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Foto: Andressa Núbia/reprodução facebook David Miranda

David Miranda: “Concentração dos grandes meios de comunicação é o verdadeiro golpe”

Por Lia Bianchini

07 de setembro de 2016 : 17h01

Por Lia Bianchini, especial para O Cafezinho

Ele esteve nos bastidores da reportagem que revelou ao mundo a existência de programas secretos de vigilância nos Estados Unidos, também enfureceu João Roberto Marinho ao escrever, no The Guardian, artigos sobre o papel da mídia no golpe de Estado no Brasil. David Miranda se propõe, agora, a enfrentar uma nova batalha: a corrida eleitoral de 2016, como candidato a vereador pelo PSOL.

O Cafezinho conversou com David sobre mídia, eleições, representatividade LGBT e os novos rumos para a esquerda após o golpe.

O Cafezinho: Você não tem uma história na política institucional, é relativamente novo para o eleitorado. Então, queria que você começasse explicando quem é o David Miranda.

David Miranda: Eu venho da favela do Jacarezinho, na Zona Norte. Minha tia me adotou depois que minha morreu de um câncer no útero, quando eu tinha cinco anos de idade. Vivi com a minha tia até meus 13 anos, que foi quando eu saí de casa. Eu saí com a ideia de ganhar o mundo, conhecer tudo. Fiquei duas noites na rua, depois fui morar com dois primos meus que tinham mais ou menos minha idade, ali na Favela do Rato, em Inhaúma. Eu já trabalhava em uma locadora de video-game, no Jacarezinho, e eu continuei voltando lá pra trabalhar, o que foi meio complicado, porque era uma locadora pequena e o dono tinha que pagar minha passagem e aí acabou que ele não podia mais e eu tive que ser mandado embora. Eu trabalhava lá desde os nove anos, fui mandado embora quando tinha uns 14 anos. Nessa época eu já não estava estudando mais e consegui um trabalho naquelas lojas que vendem carros usados, eu tinha que lavar e polir carro. Acho que, até hoje, esse foi o trabalho mais difícil que eu tive na vida, porque, naquela época, você tinha que pegar a cera na mão, polir o carro todinho, doía o braço.

Eu tinha um anseio muito grande por liberdade. Quando eu morava com minha tia, eu matava muita aula pra pegar o ônibus e simplesmente ir até o ponto final, vendo a cidade sentado no banco. Eu comecei a sair muito, ver a cidade, ver a vida e aí foi por isso que eu saí de casa. E mesmo naquela dificuldade, morando com meus primos, essa liberdade foi muito boa. Eu tinha meu dinheirinho, podia fazer o que queria. Aí comecei no processo de trabalhar na campanha pra vereador do dono de uma loteria no Centro, entregando panfleto. Quando acabou o período eleitoral, eu passei pra faxineiro, depois pra entregador de jogos de loteria. Eu trabalhava no Centro e depois começaram a me despachar pra Zona Sul, Barra, conforme foram criando confiança. Virei caixa da loteria, fui ganhando a confiança dos donos. Isso eu já tinha meus 16 anos. Depois eu virei despachante dos boys, depois vendedor de telemarketing, fui crescendo lá dentro. Nos meus 19 anos, eu já tinha virado gerente de uma loja deles no Centro da cidade e aí eu conheci o Glenn [Greenwald]. Foi bem clichê romântico. Na Farme de Amoedo. Eu senti nossa conexão naquele minuto. Foi meu primeiro sentimento de pertencer a algum lugar. Foi quando a gente se encontrou. E aí depois disso a gente começou a sair, ele decidiu que ia se mudar pra cá em um mês e a gente decidiu que ia ficar juntos para o resto da vida.

Uns oito meses depois, foi quando o Glenn começou o processo de escrever o primeiro blog dele. Naquela época, ele era advogado, tinha alguns casos pendentes nos Estados Unidos, estava pensando em trazer a licença dele para o Brasil, e ele ficou muito frustrado com a situação política que estava acontecendo nos Estados Unidos. Isso em 2005. E aí ele começou a entrar muito firme nisso e fez o primeiro blog dele escrevendo sobre isso. Naquela época, a gente não estava ganhando muito dinheiro, porque ele tinha parado de trabalhar, eu ainda estava trabalhando, mas não estava ganhando muito dinheiro. As despesas começando a levantar um pouco. Aí a gente fechou o primeiro contrato de um livro dele. E foi meio que uma bagunça, a gente não sabia direito o que estava fazendo. Aí se aproximaram da gente, ofereceram um valor muito merreca, mas o Glenn tinha essa vontade de escrever há muito tempo. A gente fez o primeiro livro, depois de uns dois ou três anos, a gente mudou o blog dele para o The Guardian. Quando eu fiz esse processo de mudança, foi quando ele ganhou mais visibilidade e aí, no final de 2012, a gente entrou em uma briga com a CNN, conseguiu alguns documentos da CNN, então o Snowden tentou contato com a gente.

 

O Cafezinho: Como foi esse primeiro contato com o Snowden e por que ele decidiu procurar o Glenn?

DM: Ele enviou um e-mail e o processo era um pouco mais complicado, porque ele queria que a gente usasse alguns programas, falava sobre criptografia, e naquela época a gente pensou que ele talvez fosse mais um daqueles loucos que estavam falando sobre espionagem. Três meses depois, já em 2013, em fevereiro ou março, ele entrou em contato com a Laura Poitras, que foi a jornalista que fez o documentário Citizenfour, e ela pegou uma mostra desses documentos, porque ela entendia bastante de criptografia e ela já estava nesse mundo. Nesse primeiro contato [com a Laura], ele falou: “olha, eu vou passar esses documentos, mas eu preciso que você contate o Glenn, porque eu quero que ele faça parte desse processo de divulgação”. E aí a Laura foi encontrar com a gente. Ela veio com uma amostra do arquivo, no final de abril de 2013. E nesse processo a gente ficou em contato com ela, a gente deu uma olhada nos documentos e pensou que podia ser uma coisa real.

No final de maio, a gente sentou e teve uma conversa de umas cinco ou seis horas sobre o que fazer com aquilo que podia ser o maior vazamento da História. A gente começou a destrinchar os prós e contras. E, por eu assistir muitos filmes de espionagem, no meio daquela trama, veio muito à minha cabeça que o governo poderia matar a gente. Mas eu não expressei essa minha preocupação de morte ao Glenn, porque ele estava muito animado com aquele processo todo. Dava pra ver que aquilo ali era a paixão dele. Então, eu falei “vamos fazer isso juntos, vamos até o fim e se alguma der errado a gente está junto até o fim”. E foi o que a gente fez.

No dia seguinte, a gente teve uma reunião com a editora chefe do The Guardian e ficou decidido que iria ter uma outra reunião em Nova Iorque e depois a gente ia partir pra China. Como eu estava no período final da faculdade, eu decidi não ir. E o Guardian ficou meio indeciso sobre me levar, então, eles me substituíram por um jornalista de dentro do Guardian, que também já tinha mais experiência. No dia 1º de junho, eles partiram pra Hong Kong encontrar o Snowden. E aí a gente começou com a correria de analisar os documentos, fazer as coisas todas. Nesse mesmo período, a gente estava tendo um problema, porque a Laura queria publicar muito rápido, então ela entrou em contato com o Washington Post. E aí a gente passou por um processo meio complicado, porque o Guardian é um jornal de muito respeito e o material que a gente tinha sempre foi muito sensível (continua sendo até hoje), e eles estavam muito receosos. Quando a gente se aproximou do governo pela primeira vez dizendo que ia publicar aquilo, o governo tentou dar uma travada na gente. A gente passou por um processo de que precisava fazer a publicação e o Whashington Post faria. Eu sempre olhei por um aspecto da comunicação de marketing, não tenho vergonha nenhuma disso, e eu sempre quis o melhor para o meu marido e eu queria que ele lançasse a história. Ele foi viajar pra Hong Kong, o pessoal do Washington Post não foi, ele se arriscou, foi falar com o Snowden, deixou a vida dele paralisada pra fazer aquilo e ele merecia o crédito por aquilo. Ele acabou recebendo, mas a gente começou a entrar em uma briga. Eu falei para o Glenn “a gente vai escrever uma carta pra editora do Guardian dizendo que se até tal hora o artigo não estiver publicado, nós saímos do Guardian e vamos publicar em outro lugar”. Acabei convencendo a Laura também. A primeira ideia que a gente teve do Intercept foi ali.

E aí a gente fez esse ultimato, a editora comprou e foi publicado. Foi aquele estouro no mundo inteiro e nossa vida deu aquela guinada. A gente parou de dormir, ficava estudando as provas, falando no telefone, aquela correria, horas intermináveis, muita tensão o tempo todo. Eu falo com muita paixão, porque eu lembro da energia daquele período. Foi um período muito frenético. Passaram algumas semanas e eles finalmente deram o vídeo do Snowden, falando quem era ele e aquela coisa toda.

 

O Cafezinho: E vocês sofreram algum tipo de retaliação do governo dos Estado Unidos?

DM: Não, a única retaliação foi o incidente em Heathrow, quando eu fui pra Alemanha encontrar com a Laura pra gente organizar a comunicação, os próximos passos que a gente daria. Quando eu voltei para o Heathrow, eu fui detido durante 12 horas. 8 horas e 15 minutos sem acesso, sendo interrogado por sete agentes diferentes, perguntando todas as questões da minha vida. Eu tive um advogado durante 45 minutos, eles seguraram meu passaporte por 3 horas do lado de fora. Eles queriam que eu entrasse no país depois de me deter. Se eu tivesse entrado, eu teria sumido, nunca mais ninguém me veria. Mas eu briguei, resisti bastante. Não fisicamente, mas mentalmente. Nas primeiras horas, eu tive que entender qual era a lei que eles estavam utilizando. Eles só podiam me deter dentro da sala durante 9 horas, era o limite deles e eu podia ter uma ligação pra um advogado do sistema ou um advogado que eu escolhesse. Então eu escolhi ligar para o Guardian, pra eles enviarem um advogado. Em determinado momento eles me deram o telefone. Então, eu entendi exatamente como eu tinha que cooperar. Foi a parte mais freak ser obrigado a cooperar com eles. A cooperação quer dizer que se o agente achar que você não está cooperando, ele te dá voz de prisão imediatamente. Ou seja, toda vez que eles me faziam uma pergunta, se eu não respondesse à pergunta, isso não era cooperação. Eles me ameaçavam. Então foi muito difícil, mas ao mesmo tempo eu estava muito aliviado porque não era o Glenn que estava no meu lugar. Mas essa foi a única retaliação que eles conseguiram fazer. Quando eu voltei para o Brasil, eu comecei a fazer entrevistas com pessoas do mundo inteiro, a gente começou a escrever artigos, a ser mais ativo nessa situação toda. Foi quando eu comecei a me politizar mais aqui no Brasil. Aí me juntei à galera do Juntos e a gente começou a ir pra rua, fazer protestos, junto com o Marcelo Freixo, a Anistia Internacional, conseguimos apoio de vários artistas.

 

O Cafezinho: E como foi a decisão de se tornar candidato a vereador?

DM: Em 2014, a gente teve a grande campanha, eleições muito fragmentadas, e lá eu consegui reconhecer uma figura que se qualificava por lutas sociais, que falava por lutas que eu tinha o anseio de ver, que foi a Luciana Genro. E eu me posicionei, pela primeira vez, e o Glenn se posicionou também, de uma certa forma, politicamente apoiando ela. Em 2015, eu me filiei ao PSOL, mas nessa época eu já fazia um trabalho de base com a galera do Juntos, que também é do PSOL. E a gente fez a Casa da Juventude, que é uma casa que surgiu pra galera do Juntos se organizar para os protestos e tal, mas acabou virando um centro de produção cultural, que conecta vários territórios. E lá a gente faz debates, tem um curso de formação de negro e negras. Foi lá que a gente floresceu a primavera das mulheres, que as meninas do Juntos organizavam o pessoal, chamavam as plenárias pra poder ir pra rua. Foi lá que a gente fez a campanha no começo deste ano pra tirar aquele pastor Ezequiel, que estava na cadeira de direitos humanos. Foi lá que a gente impulsionou o tratado Snowden, que é um tratado internacional, que foi criado, formatado dentro da Casa da Juventude. Isso é uma parada que a gente tem muito orgulho. Esse ano, a gente impulsionou também lá na Casa da Juventude o levante da molecada, a ocupação das escolas, a gente organizou os folhetos deles, mostrou a eles como foi feito em São Paulo, demos cursos de audiovisual pra que eles usassem seus próprios celulares, pra que eles mesmos contassem suas próprias histórias, pra fazer o embate contra aquela mídia hegemônica que estava tentando criminalizar o movimento.

Em março, eu completamente descontente com a cobertura que a gente estava tendo sobre o processo de impeachment, comecei a escrever mais no Intercept sobre a situação que estava acontecendo na crise brasileira e com isso a gente começou a receber várias críticas dos meios de comunicação daqui. Depois do processo de impeachment da Câmara, o The Guardian me convidou pra escrever um artigo pra eles e eu escrevi, criticando basicamente a Globo, os meios de comunicação daqui, e João Roberto Marinho saiu da toca dele, se sentiu incomodado com as verdades que eu denunciei, o ego dele foi ferido, ele se sentiu muito ofendido e ele foi jogado nos comentários [do The Guardian]. E ali eu pensei que a gente tinha uma oportunidade de fazer um debate sobre qual é o real papel da mídia no Brasil, porque esse cara saiu da toca e olha as mentiras que ele está falando. Eu peguei, fiz uma tréplica e acho que ele nunca mais quis sair do escritório dele depois daquilo. Mostrei a real posição que a Globo teve nesse processo e até antes desse processo, na ditadura, mostrei o que ela representa: simplesmente o maior partido político do nosso país.

E depois disso, a gente decidiu que deveria lançar candidaturas pra ocupar esses espaços de poder, não deixar os Cabrais e Piccianis da vida ocupando, pra gente, a sociedade, fazer essa construção conjunta, porque esses caras não vão fazer nada por a gente, e construir uma frente mais progressista dentro da cidade. Já que a gente está fazendo uma construção nas ruas, que a gente também tenha um pé lá no legislativo, que é muito importante também. Eu lembro que eu fui pra Nova Iorque pra ver um show de televisão que eu estou querendo fechar para o Glenn, um talk-show, e a Tali, que é a nossa liderança aqui no Rio de Janeiro, me ligou e falou que a galera do Juntos tinha me escolhido pra representá-los na Câmara. E foi um momento muito bom.

 

O Cafezinho: Você pensou em não aceitar?

DM: Naquele momento, não. Já foi de imediato. Tem várias pessoas no nosso coletivo que me inspiram, com quem eu aprendi muito ao longo desses três anos que a gente está na militância. E a galera ver que eu posso ser a pessoas que pode representá-los lá, me deu uma felicidade, mas também um frio na barriga, com certeza. Eu consigo ter uma conversa muito boa cara a cara, mas a minha oratória tinha que melhorar muito. E aí eu comecei um processo de todo dia de manhã fazer pelo menos um discurso em frente ao espelho. Porque esses caras que já estão lá vem de famílias que estão ali há anos, são escolados. Então, pra gente não fazer feio lá, eu comecei um processo também de entender as questões mais profundas. A gente foi visitar vários lugares da cidade, uma campanha bem coletiva mesmo. A gente fez o “Da juventude para a juventude”, “Se a cidade fosse nossa”, visitamos vários lugares, colhemos assinaturas, vimos a situação da cidade e começamos a montar um programa. Esse programa ainda não terminou, ele está aberto, a gente continua a construção com a sociedade inteira e estamos aí, brigando pra conseguir essa espaço, porque a gente acha que lá a gente vai conseguir fazer a diferença, assim como estamos fazendo a diferença nas ruas.

 

O Cafezinho: Você falou que, com a discussão com o João Roberto Marinho, você achou que seria possível debater o real papel da mídia no Brasil. E qual é esse papel?

DM: O real papel da mídia, hoje, é ser um partido político. É um partido político que se apresenta com algumas pautas principais. Por mais que eles tenham pautas que pareçam progressistas, eles são extremamente conservadores. Eles estão em uma posição de não perder privilégios, são as oito maiores famílias do país, eles têm uma agenda para manter isso e cortar o que a gente acabou de ter como evolução. Mas não se engane, a evolução que a gente teve no país foi pouca, feita pelo movimento negro, pelo movimento das mulheres, pelo movimento dos LGBTs. E quem estava lá no governo, o PT, simplesmente só acatou essas lideranças. O PT teve seu papel, fez algumas coisas, mas as mudanças progressistas que a gente teve foram vindas desses grupos que puxaram essas pautas. Então, esses meios de comunicação têm uma agenda conservadora, pra manter aquele 1% do qual eles fazem parte contra o restante da população.

 

O Cafezinho: Imaginando que um escândalo semelhante ao caso Snowden surgisse no Brasil, você acha que a gente teria uma mídia capaz de denunciar o governo dessa forma?

DM: Desse tamanho, eu não acredito. Vou te explicar o por quê. Hoje em dia, os nossos poderes políticos estão entrelaçados com os poderes da mídia e com os poderes econômicos. Essa tríade só visa uma coisa: o benefício dessa casta que está lá em cima, ela não visa a maioria da nossa população. Essa tríade não deixa que nosso país vá em frente, que evolua. Esse é o interesse real por trás disso, respaldando só uma situação. Lembrando que a maioria da população assiste televisão. A gente tem os meios de comunicação independente, que são as nossas mídias alternativas, os nossos blogs, sites, páginas no Facebook. Essa galera é quem está nos salvando. Mas lembrando que só 51% da população tem acesso à internet. E mesmo nesses 51% a gente consegue fazer um recorte de quem realmente está utilizando a internet para pegar informação e dentro desse recorte um outro recorte de quem realmente vai se interessar por política. Então, dentro da população brasileira, a gente ia estar minimizado a um pequeno grupo, que estaria falando entre si, tentando expandir.

 

O Cafezinho: Você acha que é possível uma mudança nessa lógica da comunicação a curto prazo?

DM: Olha, a curto prazo, eu não acredito que a gente conseguiria fazer essa mudança. Eu acho que tem medidas que a gente pode tomar a curto prazo, sim. Por exemplo, a gente está agora em eleições municipais, a Globo fica aqui no Rio de Janeiro. A gente pode propor restrições ao tipo de verba que vai ser direcionado da própria cidade para a Rede Globo. O aporte que seria destinado para a Globo, a gente pode colocar em outras áreas. A comunicação não sai só da televisão. A gente pode tirar um pouco do investimento em televisão e, por exemplo, investir em rádios comunitárias nas favelas, produzindo cultura dentro dos próprios espaços. Pode investir em jornais locais, ter um investimento para falar sobre políticas locais. Se os deuses quiserem e a gente entre para o governo do município, a gente vai querer instalar em todos os bairros pequenos comitês e se cada bairro tiver seu próprio meio de comunicação, seu jornal, a gente pode falar e saber das políticas públicas que precisam ali. É tirar a verba dos grandes meios de comunicação, passando pro âmbito municipal, o que dá pra fazer realmente. A gente não quer falar sobre o que não dá pra fazer, a gente quer falar sobre política real. E quando a gente faz isso, a gente ganha um novo tipo de comunicação alternativa. E essa comunicação é real, em que você dá liberdade à população. E aí futuramente, em 2018, a gente pode eleger mais deputados progressistas e lá no Congresso tentar passar uma lei no âmbito federal pra modificar isso que está aí. Vou falar pra você que não vai ser fácil, é uma batalha que a gente vai ter todos os dias. É possível? É. Esse alto valor todo concentrado nos grandes meios de comunicação é o verdadeiro golpe.

 

O Cafezinho: Falando um pouco sobre manifestação popular: 2013 foi marcado no Brasil como o ano das grandes manifestações, uma insatisfação generalizada com todos os tipos de governo (seja em âmbito municipal, estadual ou federal). Paradoxalmente, em 2014 foi eleito o Congresso mais conservador da história do Brasil desde 1964. Como você acha que essa geração de 2013 vai repercutir nas eleições deste ano?

DM: Então, tem duas coisas que acho que dá pra gente analisar nesse sentido. O primeiro fato é que a gente teve um Congresso que realmente foi muito conservador. A gente lembra dos esquemas do Cunha, do Cunha patrocinando toda aquela galera. Esse patrocínio fez uma diferença muito grande nisso. O Cunha fez esse grande investimento pra conseguir fazer com que ele tivesse essa movimentação. Então, a gente fala sobre o poder econômico que esses partidos têm. Os partidos mais conservadores são extremamente ligados às igrejas. Eu vi uma pesquisa, inclusive, mostrando que o PT lançou 47% menos candidatos à prefeitura do que em 2012, em compensação, o PRB, partido do Crivella e da Igreja Universal, lançou mais 38%. Então, assim, as igrejas coletam muito dinheiro e não pagam impostos por isso. Então conseguem ter bastante renda pra fazer essa frente. E as campanhas são muito movidas a dinheiro. Restringiram isso agora e eu não sei muito bem como vai ficar essa campanha, mas no cenário passado as campanhas foram muito milionárias. Essas figuras conservadoras vinham com uma base de bastante dinheiro pra poder ir pra rua e no momento em que o país estava passando por uma crise econômica e política que só se aflorou mais nos últimos ano e estourou com uma indignação muito grande, principalmente da juventude, mas também do resto da população, que estava indignada mas não sabia muito bem o que estava reivindicando. Então, as pautas ficaram meio confusas, o que se refletiu em 2014. Mas quando você passa por momentos de crise no país, as pessoas tendem a ser mais conservadoras, tendem a correr mais pra igreja, ter um pensamento mais conservador, porque é natural do ser humano.

Então, tem essas coisas atreladas: o momento político que a gente estava passando e a grande força de dinheiro que tinham essas campanhas. E aí a gente vindo para as eleições de agora, a gente tem uma coisa completamente nova, que ainda assim é uma eleição com âmbitos antigos. Apesar de a gente não ter financiamento de empresa para candidato, existe o financiamento para partido, então a gente precisa olhar muito quais são os partidos que estão ganhando dinheiro nisso.

A gente está agora em um momento crucial, porque o golpe foi dado, a gente tem um governo extremamente conservador, cortando direitos de todos os lados, fazendo investimento maior na própria publicidade, completamente corrupto, envolvido até o último fio de cabelo em escândalos. Na minha campanha, a juventude está florescendo, a galera quer ir, correr atrás, está indignada, quer mudar. E a gente vai tomar essa cidade de novo, a gente vai fazer política pública junto à população, a gente vai fazer uma frente progressista nessa cidade. A gente não vai dar dinheiro pra empreiteira, a gente não vai ficar do lado desses mega-eventos. A gente vai governar para a população.

 

O Cafezinho: Como você diria que o governo ilegítimo pode influenciar na próxima gestão da prefeitura?

DM: Então, o governo federal faz uma distribuição para o estado e o estado faz uma distribuição para o município. Então, essa relação município e governo federal não é exatamente uma relação direta. Porém, a gente está falando da maior capital política do país, do Rio de Janeiro, uma das maiores cidades do mundo, uma cidade referência. O que significaria a gente ter uma frente progressista contra esse governo que está lá? Ter uma frente de embate a um governo ilegítimo. Uma cidade como essa mostrando que dá pra governar junto à população, a gente consegue ter uma frente progressista mostrando que em 2018 é possível colocar uma frente progressista lá no Congresso. Então, assim, olhar para as eleições municipais como um remédio pra gente conseguir transformar 2018, esse é o caminho que a gente tem que fazer.

 

O Cafezinho: Você se posiciona abertamente como um candidato LGBT. Para além da representatividade, qual é a importância real para a comunidade LGBT ter uma cadeira na Câmara dos vereadores?

DM: Então, nós somos muito unidos dentro do PSOL, todos os candidatos, não só os LGBTs. A gente está fazendo a construção de um programa para o nosso município, para o nosso estado e nosso país. E todos nós temos consciência de que nosso inimigo é aquele que está lá na frente. É o governo ilegítimo, é o PMDB, o PSDB, eles acabaram com o nosso estado, com a nossa cidade e estão acabando com o nosso país. Então, a gente está fazendo uma frente, vai pra panfletagem juntos, faz eventos juntos, porque a gente acredita nisso, que a gente precisa de uma frente progressista e a gente acredita na representatividade. A gente acredita na representatividade além disso. O que é nós estarmos ali? É mostrar, sim, para aquele LGBT que eles podem estar ocupando cargos públicos, sim, como o Jean está lá. Mas a gente quer fazer isso no âmbito municipal, porque a gente vai estar pensando em leis, nas preocupação da pessoa LGBT. Claro que pode ter outros candidatos falando sobre isso, mas é importante a representatividade de uma pessoa LGBT ali.

Vou fugir um pouco do assunto e depois voltar a ele. Nas Olimpíadas, quantos casais homossexuais proclamaram seu amor? E a diferença que isso fará pra uma criança de 14 anos ver que aquilo ali é possível. Falar que aquilo não é errado, tem um impacto na nossa vida. O mesmo impacto vai ter se tivermos representatividade dentro da Câmara.

Voltando, além disso, a gente pode pensar nas questões principais, como, por exemplo, a saúde. Tem coisas que só nós que fazemos parte desse grupo vamos entender. Eu não sei na minha pele, sei por parte de amigos e amigas trans que vão tentar tratamento no SUS ou vão em hospitais e muitas vezes são hostilizados. Então, a gente precisa pensar como essas pessoas vão ser tratadas nesses ambientes. Precisamos dar preparo para esses profissionais, de toda a rede, desde o médico que sai da faculdade até o cara da limpeza. Temos que ter em todos os hospitais núcleos voltados para atendimento LGBT. Isso também voltado para a segurança. Todas as delegacias têm que ter isso. A gente tem que criar dois núcleos nas delegacias: expandir o criado para as mulheres, que são muito importantes, e pelo menos um núcleo para pessoas LGBTs. Porque a gente vê a necessidade desses dois grupos de terem uma pessoa preparada, sabendo qual tipo de linguagem usar.

A gente vai mais além, a gente vai na raiz do problema, na educação. A nossa sociedade está doente, porque a gente está lá na escola ensinando que o gênero masculino é superior ao feminino. E a gente tem que ter um debate dentro das escolas. Mas não vale só ensinar os alunos. A gente tem que ensinar os professores também, porque tem uma gama de professores despreparados, que não sabem falar com os alunos. Então, a gente tem que trabalhar todas essas questões. Fora questões ambientais mesmo da cidade, como transporte 24 horas, que é essencial para esses grupos, e saber o horário em que chegam esses transportes. Porque você pode sair do trabalho à meia noite, mas o ônibus só passa meia noite e meia. Então, se você sabe que aquele ônibus vai estar ali meia noite e meia certamente, você pode fazer aquela caminhada, numa rua que a gente pensa em como vai projetar a iluminação para o pedestre e não para os carros, que tenha acesso a wifi, o que dá liberdade de comunicação melhor, pra você avisar onde está, principalmente em horários de risco. Então, nesse programa, apesar de eu pegar bastante a pauta LGBT, a gente pega pautas da cidade. Não é uma candidatura minha, é uma candidatura coletiva, construída há anos. O Juntos é o segundo maior coletivo de juventude do país, a gente já vem construindo essa base há muito tempo.

 

O Cafezinho: Pra finalizar: aqui no Rio de Janeiro houve um debate muito forte sobre a necessidade de unificação das chapas de esquerda concorrentes à prefeitura. Hoje, já com as campanhas em curso, você diria que foi uma decisão acertada o lançamento de candidaturas separadas?

DM: Olha, sem sombra de dúvida. Porque o PSOL é uma frente progressista muito forte, mas a gente não estava no governo PMDB até agora. A Jandira estava. Só saiu por causa do processo de impeachment. E eles, o PCdoB, estão fazendo coligação em vários outros estados do país. Falam que é golpe, mas fazem parceria. Então, isso é uma velha política e a gente quer romper os laços com a velha política. A gente não faz laço pra poder manter cargo, a gente não fez pra poder ganhar tempo de televisão e é algo que a gente não vai fazer, porque a gente não está vindo aqui pra governar com esses caras da velha política, a gente está vindo pra governar com o povo e para o povo. Essa foi a decisão mais certa que nosso partido poderia ter feito. Agora, a gente também tem que pensar o real, que é como a gente vai ter o Freixo no segundo turno. O Freixo recebeu um milhão de votos, ficou em segundo lugar na última eleição. Ele só não ficou em primeiro lugar porque todos os outros partidos fizeram aliança com o PMDB. Então, eu vou te dizer uma coisa: nós não fizemos essa aliança porque a gente acredita que vai governar com o povo e a gente não vai governar com os caras que se vendem, a gente não vai fazer a velha política. E se lá em 2012 o povo acreditou na gente, o povo vai acreditar de novo e dessa vez eles vão ver quem está aí pra governar de verdade e quem é de mentira.

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