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Colonos israelenses incendeiam vilas palestinas e avançam anexação na Cisjordânia

A nova ofensiva de colonos na Cisjordânia expõe a violência como método de ocupação e a impunidade como política. Pelo segundo dia consecutivo, colonos israelenses atacaram cidades e vilarejos palestinos na Cisjordânia ocupada, deixando feridos, destruindo propriedades e aprofundando um clima de terror que já se tornou rotina sob a ocupação. A nova escalada ocorre […]

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A nova ofensiva de colonos na Cisjordânia expõe a violência como método de ocupação e a impunidade como política.

Pelo segundo dia consecutivo, colonos israelenses atacaram cidades e vilarejos palestinos na Cisjordânia ocupada, deixando feridos, destruindo propriedades e aprofundando um clima de terror que já se tornou rotina sob a ocupação.

A nova escalada ocorre em meio ao avanço acelerado dos assentamentos ilegais e ao aprofundamento da política de anexação de terras palestinas pelo Estado de Israel.

Mais do que uma sequência de agressões, os ataques revelam a articulação entre violência de colonos, expansão territorial e cobertura política do aparato estatal israelense.

Segundo informações publicadas pela Al Jazeera, com base em relatos da agência palestina Wafa e do Crescente Vermelho Palestino, ao menos nove palestinos ficaram feridos nos ataques mais recentes. Um homem de 45 anos foi baleado no pé durante um confronto com colonos em Deir al-Hatab, a leste de Nablus.

Em outra frente, um palestino de 47 anos foi agredido por colonos na região de Jabal al-Arma, em Beita. Outras pessoas também foram espancadas, reforçando o padrão de violência coletiva que acompanha a expansão colonial israelense na Cisjordânia.

Na noite anterior, os ataques já haviam atingido pelo menos seis comunidades palestinas. Entre elas estavam Silat ad-Dhahr e al-Fandaqumiya, próximas de Jenin, além de Jalud, Salfit, Masafer Yatta e áreas do Vale do Jordão.

Casas e carros foram incendiados, propriedades foram depredadas e moradores sofreram agressões com spray de pimenta. Pelo menos cinco pessoas ficaram feridas nessa primeira onda de ataques, ocorrida justamente durante o Eid al-Fitr, celebração que marca o fim do Ramadã.

O ponto central, porém, não está apenas na soma dos episódios, mas no seu significado político. A violência dos colonos não pode ser tratada como descontrole pontual de grupos extremistas ou como simples desvio de conduta em meio ao conflito.

Ela se encaixa em uma engrenagem mais ampla de ocupação, expulsão e apropriação territorial apoiada pelo Estado israelense. Em outras palavras, trata-se de uma violência funcional a um projeto político que altera o território pela força e pela intimidação cotidiana.

A justificativa imediata apresentada por colonos e autoridades israelenses surgiu após o funeral de Yehuda Sherman, de 18 anos, morto em uma colisão com um veículo palestino ao norte das aldeias atacadas. A polícia israelense afirmou investigar a alegação de que o episódio teria sido deliberado.

A resposta dos colonos, no entanto, foi a punição coletiva de comunidades inteiras. Esse tipo de represália, recorrente na Cisjordânia, mostra como se naturalizou uma lógica colonial em que palestinos são tratados como população sem direitos, permanentemente exposta à vingança armada de grupos protegidos pela ocupação.

Enquanto isso, o governo israelense segue ampliando os mecanismos formais de tomada de terras. No mês passado, o gabinete de segurança de Israel aprovou medidas impulsionadas pelo ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, e pelo ministro da Defesa, Israel Katz, para declarar grandes áreas da Cisjordânia como propriedade do Estado quando palestinos não conseguirem comprovar titularidade.

Na prática, a medida abre caminho para uma anexação de fato. A presidência palestina classificou a decisão como uma escalada gravíssima e uma violação flagrante do direito internacional.

A linguagem diplomática, porém, já não dá conta do que acontece no terreno. O que se vê é a combinação entre colonização oficial, violência paramilitar de colonos e proteção militar do Estado israelense, formando um mecanismo contínuo de expulsão e controle.

Segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, 25 palestinos já foram mortos neste ano por colonos e soldados israelenses. O dado ajuda a desmontar a narrativa de que a violência seria apenas resultado de confrontos esporádicos ou explosões isoladas de tensão.

Há uma política em curso, e ela busca alterar de forma irreversível a geografia e a demografia da Palestina ocupada. Quando aldeias são atacadas em série, propriedades são destruídas e famílias são aterrorizadas, o objetivo não é apenas punir, mas tornar a permanência palestina cada vez mais precária.

A Anistia Internacional foi direta ao afirmar que a expansão dos assentamentos ilegais e a violência de colonos apoiada pelo Estado constituem uma acusação contundente contra o fracasso catastrófico da comunidade internacional em agir. A formulação é dura porque a realidade também é.

Durante décadas, potências ocidentais condenaram formalmente os assentamentos enquanto mantinham apoio político, militar e diplomático a Israel. O resultado dessa duplicidade é o cenário atual, em que a ocupação se aprofunda, a impunidade se consolida e a pressão internacional permanece insuficiente para interromper os fatos consumados.

Em 2024, a Corte Internacional de Justiça decidiu que a presença continuada de Israel no território palestino ocupado é ilegal e deve terminar o mais rapidamente possível. A corte apontou um conjunto amplo de violações, entre elas a expansão dos assentamentos na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, a exploração de recursos naturais, a anexação de terras e a imposição de políticas discriminatórias contra os palestinos.

Ainda assim, a decisão não foi acompanhada de medidas coercitivas por parte das grandes potências. Esse é o centro do problema, porque o direito internacional existe, mas sua aplicação continua subordinada à correlação de forças global.

Quando o agressor é aliado estratégico dos Estados Unidos, a punição raramente chega. Esse padrão de seletividade corrói a credibilidade das instituições multilaterais e reforça, especialmente no Sul Global, a percepção de que a chamada ordem baseada em regras vale apenas contra adversários do Ocidente.

Para o Brasil, a crise na Palestina não é um tema distante nem abstrato. Ela toca diretamente a defesa histórica do país pelo multilateralismo, pelo respeito à soberania dos povos e pela solução de dois Estados com base nas fronteiras internacionalmente reconhecidas.

Também desafia a diplomacia brasileira a sustentar com clareza a denúncia do apartheid e da ocupação ilegal. Em um mundo cada vez mais multipolar, o silêncio diante da Palestina se converte em cumplicidade com a erosão do próprio direito internacional.

A nova onda de ataques na Cisjordânia mostra que a violência dos colonos não é periférica ao projeto israelense. Ela é parte central de uma estratégia de conquista territorial que combina força bruta, cobertura institucional e indiferença internacional.

Quando casas são queimadas, carros são destruídos e famílias inteiras são aterrorizadas em série, não se está diante de um excesso. Está-se diante de um método, e esse método avança justamente quando a atenção mundial se dispersa para outras frentes de conflito, como a escalada militar envolvendo Israel, Estados Unidos e Irã.

A fragmentação do noticiário acaba funcionando como oportunidade para acelerar fatos consumados no terreno palestino. É por isso que a notícia importa não apenas pelo sofrimento imediato das vítimas, mas porque revela, com nitidez brutal, a mecânica da ocupação em pleno funcionamento.

A Palestina segue sendo o teste decisivo da coerência moral e política do sistema internacional. Até aqui, esse sistema tem falhado de forma escandalosa.

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