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A desigualdade precisa ser tão grande?

Por Redação

18 de janeiro de 2016 : 05h00

Podemos redistribuir parte da renda da elite sem anestesiar o progresso

por Paul Krugman, no El País

Até que ponto é preciso que os ricos sejam tão ricos? Não é uma pergunta fútil. É possível dizer que, no fundo, é em torno disso que gira a política nos Estados Unidos. Os progressistas querem aumentar os impostos sobre a renda mais alta e usar o que for arrecadado para reforçar a rede de seguridade social; os conservadores querem fazer o contrário e afirmam que as políticas que atingem os ricos são prejudiciais a todos, ao reduzir os incentivos para a criação de riqueza.

A história recente não ajuda muito a posição conservadora. O presidente Barack Obama aumentou consideravelmente os impostos para as faixas mais altas, e sua reforma da saúde representa a maior ampliação do Estado de bem-estar social desde Lyndon B. Johnson (presidente dos EUA de 1963 a 1969). Os conservadores previram um desastre inevitável, como tinham feito quando Bill Clinton elevou os impostos sobre o 1% de maior renda. Só que Obama acabou sendo responsável pela maior criação de empregos desde a década de 1990. Apesar disso, existe alguma razão, numa perspectiva mais ampla, para justificar uma grande desigualdade?

Não vai ser surpresa para você ouvir que muitos membros da elite econômica acham que há. Também não vão estranhar se eu disser que não concordo, que acredito que a economia pode prosperar com muito menos concentração de renda e de riqueza na ponta da pirâmide econômica. Mas por que creio nisso?

Parece-me útil refletir sobre isso recorrendo a três modelos que explicariam a origem da desigualdade extrema, já que a economia real toma elementos dos três.

Em primeiro lugar, uma enorme desigualdade poderia ser explicada pela existência de grandes diferenças de produtividade entre alguns indivíduos e outros: algumas pessoas são capazes de dar uma contribuição centenas ou milhares de vezes superior à média. Essa é a opinião manifestada num ensaio recente muito citado, cujo autor é o investidor de capital de risco Paul Graham, muito popular no Vale do Silício (ou seja, entre pessoas que ganham centenas ou milhares de vezes mais que os trabalhadores comuns).

Em segundo lugar, uma grande desigualdade poderia se dever em especial à sorte. No clássico do cinema O Tesouro de Sierra Madre, um velho garimpeiro de ouro explica que esse metal vale tanto —e quem o encontra fica rico— graças ao trabalho de todos que foram em busca de ouro sem encontrá-lo. De forma semelhante, poderíamos ter uma economia na qual quem fica com o grande prêmio não é necessariamente quem tem a melhor preparação ou trabalha mais, e sim quem tem a sorte de estar no lugar certo no momento certo.

Em terceiro lugar, a causa das grandes desigualdades poderia ser o poder: os executivos das grandes empresas que podem determinar sua própria remuneração, os espertalhões das finanças que ficam ricos com informação privilegiada ou recebendo honorários injustos de investidores ingênuos.

Como já disse, a economia real tem elementos dessas três histórias. Seria estupidez negar que algumas pessoas sejam, de fato, muito mais produtivas que a média. Mas seria estupidez também negar que um grande sucesso nos negócios (na verdade, também em qualquer outra coisa) dependa bastante da sorte; não só a sorte de ser o primeiro a ter uma ideia ou estratégia muito rentável, mas também de ter nascido na família certa.

E claro que o poder também é um fator importante. Lendo alguém como Graham, é possível imaginar que os ricos dos Estados Unidos sejam, na maioria, empreendedores. Na verdade, o 0,1% mais rico é composto principalmente por executivos. E embora alguns deles tenham amealhado sua fortuna embarcando em operações arriscadas, o mais provável é que a maioria tenha chegado lá subindo uma sólida escada empresarial. E o aumento da renda dos que estão acima de todos é reflexo dos estratosféricos salários dos executivos, não de prêmios à inovação.

Mas, em todo caso, a pergunta interessante é se podemos redistribuir uma parte da renda que atualmente vai parar nas elites minoritárias, destinando-a a outros fins sem anestesiar o progresso econômico.

Não venham dizer que a redistribuição é um mal por si só. Mesmo que a renda elevada fosse um reflexo perfeito da produtividade, os resultados do mercado não equivaleriam a uma justificativa moral. E, visto que a riqueza costuma ser reflexo da sorte ou do poder, há muitos argumentos a favor de que parte dessa riqueza seja recolhida na forma de impostos e usada para fortalecer a sociedade como um todo, desde que não sejam destruídos os incentivos para continuar criando mais riqueza.

E não há motivos para pensar que eles seriam destruídos. Se olharmos para trás, os Estados Unidos alcançaram seu crescimento e seu progresso tecnológico mais rápidos durante as décadas de 1950 e 1960, embora os impostos fossem muito mais altos e a desigualdade, muito menor que hoje em dia.

No mundo atual, os países com impostos elevados e pouca desigualdade, como a Suécia, são também muito inovadores e têm muitas empresas criadas recentemente. Isso pode ser devido, em parte, ao fato de uma rede de seguridade social sólida incentivar que se assumam riscos: as pessoas se dispõem a procurar ouro, mesmo que o sucesso da empreitada não as deixe tão ricas quanto antes, quando sabem que não vão morrer de fome caso voltem de mãos vazias.

Enfim, voltando à minha pergunta inicial, não, os ricos não precisam ser tão ricos como são. A desigualdade é inevitável; a desigualdade extrema que existe hoje nos Estados Unidos não é.

Paul Krugman ganhou o prêmio Nobel de Economia em 2008

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28 comentários

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Nelson Ribeiro

19 de janeiro de 2016 às 19h19

O que??? Respeitem a meritocracia!!!

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Itzak Shylock

19 de janeiro de 2016 às 01h15

imaginem essa proporcao na idade media

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Itzak Shylock

19 de janeiro de 2016 às 01h14

antes nove em dez pessoas no mundo eram analfabetas eeramndesnutridas

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Itzak Shylock

19 de janeiro de 2016 às 01h13

vamoscriticar ocapitalismo mas tem se de comparar com periodos anteriores

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Itzak Shylock

19 de janeiro de 2016 às 01h12

um pouco dehistoria antes da rev industrial essedesnivel era maior e nao haviachancede ascencao do pobre e hoje ha tanto que se proliferam historias q antes seriam impossiveis de ocorrer

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Itzak Shylock

19 de janeiro de 2016 às 01h09

diferenca de riqueza sempre havera period

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Itzak Shylock

19 de janeiro de 2016 às 01h09

terceiro a via pra minimizar isso eh o aumento de oportunidades nao o socialismo ou comunismo

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Itzak Shylock

19 de janeiro de 2016 às 01h08

segundo quem promoveu a producao dessa riqueza

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Itzak Shylock

19 de janeiro de 2016 às 01h07

vcs ignoram primeiro a historia

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Elidio Nonato

19 de janeiro de 2016 às 00h08

KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK O lula e a dilma já estam fazendo isso olha para a conta bancaria dos queridos filhos.KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

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Elidio Nonato

19 de janeiro de 2016 às 00h08

KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK O lula e a dilma já estam fazendo isso olha para a conta bancaria dos queridos filhos.KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

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Ubiraci Almeida Marcella

18 de janeiro de 2016 às 21h05

Nossos adminiiiiiiisradores , gostam disso,assim são mantidos no poder, comprando votos, por gerações,

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Helio Eduardo Pinto Pinheiro

18 de janeiro de 2016 às 20h58

E HÁ CAPITALISTAS QUE NADA PRODUZEM….CAPITALISTAS SEM CAPITAL…DIREITISTAS QUE NADA SABEM E QUE AINDA DEFENDEM ISSO!!!

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Josué Francisco

18 de janeiro de 2016 às 17h45

Distribuição de renda bandida resulta nisso. Muitos sem nada e poucos com tudo..!!!

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Maria Regina Novaes

18 de janeiro de 2016 às 15h05

Pois é Jorge…só que cansei de argumentar…daqui prá frente vou ser defensora do 1%.

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Valdir Dantas

18 de janeiro de 2016 às 11h22

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Felipe Kurpiel

18 de janeiro de 2016 às 11h12

OIha aí uma reportagem impressionante sobre o tema http://www.oxfamamerica.org/press/62-people-own-same-wealth-as-half-the-world/

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Vanderlei Nunes

18 de janeiro de 2016 às 10h39

Concordo que existe essa desigualdade absurda, mas, os pobres tem que se reproduzir tanto?

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    Jomar Almeida

    18 de janeiro de 2016 às 11h01

    Credo, q comentário preconceituoso! Parece que pobre é um bicho, uma praga!

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    Sandra Saraiva

    19 de janeiro de 2016 às 00h52

    Por ironia esse pobre que você parece ter horror
    paga imposto e é explorado por um desses 1 por cento que concentram as maiores fortunas do mundo.

    Responder

Jorge Espindula

18 de janeiro de 2016 às 10h38

Acho que não vai rolar…..
A questão chave presente no DNA da direita, força ideológica e filosófica dessa turma diz que “A desigualdade é intrínseca a natureza humana”.
Portanto qualquer tentativa de ao menos minimizar as desigualdades seria antinatural (contrário às leis da natureza).
Uma vez aceitando este mito sobrará pouca coisa para ser negociada.
Acho que foi Dante que viu a plaquinha na porta do inferno “Vós que entrais, abandonai toda a esperança…
Está turma nunca conseguirá avançar como civilização moralmente evoluída, aquele mito presente no DNA faz com que fiquem irremediavelmente aprisionados.
Welcome to the Hotel California!

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Seiji Okamoto

18 de janeiro de 2016 às 09h58

Para os 1% mais ricos, o que está em jogo não é mais o dinheiro, eles querem assumir o poder, de fato.

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mz

18 de janeiro de 2016 às 07h45

A sensatez simplifica sem ser simplória. Um pouquinho de bom senso seria suficiente para um ganho de escala na qualidade vida da população. Enquanto a elite achar que construir muros lhe dará segurança contra a desigualdade, viveremos num mundo temerário para o ir e vir.

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Lúcio Nicolau

18 de janeiro de 2016 às 09h43

Enquanto os pobres e a classe média se unirem para defender os privilégios dos ricos, isto nunca vai atenuar.

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Roberto Oliveira

18 de janeiro de 2016 às 09h22

Bom dia! Olha o absurdo na Band News fazendo uma chamada da Lava Jato com imagem do Dirceu: MORO ESTA DE VOLTA!

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