Boulos em Recife

Mino Carta: golpe de hoje é pior que o de 1964

Por Miguel do Rosário

18 de outubro de 2018 : 21h45

Mino Carta, para o Nocaute:

Jantava com Paulo Henrique Amorim em restaurante da nossa preferência e na mesa ao lado dois casais, cavalheiros pançudos, damas empetecadas, erguiam brindes a Bolsonaro e Marine Le Pen. A eleição aconteceria dois dias após e aqueles perfeitos representantes da chamada classe média brasileira já declinavam seu voto sem saber que a senhora Le Pen não apreciaria ser escalada em companhia do capitão. Para permanecer na crista das ondas, os abastados nativos agarram em fio desencapado, como diria Plínio Marcos.

A nossa ignorância política já forjou, nos últimos 60 anos, figuras como Jânio Quadros, Paulo Maluf, Fernando Collor, para não dizer de outras menores, mas exemplares no gênero, entre elas João Doria e Garotinho. Nada e ninguém é pior que Jair Bolsonaro, até mesmo a Globo e sua máquina de propaganda determinante ao êxito do golpe de 2016. No caso, a ironia do destino produziu um efeito espetacular: à sombra de Bolsonaro, o bispo Macedo torna-se especialmente indigesto para quem vive próximo das águas poluídas da Lagoa Rodrigo de Freitas e da Marginal do Pinheiros.

Nem Fernando Morais nem eu, ao visitar Lula na prisão, na quinta-feira 11, perguntamos ao ex-presidente condenado sem provas se porventura se regozijava com a cilada urdida pelos fados contra os propagandistas globais. Estivemos com o velho e caríssimo amigo sem a intenção de entrevistá-lo para evitar um novo processo, este por desobediência, conforme a ameaçadora determinação do supremo presidente dos golpistas de toga, aquele Toffoli que o próprio Lula indicou para o STF. Nem por isso deixamos de falar da situação na perspectiva do segundo turno e ele queixou-se do tom menor da campanha de Fernando Haddad.

Com a energia e a vivacidade de sempre e no embalo a quem sugere o mea-culpa da esquerda, Lula repetiu não ser hora de atos de contrição, mesmo porque o PT mostrou vitalidade no primeiro turno. O ex-presidente conserva, além da saúde, as emoções e frequentemente o sorriso, a despeito das vicissitudes sofridas desde a tenebrosa noite de 7 de abril passado. E, mais, o poder de sedução, exercido sobre seus carcereiros, conquistados. Vive em um espaço de 25 metros quadrados, banheiro incluso, a cama encostada em uma parede, do outro lado a esteira para manter a forma, um guarda-roupa, mesa no centro e algumas cadeiras. Sentamos e conversamos por uma hora.

Quando não chove, Lula pode percorrer um corredor curto e estreito para alcançar diretamente um estranho recinto, diria de 5 x 4 metros, cercado de muros, aberto para o céu sem vista para o exterior, de onde se eleva o coro dos fiéis estacionados em frente à PF: “Lula livre”. Fernando Morais gira os olhos sobre aquele cubículo cimentado lividamente e sentencia: “Este é um canil”. Os dois guardas que tomam conta do preso, Chastalo e Sebastião, os seduzidos, explicam que o ex-presidente, quando possível, toma sol por uma hora e meia esticado no banco de pedra a ornar a solidão.

Nada é pior que Bolsonaro e nada é mais desolador do que encontrar o grande líder popular brasileiro encarcerado. Pessoalmente, concordo não ser hora de autocríticas, mas também me parece não ser hora das vaias petistas que levaram Cid Gomes, no dia 15, ao destempero no decorrer de uma reunião entre presumíveis aliados. Assim se demolem as pontes lançadas pelo projeto de uma frente democrática. Muitos erros foram cometidos pelo caminho, sem perceber as pedras ou as ignorando.

No pior momento da nossa deplorável história, o PT mostra toda a sua visceral incapacidade de ser o partido de esquerda de que o País necessita, no sentido, digamos assim, contemporâneo do pensamento de Norberto Bobbio, a agremiação determinada a defender a igualdade neste Brasil brutalmente desigual. Os últimos movimentos do petismo fracassado estão na censura praticada apressadamente em relação ao programa eleitoral, ao retirar as demandas que mais incomodam a casa-grande, com o remate de extrema covardia do candidato Fernando Haddad, disposto a elogiar um dos principais responsáveis pelo desastre atual, o reles inquisidor Sergio Moro, torquemadazinho tão representativo da nossa Idade Média. É a traição cometida contra o próprio líder e fundador do partido, mesmo que Lula não se dê conta disso e da patética inutilidade do seu sacrifício.

Se houve oportunidade para ampliar o raio das alianças aos que, mesmo sem figurar no campo progressista, se dão conta do risco Bolsonaro, esta eleição ofereceu a mais propícia, sem falar da indispensável aliança de Ciro Gomes. Ocasião perdida. De resto, que esperar de um país onde os termos esquerda e direita perdem qualquer significado, até hoje entregue a um exército de ocupação e ao monopólio midiático? Anotem: o golpe de 2016 é mais nefasto do que o de 1964, conquanto então tenham sido lançadas as sementes da tragédia de hoje. Ilo tempore, ao menos áreas fardadas eram nacionalistas e contiveram a tendência à vassalagem aos EUA pretendida pelos golpistas à paisana. Hoje, as Forças Armadas, de farda e de pijama, apoiam a insanidade bolsonarista, genuflexa diante do neoliberalismo in extremis, a peste bubônica da nossa Idade Média, e da vontade de um Tio Sam que, ao tirar a cartola, exibe o topete de Donald Trump.

Difícil, se não impossível por ora, imaginar o que nos espera, cientes ou não da ameaça à nossa espreita. Tomo aqui a cautela do locutor de futebol que, aos 30 minutos do segundo tempo, quando o adversário dos Canarinhos vence por 2 a 0, vislumbra uma ainda possível reversão. Aos meus botões, entre perplexos e atônitos, pergunto: que acontecerá quando os eleitores do capitão, sobretudo os pobres, se for ele o eleito, entenderem ter sido logrados? E que fará a mídia nativa ao se defrontar com sua própria responsabilidade pelo advento do monstro? Quanto vai durar um governo Bolsonaro não me arrisco a dizer. Confesso, porém, que mais temor e espanto me causam o Judiciário golpista e o exército de ocupação.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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9 comentários

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Anderson

22 de outubro de 2018 às 17h38

O tempo todo, desde 2013, a midia soube direitinho jogar com o medo ao seu favor! Como cordeirinhos a esquerda foi toda rebanhada! Vejo muita choradeira e pouca ação, ninguem se move e nem se posiciona em direção a uma reação, a algum ato que realmente faça a diferença!! Talvez estejamos mesmo rumando para algo semelhante ao nazismo, onde aqueles que eram contra, não tiveram voz suficiente pra gritar que tava errado e que não concordavam.
Bem ou mal, os bolsotontos buscam um mudança, se unem e lutam por algo, a esquerda luta pelo o que? Só espera dar merda e depois resmunga!! Da até vergonha, e foi esse sentimento que conseguiram passar, ser de esquerda é digno de vergonha atualmente. Qual vai ser a proxima???

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jose carlos

19 de outubro de 2018 às 21h26

O que fará a mídia nativa? Simples, caro Mino. Irá esperar 50 anos e depois pedirá desculpas. Como o fez a Folha, Rede Globo ….

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Lafaiete de Souza Spínola

19 de outubro de 2018 às 13h47

Eu me pergunto o porquê dessa onda de atitudes fascistas pela Europa e mundo afora. Os efeitos do tsuname alcançaram até os States que elegeram um Trump!
Todos comentam e muitos semeiam ódio de cuja árvore não se colhe bom fruto.
Mas, por quê?
“Apenas os tolos se lançam, sós ou em grupo, na tortura mental de encontrar uma solução, de descobrir uma ideia, sem proceder a investigações.
As investigações são comparadas aos longos meses de gestão, enquanto a solução do problema compara-se ao dia do nascimento. Investigar sobre um problema é resolvê-lo”.
Investigar?
Lembro-me: Quando a Dilma inaugurou as obras do Porto de Mariel, uma certa revista usou um tal SITE Diskus para controlar os comentários. O que aconteceu? Qualquer opinião que não condenasse a Dilma era censurado. Os atuais eleitores do Bolsonaro ficaram livres, sem qualquer censura! O ódio, já brotava ali, naquele terreno adubado e livre!
Investigar, sem ódio, mostrar as causas, é preciso, pois,todos somos afetados! Principalmente, aqueles que só conhecem a água não tratada e nunca provaram o sabor de uma taça de vinho!
O povo espera por isso que sempre negam:
https://www.facebook.com/LafaieteDeSouzaSpinola/posts/536024086555004

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    Paulo

    19 de outubro de 2018 às 21h05

    Lafaiete, há teses, circulando pelo mundo, de que o regime democrático se esgotou. Eu não creio, e foi alvissareiro, nesse sentido, o resultado de uma pesquisa, feita recentemente (há alguns dias) entre os brasileiros, que demonstrou à saciedade que nossos patrícios preferem a velha e boa democracia burguesa. O mais é a ciclotimia normal da vida e a teoria do pêndulo sócio-político…

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Oswald

19 de outubro de 2018 às 12h19

Legal, para os petistas eleger Bolsonaro agora é golpe tambem rsrsr
Se afundam cada vez mais numa bolha da realidade imaginaria
O que nao é golpe para vcs? Desobedecer a constituicao e tirar o Lula da cadeia?

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maria cristina fernandes santos

19 de outubro de 2018 às 07h33

Pois é. Fácil de falar, para quem não está na pele de quem está tentando evitar a quase certa primeira ditadura militar eleita pelo voto livre. Mesmo os mais fieis esquerdistas esquecem que o que levou nosso País ao caos foi a ausência das instituições que deveriam ser os freios e contrapesos existentes em qq democracia. Gostaria de ver o que Ciro estaria fazendo no lugar de Haddad e estou farta de tanta cobrança em cima do PT, cujo candidato erra, a militância erra, a ex presidenta erra, todo mundo erra. E quase torcendo para o abominável ganhar, pq já está anunciado que se afastará a partir de 15 de janeiro, portanto sabemos que o presidente se chamará Mourão. Só espero que Lula possa sair da prisão ainda com vida. Será que depois do escândalo revelado pela folha deu pra entender com o que estamos lidando? Fala sério.

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    ari

    19 de outubro de 2018 às 11h24

    maria cristina fernandes santos, lamentávelmente é raro o dia em que não se vê um suposto aliado criticar o PT, inclusive Jaques Wagner ao dizer que o partido deveria ter saído com o Ciro. Esses senhores talvez não percebam a ferocidade desta campanha e que, apesar disto, o Haddad tem se saído muito bem. Que, neste momento, segurem suas críticas para os livros de memória que venham escrever. (Mino Carta apoiou o Ciro, o que realmente me surpreende)

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Rosangela Carneiro

19 de outubro de 2018 às 01h16

O PT de fato cometeu erros, principalmente na gestão Dilma, o que não justifica essa perseguição implacável desde 2014 promovido pela Globo e Judiciário. É frustrante assistir o Haddad ajustando programa de governo todos os dias para atender composições inclusive de golpistas. O PT perdeu a identidade e já não alcança o clamor popular, pensei que o PT poderia ser maior que o Lula. Vi que não é.

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Paulo

18 de outubro de 2018 às 22h54

Acredito que, se um hipotético Governo Bolsonaro fracassar (à la Collor ou equivalente), o que não é nada improvável, ao contrário (a menos que haja apoio político e ajuda econômica americana, em larga escala, para redirecionar o Brasil para a esfera do norte e tirá-lo dos laços com a China), os caminhos estarão abertos para a esquerda, em 2022. E é aí que mora o perigo…Bolsonaro vai ter que voltar ao caminho do militarismo nacionalista e estatizante, se quiser ter governabilidade – se é que um dia saiu realmente dele – e evitar a guinada bolivariana definitiva, no futuro, que selará o destino do Brasil, para sempre, como Nação independente e com projeto autônomo…

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