A escalada da guerra no Irã desencadeou uma crise econômica mundial, com impacto devastador sobre os países mais pobres e reflexos até nos Estados Unidos. O déficit de suprimentos de petróleo do golfo Pérsico atingiu cerca de 1 bilhão de barris, segundo dados da Agência Internacional de Energia, gerando um rombo compensado pela redução acelerada das reservas estratégicas globais.
Karthik Sankaran, pesquisador de geoeconomia do Instituto Quincy, detalhou em artigo para o portal Responsible Statecraft que o cenário é mais grave do que as narrativas oficiais admitem. As reservas globais encolheram 250 milhões de barris, e o diretor da AIE alertou que o ritmo atual de queima de estoques é insustentável.
O preço do barril de petróleo Brent recuou para 91 dólares após notícias de possível acordo diplomático, mas ainda supera os 60 dólares registrados no início do ano. A disparada dos preços de combustíveis, produtos petroquímicos e fertilizantes castiga as camadas mais pobres das nações em desenvolvimento, onde o custo do transporte de alimentos e água duplicou ou triplicou em países como a Somália.
As consequências sociais são alarmantes. No Quênia, protestos contra o aumento dos preços dos combustíveis resultaram em quatro mortes, enquanto o Programa Mundial de Alimentos projeta que 45 milhões de pessoas podem ser empurradas para a fome aguda se a tendência persistir.
A pressão sobre as economias em desenvolvimento vai além do encarecimento dos alimentos. O aumento do déficit comercial, a inflação acelerada, a desvalorização das moedas nacionais e a redução das reservas internacionais formam um coquetel perigoso que já obriga vários países a vender ouro e divisas para se manter.
As perdas de reservas cambiais são expressivas: as Filipinas perderam 8,1%, a Índia registrou redução de 5,1% e a Indonésia contabilizou encolhimento de 3,8%. Enquanto a Europa obtém apenas 7% de seu petróleo do golfo Pérsico, a Ásia depende da região para cerca de 60% de seu suprimento, colocando-a na linha de frente da crise.
O titular de Economia e Produtividade da Comissão Europeia alertou que o bloco enfrentará um choque estanflacionário, combinando inflação alta com estagnação econômica. Embora a União Europeia e o Reino Unido possam bancar subsídios fiscais para aliviar as empresas afetadas, essa capacidade dos países ricos força as nações mais pobres a reduzir sua demanda de petróleo para ajustar as contas.
A América Latina mostra resiliência diante da turbulência global, pois Argentina, Brasil, Colômbia e Equador são exportadores líquidos de energia. O México, apesar de pequeno déficit no setor, compra a maior parte de seu gás diretamente dos Estados Unidos, enquanto o Chile aparece como a principal exceção vulnerável da região.
Mesmo com essa posição energética mais confortável, a região não está imune à crise. A forte dependência da exportação de produtos agrícolas a torna vulnerável à alta dos preços dos fertilizantes e à inflação importada, o que pode forçar os bancos centrais a subir as taxas de juros e frear o crescimento.
Nos Estados Unidos, a administração Trump minimiza o impacto da guerra sobre a população, apostando no aumento da produção interna de petróleo e na redução da dependência de importações. Estudos da Reserva Federal de Nova York revelam, porém, que as famílias de menor renda são mais atingidas do que o governo admite, obrigando-as a modificar rotas e cortar deslocamentos para evitar gastos excessivos com combustível.
O setor agrícola americano sofre um golpe duplo com a disparada dos preços dos fertilizantes e do diesel, insumos essenciais para a produção de alimentos. Relatório da American Farm Bureau mostra que 70% dos agricultores do país afirmam não conseguir arcar com todos os fertilizantes necessários, o que ameaça reduzir os rendimentos das colheitas e elevar os preços dos alimentos no mercado interno.
Esse encarecimento dos alimentos nos EUA terá efeito cascata global, especialmente cruel sobre os pequenos agricultores do Sul Global, que dependem de insumos importados e competem em condições desiguais. Sankaran observa que, embora o mercado de ações americano se mantenha estável graças ao desempenho das empresas de inteligência artificial e semicondutores, os mercados de bônus globais emitem sinais preocupantes.
O aumento das pressões inflacionárias e dos custos orçamentários provocou alta significativa nos rendimentos dos bônus ao redor do mundo. Com a inflação anual nos EUA saltando 3,8% em um mês, o rendimento dos bônus do Tesouro americano de 30 anos atingiu o patamar mais elevado em três décadas.
Esse movimento nos juros de longo prazo beneficia quem possui títulos recém-emitidos, mas castiga quem busca comprar ou refinanciar uma casa, já que as taxas hipotecárias sobem em sincronia com os rendimentos dos bônus públicos. A conclusão do analista é clara: mesmo nos Estados Unidos, onde os efeitos são menos severos, a maioria da população perderá com as consequências econômicas desta guerra.
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