A saída de Ratinho Júnior enfraquece a aposta centrista do partido e pode ampliar a fragmentação conservadora em 2026.
A desistência de Ratinho Júnior de disputar a Presidência reorganiza a direita e empurra Ronaldo Caiado para o centro do jogo no partido de Gilberto Kassab.
A troca não muda apenas o nome do possível candidato, mas o perfil inteiro da operação montada para 2026.
Para Lula, o movimento pode ter um efeito imediato e valioso: aumentar a divisão no campo conservador antes mesmo de a campanha começar.
Segundo informação publicada pela Folha de S.Paulo, Ratinho Júnior comunicou a Kassab que não disputará a Presidência e também descartou concorrer ao Senado. A decisão veio depois de dias de incerteza, pressão familiar e frustração com um desempenho nas pesquisas abaixo do esperado por seu grupo.
Até aqui, o governador do Paraná era visto como o nome mais competitivo do partido para uma aventura nacional. Mesmo sem grande empolgação política, ele oferecia um ativo importante: desempenho menos ruim que os demais concorrentes do partido nos cenários testados contra Lula.
No Datafolha mais recente citado pela reportagem, Ratinho Júnior aparecia com 41% em um eventual segundo turno contra Lula, que marcava 46%. Caiado ficava em 36% diante dos mesmos 46% do presidente, enquanto Eduardo Leite registrava 34%.
No primeiro turno, Ratinho Júnior também levava vantagem entre os nomes do partido. Tinha 7%, contra 4% de Caiado e 3% de Leite, ainda muito atrás de Lula e de Flávio Bolsonaro.
Esses números ajudam a explicar por que Kassab via o paranaense como a melhor tentativa de ocupar o espaço centrista comprimido entre o lulismo e o bolsonarismo. Não era uma candidatura forte, mas parecia menos presa a um nicho ideológico e mais capaz de circular fora da bolha tradicional da direita.
Com Caiado, esse desenho muda de forma sensível. O governador de Goiás é um nome identificado com a direita tradicional, fortemente enraizado no agronegócio e com trânsito maior entre eleitores conservadores do Centro-Oeste e entre setores bolsonaristas.
Aí aparece, ao mesmo tempo, um problema e uma oportunidade. O problema é que Caiado entra numa faixa de eleitorado já disputada pelo bolsonarismo, o que dificulta sua diferenciação e reduz sua margem para crescer sem confronto direto com o clã Bolsonaro.
A oportunidade, do ponto de vista do governo Lula, é evidente. Se Caiado avançar tirando votos de Flávio Bolsonaro ou de qualquer outro nome que represente o bolsonarismo, a direita pode chegar mais fragmentada ao primeiro turno, com menos capacidade de unificação e menos força para impor uma candidatura hegemônica.
Em política, a divisão do adversário costuma valer mais do que discursos inflamados. É justamente por isso que a movimentação do partido de Kassab ganha importância estratégica no tabuleiro de 2026.
Kassab tenta há meses construir uma candidatura própria sem romper pontes com o governo federal. Não por acaso, o partido ocupa ministérios e preserva uma relação pragmática com o Planalto, o que impõe limites claros a qualquer projeto presidencial mais agressivo.
Esse ponto é central para entender a dificuldade de encaixar Caiado nessa estratégia. O governador goiano tem um histórico mais duro contra o Partido dos Trabalhadores e uma trajetória muito mais marcada pelo antipetismo do que a linha de moderação administrativa que Kassab tenta vender ao mercado político.
Se a candidatura avançar, o choque entre estilo e conveniência será inevitável. Kassab não parece interessado numa campanha de confronto total com Lula, mas Caiado também não é um nome fácil de adaptar a uma candidatura morna, tecnocrática e sem ataques mais duros ao governo.
Há ainda uma contradição adicional que pesa sobre o projeto. Caiado precisaria se diferenciar do bolsonarismo sem romper completamente com ele, o que exige uma operação política delicada e cheia de riscos.
Essa conta está longe de ser simples. O governador apoiou Jair Bolsonaro no segundo turno de 2018 e, mesmo depois do afastamento tático entre ambos, continuou orbitando espaços ligados à direita radical, inclusive em agendas de anistia ao ex-presidente.
Em outras palavras, sua candidatura teria de convencer o eleitor conservador de que ele é mais viável do que o herdeiro do bolsonarismo sem parecer um traidor do campo. É um equilíbrio difícil, porque qualquer movimento mais brusco pode afastar tanto o eleitor radical quanto o eleitor moderado.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, já enxerga o risco dessa disputa. A simples possibilidade de uma terceira via à direita obriga o senador a endurecer o discurso e a antecipar uma guerra por hegemonia dentro do campo conservador.
Para Lula, o cenário pode ser favorável sem exigir qualquer euforia precipitada. O presidente segue liderando os cenários citados e, mais importante, continua se beneficiando da dificuldade da oposição em unificar candidatura, discurso e base social.
A direita brasileira ainda não resolveu seu impasse central. Quer preservar a energia mobilizadora do bolsonarismo, mas sem carregar por inteiro o peso da rejeição acumulada por Jair Bolsonaro depois de anos de radicalização, desmonte institucional e crise social.
Caiado pode tentar ocupar esse espaço, mas leva para a disputa limitações evidentes. Sua imagem é fortemente regionalizada e associada a interesses específicos do agronegócio, o que reduz sua capacidade de dialogar com o eleitorado popular urbano do Sudeste e do Nordeste.
Eduardo Leite, que vinha apresentando um discurso mais organizado de pré-campanha, perde terreno com a saída de Ratinho Júnior e com a ascensão de Caiado na preferência interna do partido. Seu futuro agora parece mais ligado a uma disputa ao Senado ou, no máximo, a uma composição como vice.
Outro nome que pode embaralhar esse jogo é Romeu Zema. Fora do governo de Minas, ele ronda a disputa presidencial e aparece como figura com alguma musculatura no campo liberal conservador, ainda que sem definição clara de rota.
Há rumores de que Zema poderia compor com Flávio Bolsonaro, mas a situação mineira também abre outra porta. Seu sucessor no governo estadual é Mateus Simões, ligado ao partido de Kassab, o que pode facilitar entendimentos e ampliar as possibilidades de costura.
Esse tipo de articulação mostra que a eleição ainda está longe de estar definida. Mas também revela algo importante: centro e direita continuam presos a negociações de cúpula, pesquisas preliminares e arranjos partidários, enquanto Lula mantém a vantagem de já ser um polo político consolidado, com base social, máquina governamental e agenda concreta.
Isso não significa ausência de desafios para o governo. Significa apenas que, do outro lado, a alternativa segue difusa, instável e dependente de acomodações que ainda não produziram um nome capaz de unificar o campo conservador.
A saída de Ratinho Júnior reforça esse diagnóstico com clareza. O nome que parecia mais palatável para uma candidatura menos ideológica preferiu deixar o jogo, e no lugar surge um presidenciável mais marcado, mais polarizado e, por isso mesmo, potencialmente mais útil para dividir a direita do que para unificá-la.
Para o partido de Kassab, trata-se de uma troca de perfil com consequências estratégicas. Para Lula, pode ser uma mudança com efeito prático no xadrez eleitoral, e em disputa nacional esse tipo de deslocamento costuma pesar mais do que parece à primeira vista.


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