Ao falar na língua do adversário, Teerã transforma propaganda em contra-ataque político.
O Irã decidiu responder a Donald Trump com a arma que ele próprio ajudou a popularizar: a performance.
Em um vídeo dirigido aos “inimigos” do país, um porta-voz da sede central Khatam Al Anbiya, ligada ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, adotou o tom, os bordões e a agressividade verbal associados ao presidente norte-americano.
O desfecho da peça é calculado para circular no mundo inteiro: “You’re fired!”, a frase que Trump transformou em marca pessoal.
Não se trata apenas de sátira política, nem de um episódio folclórico para consumo interno. O vídeo marca uma inflexão na guerra de narrativas que acompanha o conflito entre Washington e Teerã.
Durante décadas, as potências ocidentais, com os Estados Unidos à frente, dominaram os grandes canais de comunicação global. Foi esse poder que ajudou a fixar a imagem do Irã como “Estado pária”, quase sempre sem espaço equivalente para que o país apresentasse sua própria versão dos fatos.
Agora, Teerã mostra que aprendeu a disputar esse terreno com as ferramentas do próprio adversário. Em vez de falar apenas para sua base, fala também para uma audiência internacional treinada pela cultura pop norte-americana.
A operação é simples, mas politicamente sofisticada. Ao imitar o estilo de Trump, o Irã reduz a distância entre sua mensagem e o público global que reconhece imediatamente aquele código.
Com isso, obtém pelo menos três efeitos. Desmonta parte da aura de invencibilidade retórica de Washington, contorna os filtros da mídia tradicional e reforça internamente a imagem de uma liderança que não recua diante do principal rival.
O contexto torna o gesto ainda mais relevante. A administração Trump adotou uma política de pressão máxima contra a República Islâmica, combinando sanções econômicas duríssimas com ações militares e de inteligência que elevaram o confronto a um patamar extremo.
Nesse ambiente, o assassinato do general Qassem Soleimani se tornou um marco da escalada. A estratégia norte-americana buscava estrangular economicamente o país e aumentar o custo político da resistência iraniana.
A resposta de Teerã, até aqui, foi marcada por cálculo e paciência. O ataque a bases norte-americanas no Iraque, descrito no rascunho como simbólico e calibrado para evitar baixas, funcionou como recado político e militar.
Em outra frente, o avanço do programa nuclear civil apareceu como resposta ao abandono, por parte de Trump, do acordo nuclear conhecido internacionalmente como Plano de Ação Conjunto Global. Agora, a esse repertório se soma com mais clareza a guerra psicológica e comunicacional.
É por isso que o vídeo não deve ser lido como mera provocação. O porta-voz iraniano sinaliza que Teerã compreende o funcionamento do trumpismo talvez melhor do que muitos aliados formais de Washington.
Trump construiu parte de sua força pública na simplificação brutal da linguagem, no espetáculo e na humilhação performática do adversário. Quando o Irã devolve esse registro em forma de espelho, expõe também a vulgarização da diplomacia promovida pela Casa Branca.
A mensagem é dupla. Para fora, comunica resiliência; para dentro, produz coesão e confiança.
Há ainda um dado central nessa escolha estética. Ao usar uma linguagem reconhecível para o público dos Estados Unidos, o Irã tenta falar por cima da intermediação hostil da grande mídia ocidental.
Esse movimento importa porque a disputa contemporânea não se trava apenas com armas, sanções e tratados. Ela também depende da capacidade de moldar percepções, construir legitimidade e disputar o sentido moral dos acontecimentos.
Para o Sul Global, a lição é evidente. Soberania, no século vinte e um, também é capacidade de narrar a própria experiência sem aceitar passivamente a moldura imposta pelo centro do sistema.
Outros atores já entenderam isso há mais tempo. A China desenvolveu uma poderosa estrutura de comunicação estatal e internacional, enquanto a Rússia também investiu em canais voltados à disputa de opinião pública em escala global.
O caso iraniano chama atenção porque ocorre sob cerco intenso. Mesmo submetido a sanções e isolamento político promovidos por Washington, o país demonstra criatividade para intervir no debate internacional com poucos recursos e alto impacto simbólico.
A reação do establishment político e midiático dos Estados Unidos tende a seguir um roteiro previsível. O vídeo provavelmente será tratado com desdém, como teatro de um regime acuado ou peça de propaganda sem relevância real.
Esse tipo de leitura, porém, perde o essencial. Em um ambiente hiperconectado, gestos simbólicos bem executados podem viajar mais rápido do que comunicados oficiais e atingir públicos que já não confiam automaticamente na narrativa ocidental.
Milhões de pessoas, cansadas da retórica unilateral da guerra ao terror e das sanções apresentadas como instrumento moral, podem enxergar no vídeo um ato de resistência cultural. E esse deslocamento de percepção, ainda que limitado, já é uma vitória política.
O “You’re fired!” dirigido a Trump vale, assim, como mais do que uma piada. Funciona como espelho de uma política externa transformada em reality show, em que ameaças, punições e humilhações públicas substituem qualquer pretensão séria de diplomacia.
Ao devolver essa imagem caricata ao presidente norte-americano, Teerã lança uma pergunta incômoda. Quem está agindo como estadista, e quem está agindo como apresentador de televisão?
É claro que a disputa entre Estados Unidos e Irã não será decidida por um vídeo. O desfecho depende de resistência econômica, unidade nacional, correlação militar e apoio de parceiros estratégicos como China e Rússia.
Mas a batalha das ideias é parte constitutiva desse conflito. Legitimidade internacional, moral pública e capacidade de comunicação influenciam alianças, isolamentos e até a disposição dos povos para suportar custos prolongados.
Nesse terreno, o Irã acertou em cheio. Usou a linguagem do inimigo, gastou pouco, gerou repercussão e mostrou que não está condenado ao papel passivo que Washington tenta lhe impor.
Enquanto Trump buscava isolar Teerã, o vídeo sugere outra realidade. O país continua conectado ao imaginário global, conhece a cultura política do adversário e sabe mobilizá-la para expor a hipocrisia de quem se apresenta como defensor da liberdade enquanto impõe fome e asfixia econômica a nações soberanas.
Há, portanto, um alerta embutido no episódio. O antigo monopólio ocidental do chamado soft power já não é monopólio.
No mundo multipolar em formação, contar uma história de modo inteligente, reconhecível e ousado pode ser tão importante quanto exibir força militar. A próxima batalha decisiva talvez não comece no campo de guerra, mas na tela do celular.
A leitura da Al Jazeera, citada no rascunho, ajuda a captar justamente essa dimensão simbólica do episódio. Também é significativo que o destaque venha de uma voz midiática fora do eixo tradicional que costuma apenas ecoar os enquadramentos de Washington.
No fim, a mensagem iraniana é de resiliência política e comunicacional. Podemos ser sancionados, difamados e cercados, sugere Teerã, mas não seremos silenciados.
E há um detalhe final que torna a cena ainda mais eficaz. Ao devolver a Trump sua frase mais famosa, o Irã não apenas responde; ele redefine quem, naquele instante, parece estar no controle do palco.


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