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A degradação do jornalismo

Por Redação

06 de setembro de 2016 : 16h35

Foto: Reprodução/ Folha

por Sylvia Debossan Moretzsohn, Professora de jornalismo da UFF e pesquisadora do objETHOS

O jornalismo é uma profissão identificada à defesa das mais nobres causas: as da verdade, justiça e liberdade. Liberdade, essa palavra – como diz o célebre poema – que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.

Por isso jornalistas costumam ser vistos positivamente, como se incorporassem esses ideais e atuassem de acordo com eles.

Não é bem assim. Jornalistas são iguais a toda a gente. Há os que prezam esses valores, há mesmo os que se sacrificam por eles. Há os que tentam se equilibrar no fio da navalha. Há os que sucumbem e se submetem. E há os que fazem pior, jogando deliberadamente às favas os escrúpulos de consciência.

Esses, dependendo do cargo que ocupam, podem produzir reportagens distorcidas, esconder-se nos editoriais – é “o jornal” que fala, como se fossem escritos por uma mão invisível –, ou assumir abertamente a corrosão do seu caráter, em notas assinadas ou artigos de opinião.

No dia 2/9, O Globo noticiou em destaque em seu site uma nota do blog de Lauro Jardim que informava o endereço onde Dilma Rousseff vai morar no Rio. Não mencionava apenas o bairro ou a rua: dava número e foto do prédio. Serviço completo para os trogloditas que não pouparam ofensas à ex-presidente nas manifestações pelo impeachment. Note-se: é o endereço da mãe de Dilma, uma senhora idosa, na faixa dos 90 anos. “Faltam-me palavrões”, indignou-se a professora Giovanna Dealtry, da UERJ, em seu Facebook. A revolta nas redes sociais levou muita gente a pedir e compartilhar o endereço do jornalista, também com foto e tudo, como forma de retaliação.

Assim, um profissional que deveria respeitar as melhores práticas vai contribuindo para cultivar aquilo que o famoso deputado detonador do “Mensalão” chamou de “instintos mais primitivos”.

O ódio à esquerda

Foram esses mesmos instintos que levaram tantas pessoas a exultar, nas redes e nos espaços de comentários dos sites jornalísticos, com a foto da jovem de rosto ensanguentado, que perdeu a visão do olho esquerdo na manifestação do dia 31/8, em São Paulo. Em 2/9, o colunista Reinaldo Azevedo escreveu, na Veja: “Se Débora estivesse cega dos dois olhos, seria ainda mais útil às esquerdas”. Era um primor de cinismo: ele falava alegadamente em defesa da estudante e de seus colegas e professores, para que se libertassem “das minorias que escravizam”. E responsabilizava o discurso de despedida de Dilma pelo ocorrido.

O mesmo discurso foi utilizado pelo secretário de redação da Folha de S.Paulo, Vinícius Mota, em artigo com chamada de primeira página na edição de 5/9, dia seguinte à grande manifestação contra Temer na Av. Paulista. Foi um ato pacífico, mas a ação da polícia – gratuita, segundo inúmeros relatos que circularam nas redes sociais – produziu ao final as cenas exploradas pelo noticiário: a correria pelas ruas, o espetáculo das bombas de gás que penetraram numa estação do metrô e provocaram pânico e ferimentos em várias pessoas, inclusive crianças. Num texto genérico, sem relação com a manifestação e pleno de surrados clichês anticomunistas, o jornalista fez carga contra a suposta índole violenta da esquerda. Atacou a “elite vermelha” e seu “comitê central” tentacular e manipulador das “tropas de assalto” nas ruas – simbolizadas, entretanto, na figura isolada de um rapaz que atirava uma cadeira contra a fachada envidraçada de um banco – e concluiu: “Dilma Rousseff pronuncia a fatwa e vai morar em Ipanema”.

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Foto: Reprodução/ Folha

O estímulo à violência policial já fora dado em 2/9, no editorial em que a Folha protestava contra a ação de black blocs nas manifestações dos dias anteriores: “O que pretendem tais pescadores de águas turvas? Quem financia e treina essas patrulhas fascistoides? Está mais do que na hora de as autoridades agirem de modo sistemático a fim de desbaratá-las e submeter os responsáveis ao rigor da lei”.

Parecia uma repetição do editorial de três anos atrás, que exortava o governo a “Retomar a Paulista” (13/6/2013), nas famosas manifestações daquele ano: “No que toca ao vandalismo, só há um meio de combatê-lo: a força da lei. Cumpre investigar, identificar e processar os responsáveis. Como em toda forma de criminalidade, aqui também a impunidade é o maior incentivo à reincidência”.

O “combate à impunidade” funciona sempre como uma espécie de senha para a repressão exacerbada. Como se recorda, naquela mesma noite a polícia baixou o sarrafo indiscriminadamente, atingindo inclusive jornalistas, alguns feridos gravemente por balas de borracha no rosto. Um deles, o fotógrafo Sérgio Andrade da Silva, ficou cego de um olho. Na Justiça, teve negado seu pedido de indenização: foi responsabilizado por não ter tido o cuidado de se proteger.

Defender a dignidade

Desta vez, a Folha foi um pouco além: o editorial “Fascistas à solta” comparou os protestos anti-Temer aos tempos da República de Weimar, que, débil na repressão aos “fanáticos da violência”, abriu espaço ao nazismo.

Dona Folha, tá difícil te defender”, contestou o escritor Gregório Duvivier, acusando o jornal de promover o clima de medo que contribui para os golpes de Estado. Concluiu assim:

“Um jornal é do tamanho dos inimigos dele. Quando a senhora pede maior repressão a adolescentes desarmados, se alinha com o mais forte e faz vista grossa pra truculência. Jornalismo, pra mim, era o contrário”.

Estava mesmo difícil de defender o jornal: o artigo saiu no mesmo dia em que o secretário de redação produziu seu elogio da polícia contra as “tropas” vermelhas. (Vinícius Mota, por sinal, conseguiu enxergar no projeto da “Escola sem Partido” valores “de extração iluminista”).

Nas redes sociais, a intervenção de Duvivier provocou reações contraditórias: muitos compartilharam seu texto com entusiasmo, enquanto outros deploravam a colaboração com uma empresa que poderia, assim, acenar com um discurso pluralista, ainda que falso.

Nos tempos da ditadura, compreendia-se o trabalho na grande imprensa como forma de resistência: aproveitar as famosas “brechas”, driblar a vigilância e a censura para levar ao público o que o governo pretendia deixar na sombra. Se, quase trinta anos depois da nova Constituição, ainda falamos em brechas, é sinal de que as coisas não mudaram tanto assim.

Testar os limites de um jornal pode continuar a ser válido, pois sempre haverá alguém que leia e pare para pensar, por mais que esse jornal venha perdendo leitores progressistas conquistados desde a época de seu apoio à campanha das Diretas: a guinada à direita, indicada pelo editorial da “ditabranda”, traz de volta à memória os tempos em que a Folha cedia suas caminhonetes para a Operação Bandeirantes, na década de 1970. Mas, diante das possibilidades abertas com a internet, talvez valesse mais a pena concentrar esforços em alternativas a uma imprensa que cada vez mais reduz os espaços de liberdade.

O que espanta, em todo caso, é a falta de reação coletiva dos jornalistas a esse estado de coisas.

A propósito da cobertura do ato na Paulista, o comentário de Xico Sá, que em 2014 deixou a Folha por não poder manifestar seu apoio à candidatura de Dilma em sua coluna, é muito significativo. Em seu Facebook, ele escreveu:

“Não ‘houve confusão e a polícia reagiu’, caros colegas jornalistas, a gente não pode narrar a vida assim nem que seja por um milhão de reais. Nossa profissão é digna, chama-se jornalismo e não pode ser resumida em uma mentira de três linhas pra enganar todo um país. Vamos contar a história como ela é e dizer com todas as letras o que está acontecendo”.

A profissão, sem dúvida, exige dignidade. Quantos colegas jornalistas, hoje, estão à altura dela?

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23 comentários

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Maurício

07 de setembro de 2016 às 19h52

É uma relação de sinergia. Estes “jornalistas” só sobrevivem graças aos neofacicoxinhas e os mesmos só conseguem formular ideia, graças a estes jornalistas. Então, dá no que dá.

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Maurício

07 de setembro de 2016 às 19h44

Dar um pequeno pedaço de papel e uma caneta para determinados indivíduos deveria ser considerado crime.

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carlos

07 de setembro de 2016 às 18h53

Essa imprensa safada, porca, traidora do Brasil merece todo o nosso repúdio! Nojo!!!!

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Leopoldo Pereira

07 de setembro de 2016 às 17h36

Sabem onde a Dilma vai morar, mas não sabem onde mora a mulher do Cunha.

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Neo Tupi

07 de setembro de 2016 às 17h23

Jornalista que mente dessa forma é corrupto. Não recebe salário, recebe propina do patrão também corrupto para adulterar a informação a contento do “cliente” (o governo corrupto que o patrão atende e poder econômico que manda na linha editorial).

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    Jadir Rocha

    07 de setembro de 2016 às 18h59

    Os picaretas: Reinaldo Azevedo, Vinícius Mota e Lauro Jardim, são paus mandados dos meios de comunicação onde trabalham. São seres quase irracionais.

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Rachel

07 de setembro de 2016 às 17h13

Bocas alugadas e, provavelmente por pouco.

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Mário Gonçalves

07 de setembro de 2016 às 16h15

Só tem um nome para isso: lixo.
Mas a comparação é uma ofensa aos garis.
São uns porquinhos do jornalismo estas criaturas: Lauro Jardim, Felipe de Oliveira, Marina Dias e outros piguentos.

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Atineli

07 de setembro de 2016 às 09h46

A midia hegemônica brasileira é uma putaria, ninguém com responsabilidade consegue ler ou acreditar em suas falácias abjetas.

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Jáder Barroso Neto

07 de setembro de 2016 às 03h50

Não é só degradação do jornalismo com fatos narrados. Há evidências de reportagens acompanhando farsas encenadas, o que é cumplicidade em cometimento de crimes.
A PM paulista prendeu 27 manifestantes ANTES da manifestação de domingo, 04/07. O Governador de SP justificou a brutalidade policial e prisões abusivas por ocorrência de “depredações”.
Houve em manifestação na quarta-feira, 31/08. A Globo News acompanhou prolongado ataque a 1 agência e a 1 VIATURA abandonada da PM, que ficou ausente da região por vários minutos.
Na sexta, 02/09, o G1 informou que 1 presidiário foragido “foi reconhecido por usar um turbante branco” nesse vandalismo: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2016/09/suspeito-de-depredar-viatura-da-policia-em-protesto-em-sp-e-preso.html
Como acreditar? A cabeça encoberta é reconhecida pelo disfarce?

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Sérgio Rodrigues

07 de setembro de 2016 às 00h06

“Os capitalistas chamam liberdade a dos ricos de enriquecer e a dos operários para morrer de fome. Os capitalistas chamam liberdade de imprensa a compra dela pelos ricos, servindo-se da riqueza para fabricar e falsificar a opinião pública.” Lênin….Aqui eles têm seus sabujos!…

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    Osmar Gonçalves Pereira

    07 de setembro de 2016 às 10h43

    (..)não podíamos encarar a liberdade de imprensa do ponto de vista dos proprietários dos grandes jornais.” Wladimir…

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Antonio Passos

06 de setembro de 2016 às 22h45

Abriram as portas do inferno e mandaram tudo pro Brasil. Haja paredón.

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Sônia

06 de setembro de 2016 às 20h30

Os fascista e golpistas queriam que a presidenta eleita por cinquenta e quatro milhões oitocentos e tantos votos fosse morar embaixo da ponte. HIPÓCRITAS, HIPÓCRITAS, HIPÓCRITAS tantas vezes à série infinita dos números.

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puts

06 de setembro de 2016 às 21h04

bolsonaro presidente 2018

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Luiz Antonio

06 de setembro de 2016 às 19h15

O pior é a quantidade de zumbis descerebrados que concordam em 100% com o que esta imprensa publica, sustentam as mais grosseiras mentiras (vemos até comentários de midiótas aqui neste site) e operam as maldades em nome desta fé nefasta.
Temos uma geração de fascistas a serviço da classe dominante.
O pior é que nem saboreiam o benefício de pertencer a esta oligarquia.
Passam o dia defendendo os canalhas que, apesar de terem seus nomes apontados em todas as delações, não são apresentados de forma escandalizada pelo William Bonner.
Odeiam o Lula, a Dilma e o PT e não sabem exatamente nem porquê.
Será que um dia vão acordar deste coma político ao qual foram induzidos pela Veja, Isto é, Globo, Folha, Estadão e tantas outras publicações doutrinárias do ódio à esquerda?
Será que um dia vão perceber o mal que fizeram à toda uma sociedade?
Será que um dia vão se arrepender?

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    Italo Rosa

    07 de setembro de 2016 às 15h05

    Não vão se arrepender. Estes zumbis se dividem entre os infensos a qualquer racionalidade e os carreiristas que sabem sempre de que lado o vento sopra, Tomam carona na onda da hora. Nenhum deles tem consciência moral, nem informações que lhes permitissem o exercício da reflexão. Esta não lhes interessa. Têm todas as certezas do preconceito, do ódio boçal (como o articulista apontou, não seriam capazes de indicar de onde vem seu ódio irracional à esquerda). Satisfazem-se em ser servidores pressurosos das classes dominantes. . São desprezíveis, uma escória moral de imbecis e ignorantes. como Conrad narra: O horror, o horror.

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      Luiz Antonio

      07 de setembro de 2016 às 21h27

      Pois é!

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cousinelizabeth

06 de setembro de 2016 às 18h23

A imprensa tradicional brasileira já morreu e está cheirando mal.

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maria nadiê rodrigues

06 de setembro de 2016 às 17h54

Não faltarão repórteres da Globo e demais piguentos na porta do prédio da mãe de Dilma. Se duvidar, vão questionar a compra desse imóvel, ou vão ver se a velhinha paga em dia o condomínio.

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Luiz Baptista

06 de setembro de 2016 às 17h48

Cada vez mais atual a frase de Joseph Pulitzer: “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”.
O jornalismo da grande mídia é criminoso em todos os seus aspectos e impune diante de seus atos bárbaros.
Calúnia esse é teu nome jornalismo brasileiro – válido para globo, veja, folha, estado e outras embalagens de peixe similares.

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    Daniel

    07 de setembro de 2016 às 02h23

    Bem, e’ a cara do mais caro sistema judiciario do planeta. Fazendo as contas hoje, um ministro do STF ganha por volta de 70 salarios minimos, na Australia, um ministro da Suprema corte ganha 7 salarios minimos. Nao ha justica, entao a midia e’ medieval.

    Responder

robertoAP

06 de setembro de 2016 às 17h13

Uma anta jornalista, ou então um jornalista anta. Existem ainda controvérsias sobre o termo correto

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