A revelação de que o antigo Irã desenvolveu um sistema de escrita possivelmente mais avançado que o de suas civilizações vizinhas está obrigando arqueólogos a revisarem concepções sobre a história humana. Segundo o New Scientist, a escrita proto-elamita surgida há milênios na região de Susa pode ter sido a primeira a registrar a fala humana de maneira sistemática.
Essa tese rompe o consenso de que apenas o Egito e a Mesopotâmia teriam inaugurado a escrita e abre espaço para uma terceira tradição igualmente sofisticada. Especialistas indicam que, ao contrário do proto-cuneiforme mesopotâmico baseado em ideias e objetos, os escribas iranianos podem ter criado um sistema de sílabas capaz de capturar a complexidade da linguagem falada.
O professor Jacob Dahl, da Universidade de Oxford, tem liderado há anos o esforço de catalogar e analisar cerca de mil e setecentas tabuinhas proto-elamitas encontradas desde o fim do século XIX. Dahl observou que a escrita iraniana apresenta sinais mais abstratos, alinhando-se mais ao aspecto moderno dos alfabetos contemporâneos que às figuras pictográficas típicas do período.
Pesquisas recentes realizadas por equipes na Suécia e no Canadá reforçam essa interpretação ao detectar padrões escondidos entre símbolos centrais na economia agrícola da época. Esses grupos empregaram ferramentas computacionais para examinar relações entre sinais, revelando conexões inesperadas que sugerem regras gramaticais internas ainda não compreendidas por completo.
O avanço mais significativo está na identificação de sequências de quatro a doze sinais que não fazem sentido como objetos, mas se encaixam com a lógica de nomes próprios construídos por sílabas. Dahl observa que os escribas recorriam a aproximadamente cem sinais, o que indica um sistema compatível com a estrutura sonora de muitas línguas antigas.
Essa perspectiva, se confirmada, eleva o proto-elamita a um patamar inédito e coloca o antigo Irã entre os berços originais da escrita humana. O arqueólogo François Desset, da Universidade de Teerã e do CNRS em Lyon, defende uma continuidade entre o proto-elamita e o linear elamita utilizado séculos depois.
O argumento de Desset ganhou força após a decifração de inscrições em prata que registram preces também encontradas em outra escrita já compreendida. Essa correlação permitiu estabelecer ligações diretas entre sinais e sons, reforçando a hipótese de uma tradição escrita própria na região.
Outros estudiosos consideram mais plausível que o proto-elamita tenha sido abandonado pelos próprios iranianos antes que uma tradição literária se consolidasse. Dahl destaca que quase não há vestígios escritos no intervalo de muitos séculos e sugere que as comunidades locais rejeitaram a escrita por associá-la ao controle das elites sobre produção e tributos.
Essa ruptura contrasta com o caminho tomado no Egito e na Mesopotâmia, onde as camadas dominantes fortaleceram a escrita como ferramenta de administração estatal. Para muitos pesquisadores, o caso iraniano ilustra que a adoção da escrita não é um processo linear nem inevitável, mas condicionado a escolhas sociais específicas.
Ainda assim, o desaparecimento do proto-elamita não impediu que a região ascendesse politicamente, pois registros posteriores mostram que reinos iranianos foram reconhecidos como potências por seus vizinhos mesopotâmicos. Essa constatação reforça que a escrita, embora poderosa, não determina sozinha o desenvolvimento de uma sociedade.
O estudo das tabuinhas proto-elamitas segue avançando com o emprego de novas tecnologias. Cada pequena descoberta alimenta a possibilidade de que textos longamente silenciosos revelem como povos do antigo Irã pensavam, nomeavam e administravam sua vida cotidiana.
A eventual decifração completa desse sistema poderá reescrever a compreensão sobre as origens da escrita e do próprio pensamento organizado. A arqueologia, mais uma vez, expõe que o mundo antigo é muito mais complexo e diverso do que a visão tradicional sugeria.
Com informações de NEWSCIENTIST.
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