Comentários sobre o áudio vazado de André Esteves (BTG Pactual)

As flores murchas de Marina Silva

Por Miguel do Rosário

04 de outubro de 2013 : 21h08

Foi uma lavada. Uma goleada de 6 a 1. Sendo que o 1 é o Gilmar Mendes, que vale menos que um décimo de juiz. Então digamos que o placar ficou em 6 X 0,1. É um resultado que blinda o TSE contra qualquer crítica oportunista dos marineiros à lisura da votação.

Assim como o voto de Celso de Mello, mais uma vez tivemos uma vitória da racionalidade e da lei sobre o casuísmo e a pressão política. A lírica e esverdeada agremiação de Marina não reuniu o número de assinaturas certificadas necessárias para se fundar um partido no país. Ponto final.

O procurador eleitoral Eugênio Aragão já tinha deixado bem claro, há duas semanas, o que estava em jogo. “Não tem conversa, a lei é peremptória. Não há como fazer concessão nesse tipo de coisa”, disse Aragão.

São profundos os desdobramentos políticos dessa derrota de Marina Silva junto ao TSE. Vamos analisá-los à luz do artigo que a própria publicou hoje na Folha. Segundo ela, foi escrito antes de saber o resultado; mas o tom derrotista já o antecipava.

O texto encerra com poesia ruim. Não é a tôa que Ayres Britto é tão fã de Marina. Ambos são maus poetas metidos a entenderem de política, e falham miseravelmente em ambos os temas.

“De nada adianta criar obstáculos e dificuldades, os organismos vivos de um novo tempo já surgem para substituir as estruturas que se fossilizaram com o tempo. Como dizíamos em nossa juventude, mesmo que matem milhares de flores não poderão impedir a chegada da primavera.”

Deixemos de lado o tom messiânico, que nada mais é do que um disfarce para demagogia. Relevemos também a contradição botânico, visto que as flores só aparecem após a chegada da primavera – portanto não podem ser “mortas” antes de sua vinda.

O que sobra desse parágrafo? A seguinte frase:

“Organismos vivos de um novo tempo já surgem para substituir as estruturas que se fossilizaram com o tempo?”

Esqueçamos as firulas literárias e fechemos os olhos para a feia repetição da palavra tempo. Quem são os “organismos vivos”? A Rede? Que estruturas se fossilizaram com o tempo? Os partidos, a democracia, o TSE?

Entre os cientistas políticos progressistas que eu conheço, Marina Silva é considerada o elemento mais pernicioso, talvez porque seja a que tem menos escrúpulos para usar as contradições (infelizmente inevitáveis) da democracia contra a própria democracia.

A campanha da Rede para que o TSE desse um “jeitinho” e registrasse a legenda mesmo sem o número correto de assinaturas certificadas representou um insulto à lei, à democracia, à república e, sobretudo, à inteligência e boa fé de todos os brasileiros.

Já falei e repito. Sou favorável a criação da Rede e considero que seria um crime hediondo contra o espírito da democracia se houvesse, por parte do TSE ou dos cartórios eleitorais, qualquer iniciativa clandestina ou desonesta para prejudicar a agremiação.

Mas a reação de Marina Silva, culpando o TSE pela monstruosa incompetência de sua legenda, que não conseguiu fazer o beabá, reunir uma quantidade confortável de assinaturas, mostra pequenez política e irresponsabilidade republicana. A Justiça Eleitoral brasileira é reconhecida mundialmente por sua lisura, competência e uso inteligente da tecnologia. A conferição de assinaturas, todavia, é um processo naturalmente lento, porque a legislação eleitoral brasileira não aceita assinatura “eletrônica”, de forma que os servidores têm de checar uma quantidade covarde de papéis. Exigir que eles o façam isto em poucos dias é simplesmente falta de noção. Mais falta de noção ainda é pedir mais rapidez nesse processo e ao mesmo tempo exigir que todas as recusas venham acompanhadas de justificativas, sendo que não há esta exigência para o devido processo legal.

*

Marina Silva ainda não disse se vai aderir a algum partido. O PPS, legenda mais oferecida do que prostituta com aluguel em atraso, já começou a cercar a ex-ministra com mesma falta de pudor que mostrou quando tentava atrair José Serra. Mas Roberto Freire fez questão de pontuar: a única exigência do partido é que Marina se enquadre no antipetismo sectário e radical do PPS.

O que, naturalmente, será uma violência para a história de Marina Silva, cuja carreira política se deu inteiramente às custas do Partido dos Trabalhadores. E ela mantém relações de amizade com muitos integrantes do partido. E, lembrem-se: ao contrário de Roberto Freire, que alimenta um ódio patético e doentio a Lula, Marina jamais ofendeu o ex-presidente, a quem deve sua notoriedade, visto que foi Lula quem a nomeou para o Ministério do Meio Ambiente.

*

Marina e os marineiros não devem esquecer que ela se elegeu senador com recursos financeiros, humanos e partidários do PT, e tornou-se ministra por escolha de Lula. Escolher uma “terceira via”, aproveitando a brecha no fla-flu partidário nacional, tudo bem. Aderir ao PPS, que se tornou, assumidamente, bucha de canhão do PSDB, resignando-se inclusive a um processo acelerado de esvaziamento e fuga de aliados, é não só incoerência, mas um suicídio político.

Aliás, para Marina, uma filiação às pressas em qualquer partido, apenas acentuaria a impressão de que ela tentava montar a Rede exclusivamente para si própria, e com fim exclusivo de se candidatar a presidente da república em 2014.

*

De qualquer forma, nada é mais ridículo do que reclamar das “dificuldades burocrática” para se criar um partido no Brasil. O problema é o oposto. É fácil demais fazê-lo. A prova é esse PEN, uma legenda absolutamente caricatural, dirigida por uma figura com a inteligência política de um leão-marinho.

Existe liberdade política no Brasil! Quantas dificuldades não enfrentou o partido comunista, para nascer e crescer? Décadas de perseguição! Tortura, morte, sabotagem. O PT foi forjado ao longo de décadas de luta sindical, com seus primeiros fundadores sofrendo risco de vida. Que riscos e obstáculos sofreu a Rede? Nenhum, a não ser o risco de não colher um número suficiente de assinaturas…

Não, Marina. Ninguém está tentando matar flor nenhuma, até porque é ridículo comparar o duro processo da política a um campo de flores. As flores, se existem, brotam no espírito de cada um, e elas morrem vítimas da nossa própria covardia, desilusão, cansaço e fraqueza, estes sim os verdadeiros obstáculos que, diariamente, tentam corromper nossos ideais.

A metáfora da primavera, por sua vez, não me parece adequada à política, porque menospreza as outras estações, todas essenciais à vida. Você, como ambientalista, deveria saber disso.

O rigor do inverno, a melancolia do outono, o calor desesperante de nosso verão tropical, todas as etapas precisam ser cumpridas e respeitadas, e só aí virão as flores. Se elas murcharão antes de dar frutos, por desrespeito às instituições democráticas, açodamento eleitoreiro e messianismo, aí é outra história…

Atualização: Acabo de ver um infográfico no Estadão, com dados do Ibope, que merece atenção:

ScreenHunter_2681 Oct. 04 22.01

Segundo o Ibope, a maioria dos eleitores de Marina (59%) tendem a migrar para Dilma, caso ela não seja candidata.

Marina Silva

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

Apoie O Cafezinho

Crowdfunding

Ajude o Cafezinho a continuar forte e independente, faça uma assinatura! Você pode contribuir mensalmente ou fazer uma doação de qualquer valor.

Veja como nos apoiar »

15 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário »

Denise Barbosa

05 de outubro de 2013 às 20h12

Achei muita cara de pau levar a questão para o TSE. Lei é lei, não cumpriu, não busque ganhar no tapetão. Que decadência

Responder

Zeneto GuaranyKayoá Leao

05 de outubro de 2013 às 13h32

DESCARADA !!! ne? …

Responder

Paulo Cunha

05 de outubro de 2013 às 11h16

Pura jogada de marketing da evangélica fundamentalista, patrocinada pela Natura & Itaú associados.

Responder

Jorge Moraes

05 de outubro de 2013 às 02h14

Prezado Miguel: só não pude concordar com a ofensa dirigida aos leões-marinhos, animais dotados de inteligência bem maior do que a do homem do PEN.

No mais, texto impecável. E impagável.

E o Roberto Freire é intragável.

Nossa Submarina Amarela naufragou. Submarino de cimento, sucesso parcial da marinha lusitana: navegar, não navegou, mas que afundou que foi uma b´leza, ah, isso sim …

Piadas à parte, e o tal do PROS, hem? Já nasceu adesista. Hay gobierno? Soy Pro´s

Responder

Isabeau da Silva

05 de outubro de 2013 às 05h00

As capas da RR são hilárias! Grande revista.

Responder

Isabeau da Silva

05 de outubro de 2013 às 04h59

Leiam a ótima entrevista da Rolling Sotnes. Marina profetiza a política do século XXI e quer governar para “a humanidade”, mas a rede tem de ter muita grana. Um PV só dava para começar. O comentário sobre a legalização das drogas é espantoso. Diz tudo, só não conta que Mujica implementou a lei para proteger seu país da invasão de traficantes, estratégia usada pelos norte-americanos nos países da América do Sul. Foi aprovada pelo Congresso e ratificada, a lei, pelo Judiciário. A população majoritariamente era contra.

Responder

Isabeau da Silva

05 de outubro de 2013 às 04h49

Desconfio que Marina não quis criar partido algum. Essa pressa aparentemente desastrada, confrontando-se com uma lei antiga que qualquer partido merreca consegue cumprir, aumenta o capital político da ex-senadora. Tranformado-se em vítima, o que lhe cabe muito bem, cria um caarasco inexistente.
Nessa salada verde o apoio de Marina a qualquer candidato contra Dilma será um grande negócio político. Tenho dúvidas que Marina se filie a qualquer partido, seguirá com a Bíblia na mão, concordando ou criticando ações e lutas das quais não participa.

Responder

Cheila Do Rio Selarim

05 de outubro de 2013 às 04h40

Armou e se deu mal…

Responder

Jorge Luiz Tripode

05 de outubro de 2013 às 03h01

É uma pena que Marina Silva se bandeou para o lado negro da força!

Responder

Lulu Pereira

05 de outubro de 2013 às 02h37

Alguém tem o vídeo desse voto do Mentes?

Responder

Elizabete de Souza

05 de outubro de 2013 às 01h44

Vai marina ! se embalar na sua rede verde dourada. Vá fazer alguma em seu Estado !

Responder

Abdias Donato Campos

05 de outubro de 2013 às 01h18

Incompetente não conseguiu as assinaturas necessários para registrar seu partido, enquanto dois outros conseguiram. Blabláblárina foi incompetente no Ministério do Meio Ambiente e nula no PT.

Responder

Pedro

04 de outubro de 2013 às 21h58

Miguel, você está cada vez melhor.

Responder

Eduardo Njaim Duarte

05 de outubro de 2013 às 00h27

e eu que achava que de 6×1 só o galo perdia…

Responder

Deixe um comentário

Parlamentarismo x Semipresidencialismo: Qual a Diferença? Fernanda Montenegro e Gilberto Gil são Imortais na ABL: Diversidade Auxilio Brasil x Bolsa Família: O que mudou? As Refinarias da Petrobras À Venda pelo Governo Bolsonaro O Brasileiro se acha Rico ou Pobre?