinos por omissão.
No Brasil, a metamorfose opera em sentido inverso. A vítima, Cláudia, Andrea, as 21 pessoas de Vigário Geral, as centenas de outras mortes não registradas pela mídia, é transformada em culpada. O processo é lento, burocrático, inexorável. Primeiro, é a “resistência seguida de morte”, aquela formulação forense que pressupõe agressão da vítima. Depois, é o “auto de resistência”, o documento que converte execução em troca de tiros. Em seguida, é a “legítima defesa”, o argumento que transforma policiais em vítimas e vítimas em agressoras. Finalmente, é a “absolvição”, a sentença que fecha o círculo: a vítima era culpada de ter morrido, os carrascos são inocentes de terem matado.
Cláudia foi metamorfoseada em “efeito colateral”. Andrea foi metamorfoseada em “erro de execução”. Ambas foram, em última instância, metamorfoseadas em esquecimento, ou em estatísticas que não perturbam o sono dos que mandam. A família de Gregor Samsa, no final, alivia-se com sua morte. O sistema brasileiro, no final de cada processo kafkiano, alivia-se com a absolvição: mais um caso encerrado, mais uma página virada, mais uma vida negra convertida em nota de rodapé.
A literatura como testemunho, o ensaio como acusação
Kafka e Dostoiévski escreveram obras que resistem ao tempo porque capturaram estruturas de opressão que transcendem suas épocas e geografias. A burocracia kafkiana, a culpa dostoiévskiana, o absurdo de sistemas que operam contra os próprios cidadãos que deveriam proteger, tudo isso encontrou no Brasil, no 9º BPM, em Cláudia e Andrea, sua encarnação mais literal e mais violenta.
Mas há um limite para a analogia literária. Josef K., Raskólnikov, Gregor Samsa são ficção. Cláudia Silva Ferreira e Andrea Marins Dias eram carne, osso, sangue, sonhos, planos, pessoas que amavam e eram amadas. A literatura pode iluminar suas mortes, mas não pode substituir a justiça que lhes foi negada. O ensaio pode acusar, mas não pode prender.
O que resta é a memória e a luta. O sangue de Cláudia ainda mancha o asfalto de Madureira. O sangue de Andrea ainda impregna o banco do Corolla em Cascadura. E o sangue do 9º BPM, o sangue de Vigário Geral, da Congonha, de todas as favelas sob seu domínio, continua escorrendo, vermelho, vivo, indenizável. Justiça por Cláudia Silva Ferreira. Justiça por Andrea Marins Dias. Justiça por todas as vítimas do 9º BPM. Até que o último nome seja lembrado, até que o último carrasco seja julgado, até que a última bala seja recolhida.
E mesmo assim, continuaremos exigindo, porque a justiça verdadeira não se esgota em condenações individuais: ela exige a transformação estrutural que impeça que novos nomes sejam acrescentados a essa lista de mortos. A literatura nos ensinou a ver o absurdo. Agora é preciso destruí-lo.
Este ensaio é uma homenagem à memória de Cláudia Silva Ferreira e Andrea Marins Dias, duas mulheres negras assassinadas pelo 9º BPM, e uma contribuição ao debate sobre o genocídio negro estrutural no Brasil.
Edson Santana é escritor e militante da União de Negras e Negros pela Igualdade.


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