Paris Café: O que esperar da classe média para 2022?

Jair Bolsonaro e Sergio Moro (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Análise: o vigarista esférico pode ser reeleito?

Por Miguel do Rosário

05 de março de 2021 : 22h01

O físico suíço Fritz Zwicky, famoso não apenas por ter sido um dos primeiros cientistas a descobrir a existência da “matéria escura” (dark matter), um elemento invisível e misterioso que seria responsável por cerca de 85% de toda a matéria do universo, mas também por seu mau-humor não desprovido de graça, costumava chamar seus críticos de “espherical bastards”, que eu quero traduzir aqui para vigaristas esféricos.

A explicação de Zwicky é que eles seriam vigaristas independente do lado que alguém os olhasse.

O xingamento me parece perfeitamente adequado ao presidente Bolsonaro, porque, de fato, ele é um vigarista seja qual for o ângulo pelo qual se o considere.

Demorei um pouco para achar a palavra vigarista. Antes disso considerei usar “idiota”, mas logo me dei conta que o problema do presidente não é propriamente idiotia. Afinal, suas tramoias têm método. E indivíduos metódicos podem ser criminosos, psicopatas, delinquentes, mas nunca idiotas.

Explicada a expressão, vamos à pergunta do título. Ele pode ser reeleito?

Um artigo publicado hoje no Valor, assinado pelo editor de política do jornal, César Felício, considera que sim, Bolsonaro pode ser reeleito, embora não por seu desempenho no governo, já que a situação sócio-econômica não poderia ser mais desgraçada.

O trunfo de Bolsonaro, segundo o artigo, seria o fato de que a principal força de oposição, o lulopetismo, teria rejeição ainda maior do que a de Bolsonaro. Essa é a opinião de analistas de importantes institutos de pesquisa, como Antonio Lavareda, do Ipespe, Marcia Cavallari, do Ipec (ex-Ibope), e Maurício Moura, do Ideia Big Data.

“O antipetismo ainda é mais relevante que o antibolsonarismo. Se Lula estiver no segundo turno contra Bolsonaro, a eleição presidencial parece resolvida a favor do atual presidente”, afirma Antonio Lavareda, diretor científico do Ipespe.

A afirmação talvez seja exagerada. Os pendores liberais e conservadores dos analistas do mainstream são conhecidos. O antipetismo do qual eles tanto falam está entranhado neles mesmos. No entanto, essa é uma constatação que, curiosamente, acaba por confirmar em parte o que eles dizem, embora por uma razão diferente. Devemos acreditar que o antipetismo é uma força importante não apenas porque os pesquisadores o afirmam, mas porque identificamos que ela contamina a imparcialidade dos próprios pesquisadores!

De qualquer forma, as pesquisas começam a aparecer em abundância, e daqui até as eleições deveremos ter material com o qual trabalhar quase toda semana.

Nesta sexta-feira, por exemplo, foi divulgada uma nova pesquisa do Paraná Pesquisas, instituto que setores da esquerda jamais perdoaram por alguns “erros” (para ser delicado) cometidos em eleições anteriores.

Entretanto, como eu já escrevi em incontáveis ocasiões, não devemos acreditar em nenhuma pesquisa, e sobretudo não devemos olhá-las de maneira emocional. Elas oferecem sempre um pretexto para o debate político. Fingir que elas não existem, ou acreditar somente naquelas que trazem números que nos agradam, é uma postura muito equivocada. Se você acreditar numa pesquisa, então precisa olhar para todas. O critério mínimo é que seja registrada no TSE, o que, ao menos, oferece a seus responsáveis o risco de pagarem multas milionárias caso se prove que foram deliberadamente fraudadas.

Então vamos ao Paraná Pesquisas, divulgada hoje pela Veja (íntegra aqui).

Foram divulgados cinco cenários. Vamos usar analisar aqui três cenários. O número 1, com todo mundo: Moro, Haddad, Ciro, Huck, Doria e Boulos; o número 4, com Lula no lugar de Haddad; e o número 5, com Haddad, sem Huck e Doria. 

Os comentários vem depois dos gráficos. 

O cenário 1 é o mais completo, e que nos permite analisar a força dos principais candidatos individuais. 

Bolsonaro tem 32%, o que expressa com relativa precisão o percentual de brasileiros que, nas pesquisas de aprovação, dizem lhe apoiar e lhe dão notas ótimo e bom. 

Enquanto esse percentual não cair para ao menos uns 20%, o presidente continuará sendo um candidato muito perigoso e competitivo para as eleições de 2022.

Os adversários de Bolsonaro seguem todos empatados, em torno de 10%: Moro, Haddad, Ciro, Huck.

João Dória ainda não decolou, apesar de toda a projeção que ganhou durante a pandemia, em que apareceu nacionalmente em virtude dos embates com Bolsonaro e das notícias sobre a vacina contra a Covid-19. O tucano tem 5% nas pesquisas. 

Os números por segmento são apenas uma curiosidade sem grande valor estatístico, pois como o professor Jairo Nicolau ensina em seu último livro, as margens de erro dos dados estratificados são muito maiores do que as margens de erro dos totais. 

Mesmo assim, apenas para conversarmos (e talvez com vaga esperança de que eles podem conter alguma verdade), vamos comentar os números segmentados. Os principais pontos são:

  • Principal força de Bolsonaro está no Sul e Centro-Oeste, onde ele tem cerca de 35% dos votos. 
  • Esse perfil conservador do eleitor sulista contamina também o desempenho dos outros candidatos. Moro, por exemplo, que concorre com Bolsonaro junto ao mesmo público conservador, fica em segundo lugar na região Sul, com 13,7%, contra 8,8% de Haddad e 7,4% de Ciro. Huck tem 7,0%, Doria, 4,6%, e Amoedo 3,7% no Sul. 
  •  Os votos de candidatos da direita, somados, totalizam 64,5% do total dos votos no Sul. 
  • A nível nacional, considerando todas as regiões, os candidatos de direita (Bolsonaro, Moro, Huck, Doria e Amoedo) somam 59,5% dos votos. 
  • Os candidatos da esquerda (Haddad, Ciro e Boulos) somam 23,7%.  
  • Caso Ciro seja classificado como um candidato da direita, conforme querem alguns petistas, então este campo político teria, no total, 69,5% dos votos, e a esquerda (Haddad e Boulos somente), por sua vez, teria apenas 13,7% dos votos.  
  • Com muita generosidade, poderíamos classificar Huck (além de Ciro, naturalmente) como um candidato de esquerda, o que nos daria um placar ligeiramente menos desequilibrado: 51,5% para a direita, e 31,7% para a esquerda. 

Comentário: os números mostram que a conquista de votos de centro e mesmo de centro-direita é uma questão de sobrevivência para o campo progressista. Além disso, as tentativas de classificar Ciro como um candidato da direita são grotescas, porque, se fosse o caso, então a direita teria quase 70% dos votos totais, e teríamos uma situação absolutamente sem chances de vitória para a a esquerda.

***

Vamos ao cenário 4, com Lula ao invés de Haddad, uma situação que ajuda a jogar luz sobre o potencial máximo de votos de um candidato petista no primeiro turno, já que o poder de transferência de votos de Lula é um fato incontestável, como vimos em 2018. Os principais pontos desse cenário são:

  • Interessante notar que Bolsonaro não perde absolutamente nada com a presença de Lula. Ele tinha 31,9% no cenário 1, com Haddad, e tem agora 32,2%, com Lula.
  • Moro também mantém intacta sua performance diante de Lula: tinha 11,5% no cenário com Haddad, e tem 11,6% com Lula. 
  • O único que perde pontos com a entrada de Lula é Ciro, mas também não muita coisa. O pedetista tinha 10,0% no cenário com Haddad, e cai para 8,7% no cenário com Lula, queda de 1,3 pontos – o que é menor que a margem de erro. 
  • Este cenário não traz o nome de Luciano Huck, cujos votos, aparentemente, parecem ter ido, em sua maioria, para Lula. 
  • No cenário com Lula, a direita totaliza 52% dos votos, o que é uma conta parecida com a que tínhamos chegado no cenário 1, caso tivéssemos a generosidade de não considerar Huck como um candidato de direita. A esquerda, por sua vez, somaria 30,2% votos. 

  • O cenário 5 é o mais enxuto. Não temos Moro, nem Huck, nem Boulos.
  • O cenário indica que Bolsonaro, com 37,6%, herda a maior parte dos votos de Moro, ao passo que os votos de Huck parecem se diluir entre Haddad e Ciro, que ampliam sua pontuação para 14,3% e 13%, respectivamente.
  • Uma análise rápida dos números estratificados deste cenário traz algumas curiosidades: Ciro ultrapassa Haddad no Nordeste e entre eleitores com ensino superior. Reitero, esses dados são quase anedóticos, visto que as margens de erro dos números segmentados são muito elevadas. 
  • Os votos da direita (Bolsonaro, Doria, Amoedo e Mandetta) somam 51,1%, ao passo que os votos da esquerda, somados, chegam a 27,3%.
  • Caso Ciro seja classificado como direita, então este campo teria 64,1% dos votos, contra 14,3% para a esquerda. 

Conclusão: Reitere-se que, a luz dos números observados nas pesquisas, será uma questão de vida ou morte, para derrotar Bolsonaro, conquistar nacos do eleitorado conservador e de centro.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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17 comentários

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    James

    07 de março de 2021 às 11h59

    O Miguel bem que poderia analisar essa nova pesquisa também, não é mesmo?

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Tiago Silva

07 de março de 2021 às 09h09

O problema do Ciro Gomes e desse blog Cafezinho é que gastam muito tempo sobre análise de dados, mas depois escolhem as estratégias incorretas (inclusive alguns dados incorretos para justificar as suas incompetências estratégicas)…

Em 2018 o PT tinha uma estratégia em relação às Esquerdas, qual seja, foi aglutinar a maioria dos partidos para ter tempo de televisão (inclusive convencendo o PSB em detrimento da Mariela Arraes, coisa que o PDT fez o mesmo em 2020 com Túlio Gadelha), para depois propor uma chapa emergencial tendo em vista o eminente golpe do ex-Juiz Politiqueiro que foi corrupto também ao tirar o primeiro candidato das pesquisas 2018 utilizando de cargo público para buscar vantagem futura (isso sem falar dos factóides do mPF contra o PT que sistematicamente em todas as eleições recentes buscaram influenciar votos nas eleições). Daí, a proposta de chapa seria algo que a Argentina fez depois com Cristina Kitchner, ou seja, a chapa seria Lula com Ciro de você – porém com o golpe iminente, Ciro seria cabeça de chapa e Haddad vice… Mas a vaidade e falta de visão estratégica de Ciro não aceitou e em 2018 ficou correndo atrás do DEM e depois de um aeroporto pra ir pra Paris (hoje permanece como uma biruta de aeroporto e conduz os Cirulipasminions nessa falta de estratégia).

A direita não tem nenhum candidato confiável, mas tem o Capetão que politizou o povo e ainda é o melhor comunicador/enganador em mídias sociais do Brasil (a esquerda patina em terreno cada vez mais essencial)… Porém a direita tem candidatos por segmentos (que acabam minando a esquerda e ajudando o Capetão): Dória seria para Classe alta, Moro para a classe média radicalizada, Mandeta para indecisos, Amoedo para jovens, Huck pra a classe mais humilde.

A esquerda tem quem brigue com Huck e Capetão nas classes baixas que seria o Lula (Haddad ainda é fraco nesse segmento e não tem tanto engajamento emocional), Boulos briga pelo eleitorado jovem com alguém do Parido Novo (Novo PSDB), Dória briga pela classe alta sem adversário na esquerda, mas a classe alta está radicalizada assim como a classe média e está indo toda pra Sérgio Moro…. E Ciro? Equivocadamente promove um antipetismo que só diminui o PT nas classes baixas e favorece a propaganda diária em grupos de família do ZAP e ainda deixa terreno aberto para que Sérgio Moro cresça!!!

Daí, não é com antipetismo que Ciro alcança a classe média, principalmente no Sul… Mas com o anti-Morismo! Ao não buscar travar batalha com Moro (e colocar ele como membro de um SISTEMA Elitista no Brasil que favoreceu o Golpe e o Neo Fascismo), acaba sucubindo a ser um eterno candidato de apenas uma parcela da população no Nordeste e alguns jovens no Sudeste (que acertadamente estão vacinados contra o Neoliberalismo nefasto aplicado no Brasil).

Quando João Santana fala que a chapa Ciro e Lula é muito competitiva… É pq ele avalia o Lula com os votos dos mais humildes e de eleitorado petista histórico, com o Ciro buscando demonstrar que seria anti-Sistema ao desconstruir Sérgio Moro (pra classe média alta NeoFascista) e desconstruir o Capetão (pra classe média baixa) como membros do sistema.

Acorda Cafezinho!

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Luiz Alberto

07 de março de 2021 às 07h53

Tem uma pesquisa do IPEC que saiu no Brasil 247 que nos dá uma luz.

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James

06 de março de 2021 às 23h57

Segundo a mais nova pesquisa IPEC divulgada pelo ESTADÃO ( jornal de direita) o potencial de votos de Lula supera o de Bolsora. O Miguel bem que podia fazer uma análise dessa nova pesquisa também, não é mesmo?

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Felipe

06 de março de 2021 às 23h24

Miguel, sou leitor do seu blog a bastante tempo, mas tá ficando difícil navegar por aqui usando o celular. A quantidade de propaganda e pop-ups chega a ser irritante. Imagino que os anúncios são importantes pra manter o blog funcionando mas deve ter uma maneira que não atrapalhe tanto a navegação. Forte abraço e parabéns por manter esse espaço!

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dcruz

06 de março de 2021 às 16h23

Diz o ditado: o pior cego é o que não quer ver, mas o pior cego é aquele que vê. Com toda essa campanha terrível de ódio ao PT, tanto a óbvia da direita como a incompreensível das esquerdas o PT permanece incólume, diria, imbatível, talvez, com certo exagero, imortal mesmo. Outro partido teria sucumbido a tanta pressão. E continuam não enxergando esse palmo límpido diante de seu nariz. Acharam que o PT não sobreviveria ao massacre e ele sobreviveu e está aí, mais vivo do que nunca e…incomodando tanto a direita como a esquerda. Por que não se curvar diante de tantas evidências? É cegueira mesmo, ou burrice?O bozo talvez seja o único que mantém seu foco, ele sabe que o PT será sempre o inimigo a combater, por isso ele não perde o seu foco, por isso ele se mantém imutável nas pesquisas. Já pensaram nisso? Parem com isso, fora do PT não há solução. Ou então há solução sim, essa que vocês estão vivendo, e ao que tudo indica não querem mudar, são bozonázis desde criancinhas, desde que…o PT despareça da face da terra.

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    Miramar

    07 de março de 2021 às 02h33

    “O PT é a solução”.- Nesse caso, prefiro a hecatombe nuclear.

    Ah, e Lula e Bolsonaro são a mesma pessoa.

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    Vinicius

    07 de março de 2021 às 08h32

    Parabéns!

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Alan C

06 de março de 2021 às 14h10

Pode, basta ele ter a companhia do poste no segundo turno.

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Paulo César Cabelo

06 de março de 2021 às 14h09

Curioso o Miguel usar a pesquisa do Paraná pesquisa e não aquela última Datapoder aonde todos os candidatos , exceto Boulos , aparecem em empate técnico com Bolsonaro no segundo turno.
Escolhe a pesquisa a dedo pra tentar fazer terrorismo.
Bolsonaro vai perder essa eleição , a dúvida é pra quem , Dilma tinha larga vantagem pra vencer no primeiro turno a essa altura e teve uma eleição difícil , Bolsonaro está em empate técnico.

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Netho

06 de março de 2021 às 13h36

Se as eleições fossem hoje e repetisse o segundo turno de 2018, não há sombra de dúvida quanto à reeleição do Califado Miliciano.

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SANDRO

06 de março de 2021 às 06h51

O problema é que o Ciro Gomes vive estacionado, não consegue crescer nas pesquisas, mesmo quando, uma vez ou outra, tentando buscar os votos da direita, fica dando uma de Bolsonaro.

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    carlos

    07 de março de 2021 às 10h23

    Do jeito que as forças armadas do Brasil estão sucateadas, desorganizada, até as forças do Uruguai ganham de goleada, pena é que aqueles que falam em cheiro de pólvora não vão pra linha de frente, coitado dos recrutas!

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Paulo

05 de março de 2021 às 22h50

“Por outro lado, a mesma pesquisa revela que os esforços para trazer, para uma candidatura progressista, parcelas do eleitorado mais conservador, é uma questão de vida ou morte para derrotar Bolsonaro”.

Esqueçam! Bolsonaro, nesse cenário, só pode ser derrotado pela própria direita. E Moro é o nome, gostem ou não…O curioso é imaginar a esquerda diante de duas candidaturas de direita (Moro mais à centro-direita, convenhamos!)…Lula certamente iria para Paris, já que não pode mais ir pro Guarujá ou pra Atibaia…

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