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As flores murchas de Marina Silva

Foi uma lavada. Uma goleada de 6 a 1. Sendo que o 1 é o Gilmar Mendes, que vale menos que um décimo de juiz. Então digamos que o placar ficou em 6 X 0,1.

15 comentários
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Foi uma lavada. Uma goleada de 6 a 1. Sendo que o 1 é o Gilmar Mendes, que vale menos que um décimo de juiz. Então digamos que o placar ficou em 6 X 0,1. É um resultado que blinda o TSE contra qualquer crítica oportunista dos marineiros à lisura da votação.

Assim como o voto de Celso de Mello, mais uma vez tivemos uma vitória da racionalidade e da lei sobre o casuísmo e a pressão política. A lírica e esverdeada agremiação de Marina não reuniu o número de assinaturas certificadas necessárias para se fundar um partido no país. Ponto final.

O procurador eleitoral Eugênio Aragão já tinha deixado bem claro, há duas semanas, o que estava em jogo. “Não tem conversa, a lei é peremptória. Não há como fazer concessão nesse tipo de coisa”, disse Aragão.

São profundos os desdobramentos políticos dessa derrota de Marina Silva junto ao TSE. Vamos analisá-los à luz do artigo que a própria publicou hoje na Folha. Segundo ela, foi escrito antes de saber o resultado; mas o tom derrotista já o antecipava.

O texto encerra com poesia ruim. Não é a tôa que Ayres Britto é tão fã de Marina. Ambos são maus poetas metidos a entenderem de política, e falham miseravelmente em ambos os temas.

“De nada adianta criar obstáculos e dificuldades, os organismos vivos de um novo tempo já surgem para substituir as estruturas que se fossilizaram com o tempo. Como dizíamos em nossa juventude, mesmo que matem milhares de flores não poderão impedir a chegada da primavera.”

Deixemos de lado o tom messiânico, que nada mais é do que um disfarce para demagogia. Relevemos também a contradição botânico, visto que as flores só aparecem após a chegada da primavera – portanto não podem ser “mortas” antes de sua vinda.

O que sobra desse parágrafo? A seguinte frase:

“Organismos vivos de um novo tempo já surgem para substituir as estruturas que se fossilizaram com o tempo?”

Esqueçamos as firulas literárias e fechemos os olhos para a feia repetição da palavra tempo. Quem são os “organismos vivos”? A Rede? Que estruturas se fossilizaram com o tempo? Os partidos, a democracia, o TSE?

Entre os cientistas políticos progressistas que eu conheço, Marina Silva é considerada o elemento mais pernicioso, talvez porque seja a que tem menos escrúpulos para usar as contradições (infelizmente inevitáveis) da democracia contra a própria democracia.

A campanha da Rede para que o TSE desse um “jeitinho” e registrasse a legenda mesmo sem o número correto de assinaturas certificadas representou um insulto à lei, à democracia, à república e, sobretudo, à inteligência e boa fé de todos os brasileiros.

Já falei e repito. Sou favorável a criação da Rede e considero que seria um crime hediondo contra o espírito da democracia se houvesse, por parte do TSE ou dos cartórios eleitorais, qualquer iniciativa clandestina ou desonesta para prejudicar a agremiação.

Mas a reação de Marina Silva, culpando o TSE pela monstruosa incompetência de sua legenda, que não conseguiu fazer o beabá, reunir uma quantidade confortável de assinaturas, mostra pequenez política e irresponsabilidade republicana. A Justiça Eleitoral brasileira é reconhecida mundialmente por sua lisura, competência e uso inteligente da tecnologia. A conferição de assinaturas, todavia, é um processo naturalmente lento, porque a legislação eleitoral brasileira não aceita assinatura “eletrônica”, de forma que os servidores têm de checar uma quantidade covarde de papéis. Exigir que eles o façam isto em poucos dias é simplesmente falta de noção. Mais falta de noção ainda é pedir mais rapidez nesse processo e ao mesmo tempo exigir que todas as recusas venham acompanhadas de justificativas, sendo que não há esta exigência para o devido processo legal.

*

Marina Silva ainda não disse se vai aderir a algum partido. O PPS, legenda mais oferecida do que prostituta com aluguel em atraso, já começou a cercar a ex-ministra com mesma falta de pudor que mostrou quando tentava atrair José Serra. Mas Roberto Freire fez questão de pontuar: a única exigência do partido é que Marina se enquadre no antipetismo sectário e radical do PPS.

O que, naturalmente, será uma violência para a história de Marina Silva, cuja carreira política se deu inteiramente às custas do Partido dos Trabalhadores. E ela mantém relações de amizade com muitos integrantes do partido. E, lembrem-se: ao contrário de Roberto Freire, que alimenta um ódio patético e doentio a Lula, Marina jamais ofendeu o ex-presidente, a quem deve sua notoriedade, visto que foi Lula quem a nomeou para o Ministério do Meio Ambiente.

*

Marina e os marineiros não devem esquecer que ela se elegeu senador com recursos financeiros, humanos e partidários do PT, e tornou-se ministra por escolha de Lula. Escolher uma “terceira via”, aproveitando a brecha no fla-flu partidário nacional, tudo bem. Aderir ao PPS, que se tornou, assumidamente, bucha de canhão do PSDB, resignando-se inclusive a um processo acelerado de esvaziamento e fuga de aliados, é não só incoerência, mas um suicídio político.

Aliás, para Marina, uma filiação às pressas em qualquer partido, apenas acentuaria a impressão de que ela tentava montar a Rede exclusivamente para si própria, e com fim exclusivo de se candidatar a presidente da república em 2014.

*

De qualquer forma, nada é mais ridículo do que reclamar das “dificuldades burocrática” para se criar um partido no Brasil. O problema é o oposto. É fácil demais fazê-lo. A prova é esse PEN, uma legenda absolutamente caricatural, dirigida por uma figura com a inteligência política de um leão-marinho.

Existe liberdade política no Brasil! Quantas dificuldades não enfrentou o partido comunista, para nascer e crescer? Décadas de perseguição! Tortura, morte, sabotagem. O PT foi forjado ao longo de décadas de luta sindical, com seus primeiros fundadores sofrendo risco de vida. Que riscos e obstáculos sofreu a Rede? Nenhum, a não ser o risco de não colher um número suficiente de assinaturas…

Não, Marina. Ninguém está tentando matar flor nenhuma, até porque é ridículo comparar o duro processo da política a um campo de flores. As flores, se existem, brotam no espírito de cada um, e elas morrem vítimas da nossa própria covardia, desilusão, cansaço e fraqueza, estes sim os verdadeiros obstáculos que, diariamente, tentam corromper nossos ideais.

A metáfora da primavera, por sua vez, não me parece adequada à política, porque menospreza as outras estações, todas essenciais à vida. Você, como ambientalista, deveria saber disso.

O rigor do inverno, a melancolia do outono, o calor desesperante de nosso verão tropical, todas as etapas precisam ser cumpridas e respeitadas, e só aí virão as flores. Se elas murcharão antes de dar frutos, por desrespeito às instituições democráticas, açodamento eleitoreiro e messianismo, aí é outra história…

Atualização: Acabo de ver um infográfico no Estadão, com dados do Ibope, que merece atenção:

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Segundo o Ibope, a maioria dos eleitores de Marina (59%) tendem a migrar para Dilma, caso ela não seja candidata.

Marina Silva

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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Comentários

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Denise Barbosa

05/10/2013 - 20h12

Achei muita cara de pau levar a questão para o TSE. Lei é lei, não cumpriu, não busque ganhar no tapetão. Que decadência

Zeneto GuaranyKayoá Leao

05/10/2013 - 13h32

DESCARADA !!! ne? …

Paulo Cunha

05/10/2013 - 11h16

Pura jogada de marketing da evangélica fundamentalista, patrocinada pela Natura & Itaú associados.

Jorge Moraes

05/10/2013 - 02h14

Prezado Miguel: só não pude concordar com a ofensa dirigida aos leões-marinhos, animais dotados de inteligência bem maior do que a do homem do PEN.

No mais, texto impecável. E impagável.

E o Roberto Freire é intragável.

Nossa Submarina Amarela naufragou. Submarino de cimento, sucesso parcial da marinha lusitana: navegar, não navegou, mas que afundou que foi uma b´leza, ah, isso sim …

Piadas à parte, e o tal do PROS, hem? Já nasceu adesista. Hay gobierno? Soy Pro´s

Isabeau da Silva

05/10/2013 - 05h00

As capas da RR são hilárias! Grande revista.

Isabeau da Silva

05/10/2013 - 04h59

Leiam a ótima entrevista da Rolling Sotnes. Marina profetiza a política do século XXI e quer governar para “a humanidade”, mas a rede tem de ter muita grana. Um PV só dava para começar. O comentário sobre a legalização das drogas é espantoso. Diz tudo, só não conta que Mujica implementou a lei para proteger seu país da invasão de traficantes, estratégia usada pelos norte-americanos nos países da América do Sul. Foi aprovada pelo Congresso e ratificada, a lei, pelo Judiciário. A população majoritariamente era contra.

Isabeau da Silva

05/10/2013 - 04h49

Desconfio que Marina não quis criar partido algum. Essa pressa aparentemente desastrada, confrontando-se com uma lei antiga que qualquer partido merreca consegue cumprir, aumenta o capital político da ex-senadora. Tranformado-se em vítima, o que lhe cabe muito bem, cria um caarasco inexistente.
Nessa salada verde o apoio de Marina a qualquer candidato contra Dilma será um grande negócio político. Tenho dúvidas que Marina se filie a qualquer partido, seguirá com a Bíblia na mão, concordando ou criticando ações e lutas das quais não participa.

Cheila Do Rio Selarim

05/10/2013 - 04h40

Armou e se deu mal…

Jorge Luiz Tripode

05/10/2013 - 03h01

É uma pena que Marina Silva se bandeou para o lado negro da força!

Lulu Pereira

05/10/2013 - 02h37

Alguém tem o vídeo desse voto do Mentes?

Elizabete de Souza

05/10/2013 - 01h44

Vai marina ! se embalar na sua rede verde dourada. Vá fazer alguma em seu Estado !

Abdias Donato Campos

05/10/2013 - 01h18

Incompetente não conseguiu as assinaturas necessários para registrar seu partido, enquanto dois outros conseguiram. Blabláblárina foi incompetente no Ministério do Meio Ambiente e nula no PT.

Pedro

04/10/2013 - 21h58

Miguel, você está cada vez melhor.

Eduardo Njaim Duarte

05/10/2013 - 00h27

e eu que achava que de 6×1 só o galo perdia…


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