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Divagações políticas sob o sol escaldante

Por Miguel do Rosário

28 de dezembro de 2015 : 20h52

(A análise de conjuntura desta tarde é uma crônica. Aproveitemos a trégua para nos bronzear um pouco ao sol de uma boa filosofia de botequim).

Taí uma bela bandeira para vencer a crise.

Comunicação.

Investir numa internet pública, barata, poderosa, para democratizar o conhecimento e a informação.

Não haverá liberdade de expressão no Brasil, nem liberdade de espécie alguma, sem uma infra-estrutura de internet mais democrática.

Sem uma internet democrática, estaremos para sempre vulneráveis a esse golpismo tipicamente brasileiro, calcado na mídia, como tentou ser em 54 e foi em 64, e tem ressurgido nos últimos anos com toda a força.

Estaremos permanentemente em crise política – e portanto econômica – porque a população não tem informação e, não tendo informação, não pode se unir em torno de estratégias comuns de desenvolvimento.

Reforma política?

Qual o sentido em se buscar uma reforma política sem antes discutir a questão da comunicação política?

A questão da comunicação vem antes da política, porque a política apenas se materializa na comunicação.

Ou seja, a política nasce da comunicação.

A comunicação é também um problema econômico urgente, porque o ambiente opressivo da comunicação brasileira gera igualmente a distorções no campo das questões judiciais. Se um juiz tiver apoio de um núcleo forte de mídia, pode fazer o que quiser no país. Torna-se um pequeno déspota, manipulado pela mídia, que o usa para criar todo o tipo de instabilidade, depois o joga fora, substituindo-o por outro.

O cara recebe prêmios da mídia, é convidado para seus eventos, é paparicado pelas dondocas fascistas de todo país, e daí enlouquece, porque não tem legitimidade para ser um representante político. Não tem votos. É um servidor vitalício, numa função em que, constitucionalmente, não pode exercer qualquer atividade político-partidária.

A Constituição diz. O Código da Magistratura repete. Juiz não pode exercer atividade político-partidária.

Procurador também não.

Essas regras tem uma importância óbvia.

Corporações públicas tem sempre a tendência a desenvolver espíritos corporativos.

O sujeito deixa de ser um servidor do país, e para a ser um servidor do judiciário, do ministério público.

A ciência política, sobretudo em Max Weber, trabalha constantemente com a figura dos estamentos, as corporações de servidores, o alto funcionalismo público. Esse mandarinato, às vezes necessário, às vezes autoritário, às vezes golpista, que sempre exerceu papel determinante nas lutas políticas em todo mundo.

Estive discutindo hoje, na fanpage do Cafezinho, algumas questões ideológicas prosaicas.

Os coxinhas tem estado muito salientes nos últimos anos, porque descobriram o óbvio: o cidadão ou cidadã de esquerda convive com uma série de contradições.

Não é fácil ser de esquerda, remar contra a maré do mundo.

Libertar a mente da quantidade incomensurável de preconceitos impostos por mídia, família, escola, amigos?

Pensar com a própria cabeça?

É difícil. É solitário. É duro.

Tudo conspira para que você seja um cidadão dito “de bem”, leitor fiel dos jornalões e revistas, indignado na hora certa e com as coisas certas.

Não com Pinheirinho, claro.

Não com a injustiça social.

Mas com a corrupção no governo!

É incrível como a história se repete.

O mesmo udenismo, a mesma histeria. Até mesmo o anticomunismo, que achávamos coisa do passado, de repente volta a nos assombrar.

E aí ficamos nas redes, quase nos desculpando: não somos comunistas, não somos petistas, não somos isso ou aquilo, como se não estivéssemos numa democracia.

Na verdade, nós, brasileiros, somos muito escorregadios, talvez de tanto sofrermos. Falamos uma coisa no trabalho, outra em casa, outra na rua, outra no elevador, outra na portaria do prédio, outra na internet.

Voltaire diria que, neste sentido, somos cidadãos corteses, sem muita paciência para discussões políticas.

O que pode ser uma qualidade, é também um defeito. Porque a nossa impaciência com a política nos obscureceu a visão: não vimos o crescimento do fascismo político, do ódio, não na escala que ele de repente tomou.

Entretanto, estou otimista.

Ou pelo menos, preciso ser otimista para sobreviver a esse ambiente apocalíptico que a mídia criou.

A economia brasileira tem fundamentos sólidos!

A população já chegou a 205 milhões de habitantes!

Temos terras, recursos naturais, população jovem.

É evidente que o nosso maior gargalo é a infra-estrutura.

Isso é consenso e deveria estar acima das disputas ideológicas.

Daí a importância da Lava Jato.

Ela representa a luta contra a corrupção.

Mas a burguesia brasileira é tão vira-lata – e os procuradores e Sergio Moro são representantes máximos desse vira-latismo – que transformou a necessária luta contra a corrupção numa batalha moral apocalíptica, feita justamente no lombo da infra-estrutura da construção civil, do transporte e da energia!

É como se no auge da guerra fria, um grupo de procuradores norte-americanos resolvesse fechar o Pentágono e as indústrias subsidiadas porque descobriu um esquema de corrupção.

Jogam a água e o bebê fora, sem nenhum pudor!

A Fiesp, de onde se podia esperar uma faísca de bom senso em prol do desenvolvimentismo, deixa-se capturar, qual um pato, pela malandragem de seu presidente, interessado muito mais em sua carreira política pessoal do que na situação da indústria!

O Brasil precisa discutir a sua infra-estrutura, e isso passa necessariamente pela instalação de uma grande e moderna indústria ferroviária, de um lado, que dê suporte a uma reforma profunda em nossa mobilidade urbana, e de uma grande indústria de comunicação e informática, de outro, que nos salve do maior pesadelo de todos: a ditadura midiática-judicial.

Transportes e comunicação, ambos de alta tecnologia – porque a Fiesp não defende essa bandeira, ao invés de voltar aos anos cinquenta e brandir discursos golpistas?

A democracia brasileira tem mecanismos de pesos e contrapesos, os presidentes tem um poder de manobra muito restrito, o que é bom, porque os impede de fazer – monocraticamente – grandes besteiras.

Dilma é uma presidenta democrática, disposta a aceitar sugestões tanto do “mercado” quanto da classe trabalhadora organizada.

Seu problema é ignorar a política.

Em política, é preciso ter base de sustentação. Dilma precisa cultivar uma base, pela política, através de programas políticos modernos e democráticos, estruturados não apenas do ponto-de-vista administrativo, mas também do ponto-de-vista de exercer influência sobre a narrativa de si mesmos, ou seja, estruturados também politicamente.

Precisamos de programas políticos ousados, mas que saibam ser defendidos, com inteligência, criatividade, verve, pelo governo que os implementa.

A luta política tem de ser feita com prazer.

O que vivemos nos últimos anos, este silêncio envergonhado do governo, é desumano.

Dilma desenvolveu, em si mesma, e contaminou todo o Planalto com isso, uma estranha síndrome do silêncio.

É um silêncio pavoroso, desesperado, turbulento, doentio.

Todas as pesquisas já mostraram que este silêncio é a principal causa da corrosão da autoridade política de Dilma Rousseff.

E mesmo assim, insiste-se neste silêncio auto-destrutivo?

Eu inclusive desconfio que as misteriosas jornadas de junho também nasceram desse mesmo silêncio… As pessoas saíram às ruas para obrigar o governo a se posicionar, a falar alguma coisa!

Na campanha de 2014, quando foi obrigada a estar presente todos os dias na mídia (e a mídia foi obrigada, pela legislação, a tratar os candidatos de maneira equânime), a popularidade de Dilma voltou a ficar alta.

E ela ganhou as eleições.

Uma boa aprovação popular é fundamental para se tomar iniciativas conservadoras, de austeridade fiscal, que às vezes são necessárias em momento de vacas magras para o governo.

Como se consegue aprovação popular em tempos de vacas magras?

Com política!

Comunicação!

Estimulando a constituição de fóruns de debate onde a população poderá participar da gestão de governo, contribuindo com ideias.

O Dialoga é um engodo porque não tem comunicação. E sem comunicação, não existe.

Cadê o trem-bala?

Cadê a ferrovia bioceânica?

Onde estão os grandes projetos de mobilidade urbana?

Queremos gráficos! Animações! Alguma coisa que nos faça, ao menos, sonhar com o futuro!

Há um disperdício gigantesco de energias em nosso país. Temos uma enorme juventude querendo participar da nossa democracia, e o aparato estatal, engessado, anacrônico, corrupto, não deixa a juventude participar.

Não é à tôa que a aprovação de Dilma é menor entre os jovens.

Claro que precisamos de uma reforma política, além de uma profunda reforma no Estado brasileiro.

Temos o Judiciário mais nababesco e perdulário do mundo, com desequilíbrios gritantes no próprio corpo de funcionários.

Numa mesma repartição, temos um servidor ganhando menos de 2 mil e outro auferindo 90 mil reais num mês, entre prêmios e regalias!

A cultura do privilégio permanece entranhada na organização do Estado brasileiro.

Por que um promotor ganha dez vezes mais que um professor?

Mas todas essas reformas, para se materializarem, precisam antes ser discutidas pela população.

E a mídia brasileira não tem pluralidade, nem legitimidade, nem competência, nem interesse, para produzir esse debate.

Quanto à corrupção, tratá-la como um problema partidário é simplesmente desonesto: é ser corrupto também.

A corrupção é um problema milenar, humano. Não foi criada pelo PSDB, nem pelo PT.

A corrupção, ao contrário do que pensam os coxinhas, não é um problema moral, ou antes, é um problema moral insolúvel, inerente ao ser humano.

Me espanta e entristece ver os nossos liberais abraçando, por conveniência, o discurso moralista.

A corrupção tem de ser vista e enfrentada com frio pragmatismo, como um problema administrativo. Tem de ser combatida com a instalação de mecanismos eficientes, republicanos, blindados, democráticos.

E com transparência.

Você pode bater no peito hoje e dizer: nunca roubarei. Mas e se você tivesse sido criado por outra família, em outro ambiente, tivesse outra vida, outro corpo, outras influências?

A justiça brasileira tem de seguir os preceitos de Cesare Beccaria: ser branda, célere e justa.

Os intelectuais brasileiros – e todo cidadão com acesso ao mínimo de cultura pode vir a ser um intelectual – não podem ser covardes. Tem de enfrentar o vulgo, porque para isso é que se tornaram intelectuais, para isso é que o país (e seus pais) investiu, de alguma forma, dinheiro em sua formação: para enfrentar o senso comum.

O povo não merece ser enganado. Toda grande nação precisa de intelectuais, que possam aprender com o povo e a lutar para inculcar valores democráticos e humanistas no coração do povo, e não, como faz a nossa mídia, insuflar-lhe o ódio sectário, o preconceito contra a política, a ignorância quanto ao processo democrático, a defesa da violência penal do Estado contra cidadãos.

A mídia jamais tentou ensinar o povo como funcionam os mecanimos democráticos. Em 40 anos de novelas, a Globo jamais abordou a política com dignidade, criando personagens e narrativas em que a política e a luta política ocupavam um papel de destaque.

O que nossos coxinhas não entendem é que os grandes países do mundo, incluindo os mais capitalistas, como Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, tornaram-se grandes porque seus povos protagonizaram séculos de lutas sociais, com inúmeras vitórias da classe trabalhadora.

A nossa mídia não apenas contribuiu para deixar o povo analfabeto politicamente, ela também contaminou as classes médias ditas cultas.

O sujeito passou seus melhores anos achando que o supra-sumo da cultura era ler a Ilustrada, a Bravo, a Piauí.

Mas nunca leu Tucídides, nunca leu Tito Lívio.

Tornou-se um analfabeto político, um coxinha metido a ilustrado, apenas semi-culto, porque ignorante das mais emocionantes aventuras da história da humanidade: as lutas sociais!

Quem conhece um pouco a história das lutas sociais, desde Roma Antiga até as revoluções renascentistas, modernas e contemporâneas, sabe que o próprio capitalismo de hoje é o resultado dessas lutas.

Os países mais ricos do mundo não são respeitados porque tem dinheiro, senão respeitaríamos a Arábia Saudita. Eles são respeitados porque desenvolveram sistemas políticos democráticos, os quais, por sua vez, nasceram de séculos de lutas sociais.

A democracia nasceu da luta social.

Há pouco tempo, o sufrágio universal era bandeira de radicais esquerdistas!

O voto feminimo, de socialistas lunáticos!

Ao mesmo tempo, a democracia talvez tenha raízes orgânicas, talvez seja inerente a uma psicologia política antiquíssima da raça humana.

Se as formigas tem comportamentos inteligentes condicionados ao longo de milhões de anos, porque não podemos ter?

Neste sentido, as ideologias de esquerda e direita são instintos ligados dialeticamente entre si. São faces da mesma moeda: egoísmo e coletivismo, yin e yang.

O instinto de sobrevivência nos leva a ser egoístas, mas poderia levar a humanidade à destruição (aliás, já está quase levando), não fosse a existência de um outro instinto, também poderoso, que leva o homem a pensar no coletivo.

Por isso, as batalhas ideológicas tem um aspecto fútil, quase artificial.

O comunismo é um braço do próprio capitalismo, na medida em que desenvolve alguns princípios também presentes nas ideologias liberais modernas.

São parecidos, como que idiomas ideológicos da mesma raiz. Suas diferenças mais profundas em geral são formas distintas de mentir para suas respectivas populações.

Por isso eu acredito que há, sim, um caminho do meio entre o capitalismo e o socialismo. Esses dois universos do pensamento representam os dois lados essenciais da modernidade.

Ainda nessa linha, sou crítico a uma porção de lugares comuns da esquerda, que muitas vezes se deixa enganar por uma polarização muito mais conveniente a seus adversários do que a ela mesma.

Não podemos jamais deixar o discurso da meritocracia ser monopolizado pela direita, por exemplio, porque a meritocracia é o grande orgulho e a única esperança de redenção da classe trabalhadora.

O rico não tem meritocracia nenhuma. Eis Aécio Neves, que não nos deixa mentir. Com 18 ou 19 anos já era aspone do Ministério da Justiça, em Brasília, mesmo morando no Rio e passando o dia inteiro na praia.

Que meritocracia é essa?

A mesma coisa vale para a liberdade.

Não há nada mais ridículo do que meia dúzia de barões midiáticos, cujas empresas se consolidaram sobre as ruínas da nossa liberdade e da nossa democracia, se arvorarem agora paladinos da liberdade de imprensa e de expressão!

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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6 comentários

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Gorila Man

30 de dezembro de 2015 às 01h48

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Gorila Man

30 de dezembro de 2015 às 01h29

Responder

Sandra

29 de dezembro de 2015 às 11h25

O sol te fez bem, muito boas as divagações! Um plano de comunicação para a presidente já !!!!

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Michelangelo Santini

28 de dezembro de 2015 às 23h22

Só sei que….
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DILMA FICA! :D

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    Baron

    29 de dezembro de 2015 às 08h45

    E o BRASIL sofre…

    Responder

Mauricio Gomes

28 de dezembro de 2015 às 21h29

Daqui a pouco aparecerão os coxinhas golpistas órfãos de um Chico Buarque para reclamar de alguma coisa. Mas é bom eles terem cuidado, afinal com esse calor as coxinhas vão ficar assadas…hehe

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