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A polarização é necessária, ensina Aldo Fornazieri

Por Miguel do Rosário

13 de março de 2017 : 14h13

(Na pintura, de Delacroix, vê-se um punhado de franceses lamentando a “polarização” da sociedade)

Viva a polarização, por Aldo Fornazieri

por Aldo Fornazieri, no Jornal GGN
ATUALIZADO EM 13/03/2017 – 08:23

Pessoas das mais variadas posições políticas, dos mais diferentes calibres intelectuais e das mais diversas posições sociais têm lamentado uma suposta excessiva polarização que estaria ocorrendo no Brasil. Leandro Karnal, após publicar a foto de seu famoso jantar com o juiz Moro e ver-se tolhido por críticas de muitos e ungido pelos elogios de outros, lamenta a polarização, mais uma vez. Na verdade. ou melhor dizendo, a verdade efetiva das coisas mostra que a crítica à polarização no Brasil, em todos os tempos, sempre esteve a serviço da dominação de elites predatórias e sempre se configurou como o exercício da hipocrisia nacional.
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A outra face da crítica à polarização é a ideia paradigmática de que o povo brasileiro “é ordeiro e pacífico”. As exigências de ordem e paz, de harmonia, nasceram no Brasil Colônia, atravessaram o Brasil Império e se instalaram no Brasil República. Em nome dessas ideias, dissidências foram massacradas, opositores foram exilados, críticos foram calados. Em nome dessas ideias, a violência explícita ou dissimulada das elites sempre procurou auferir a áurea de legitimidade, proclamando-se ação necessária para harmonizar os conflitos banindo da cena política e social os elementos “perturbadores”, os “indesejáveis”, os “subversivos”, os “desordeiros”, enfim, um rosário instrumental de adjetivações a serviço do mando violento e excludente.

A crítica à polarização e a falta do combate cívico virtuoso fizeram do Brasil o que ele é: um país sem presente e sem futuro; um país incapaz de dar-se uma comunidade de destino. Foi esta dupla dinâmica que fez com que alguém disse que, com a independência do Brasil, os portugueses não perderam uma colônia, mas ganharam um reino. Esta mesma dinâmica fez com que a proclamação da República fosse feita por um marechal monarquista, adoentado, posto sobre um cavalo para liderar uma marcha militar, fazendo com que a res publica nascesse sem povo, sem terra e sem o pronunciamento de um tumulto cívico que lhes desse uma origem efetivamente popular. A síntese perversa deste ato foi captada pelas famosas palavras de Aristides Lobo que afirmou que o povo assistia, “bestializado”, aquele acontecimento sem compreender o seu significado.

Exigir, neste momento, a despolarização, o debate polido, as maneiras finas e educadas, significa exigir que o povo permaneça bestializado. No Brasil, o povo sempre foi tratado como serviçal, como escravo, como ignorante, como grosseiro, cujo único atributo seria trabalhar e servir. As elites sempre se reservaram o monopólio do luxo, do dinheiro, dos vícios e da corrupção. Pois bem. Nos momentos críticos, de incerteza acentuada acerca do amanhã, essas elites mal-educadas, incluindo a intelectualidade que as servem, exigem boas maneiras daqueles que nunca foram bem tratados. O povo e os ativistas cívicos, precisam aprender a tratar com grosseria as elites violentas, luxuriosas, vaidosas, corruptas, expropriadoras, sonegadoras, pois esta é a forma polida que merecem ser tratadas por terem construído uma sociedade injusta e brutalmente desigual.

É legítimo cobrar posicionamento dos intelectuais

Chega a ser um acinte que os bem falantes dos livros e das mídias exijam despolarização, recato e polidez em uma sociedade moralmente dilacerada, materialmente humilhada, culturalmente deserdada. É preciso dizer não a essa exigência de despolarização que criou, cultiva e dissemina o mito da democracia racial, sempre atualizado em cada momento histórico com a manutenção de novas formas de existência de semi-libertos dos afro-descendentes e de extermínio dos índios.

Como exigir despolarização no momento em que a democracia foi golpeada, em que os direitos sociais são destruídos, em que a cultura, a educação e a saúde pública sofrem agressões e danos ruinosos? Como exigir polidez quando a juventude está desesperançada e a velhice temerosa porque não se encontra ao abrigo das misérias e não tem amparo no momento em que mais precisa dos serviços públicos da saúde? Como exigir diálogo com um governo que é a face desnudada da corrupção, do machismo, da falta de recato e da indiferença completa com a sua própria degradação?,

Neste momento de desesperança é preciso cobrar dos intelectuais, sim, um posicionamento acerca da situação política do país. Os intelectuais são figuras públicas e, como tais, estão submetidos ao crivo do público e às exigências demandadas pelo processo de formação da opinião pública. É bem verdade que parcelas dos intelectuais se tornaram idiotas da objetividade e se refugiam numa suposta neutralidade que não existe. Também é verdade que parte da mídia conferiu o estatuto intelectual e de juízes da nação a vendedores de consultorias, que são partes interessadas no doloroso ajuste jogado sobre os ombros vergados dos mais pobres.

Mas convém lembrar que os intelectuais de todos os tempos, dentre os mais representativos, a começar por Sócrates, Platão e Aristóteles, chegando ao mundo moderno e contemporâneo, pugnaram pela cidade justa, pela república justa, pela nação justa. Denunciaram as injustiças, combateram as desigualdades, enfrentaram tiranias e ditaduras, sofreram violências, exílios, prisões, quando não a morte.

Um intelectual autêntico não pode ser um acólito do poder, um cortesão oportunista, um freqüentador de palácios, um comensal dos poderosos. Os intelectuais autênticos devem ser a voz pública dos reclamos de justiça e, pela simbologia e representatividade que carregam, precisam elevar-se acima dos outros para denunciar as mazelas do poder e dos poderosos, de sua opressão, de suas arbitrariedades e de suas tendências contrárias à liberdade.

Dentre todas as incompletudes humanas, dentre todas as incompletudes do mundo, um poder que não esteja assentado sobre as virtudes do povo e que não esteja a serviço do interesse comum, é a maior das incompletudes. O poder do Estado é o organizador de todas as outras atividades. E se ele não é virtuoso, desestrutura e destrói a nação, a sociedade, a moralidade, o bem estar, o desenvolvimento, a educação, os direitos, a cultura.

O governo Temer promove, hoje, este tipo de devastação do Brasil. É um governo que precisa ser denunciado e removido. Para isto é necessário o dissenso, a polarização e o conflito. Nas repúblicas democráticas bem constituídas não é o consenso, não é a paz dos cemitérios, não é a passividade que constroem bem estar e boas leis. Somente as virtudes combativas e o ativismo cívico são forças capazes de imprimir um outro rumo ao Brasil.

Aldo Fornazieri é professor da Escola de Sociologia e Política.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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8 comentários

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Décio Adams

14 de março de 2017 às 15h02

Parabéns professor Aldo Fornazieri. Resumiu em uma ou duas páginas, toda essência das mazelas do nosso país, desde seu surgimento como nação e mesmo antes, quando ainda estávamos em formação, como colônia portuguesa.
Estou do seu lado, com as forças que me restam e com o pouco vigor que disponho.

Décio Adams

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Atreio

14 de março de 2017 às 11h31

às ruas, todos os dias! em todos locais tradicionais de protesto em todas as cidades! 18h.

constranger e ridicularizar golpistas! exigir a anulação do impeachment sem crime!
exigir o retorno de Dilma Vana Roussef, eleita e inocente! temos quase 2 anos antes de 2018. mimiMYSHELL temq sair antes de 2018.
ele governa junto com a chapa perdedora das eleição de 2014! ele traiu a todos à sua volta e se aliou aos Outros! tpa gravado na voz do jukete!!! todo PMDB tá preso! ed cunha, serginho cabral, os amigos do pezão….o resto ta na lista da odebrecht,,,,o angorá, o botafogo, o bocamole, o primo, o santo….e mimimiMYSHELL ainda é um criminoso condenado e inelegível por 8 anos!! com os seus antigos ‘adversários’ empossados por ele mesmo passa a propor o contrario do era o projeto e programa de governo q o elegeu como vice de Dilma, pra desmontar tudo e garantir o atraso.

os argumentos são solidos. só precisamos assoprar q ele cai, mas temos q assoprar juntos.
em SP na paulista. no RJ, na cinelandia, em recife no marco zero, em cada cidade, onde for. somos mais, somos maiores, somos mais fortes.

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Anônimo

14 de março de 2017 às 10h24

cafezinho requentado

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Glorinha Silva

14 de março de 2017 às 09h16

A polarização é necessária sempre, todo o tempo e em qualquer parte. Direitos iguais não significa que somos todos iguais, à diversidade nos garante o direito de brigar pelo que é justo às nossas necessidades e o Brasil sempre foi polarizado como afirma o professor Aldo e não cabe a ninguém pedir ao povo que se cale e aceite as manobras deste governo golpista para completar o desmantelamento do país por essa quadrilha que aí se instalou. Falar de boa educação com uma povo que está sendo dia a dia, humilhado, dilacerado é, no mínimo, hipocrisia.

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Dulcéa Machado Martins

14 de março de 2017 às 08h39

Posicionamento primordial e oportuno. Nada como deixar as coisas às claras! Obrigada Fornazieri.

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ANTONIO PAULO DA COSTA CARVALHO

13 de março de 2017 às 15h34

FORNAZIERI, PARABÉNS!!!!

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Marcelo de Faria

13 de março de 2017 às 15h33

Me lembro que no auge das minhas comemorações da vitoria nas eleições, os raivosos derrotados diziam,catastrofísticamente que a nação estava dividida e eu não achei nada de errado, antes pelo contrário, metade do povo saíra do “armario” de pobre oprimido e mandara a elite à merda!. Curioso é que essa sensação real de polaridade foi usada pejorativa e abusadamente em todas as etapas do golpe, Tentavam vender a ideia de que se todos tirassem a Dilma a união voltaria. Quá! Quá! Quá!

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Idenilza Barbosa Lima de Lima

13 de março de 2017 às 14h41

A despolarização é a parte da ideologia que só serve à Casa Grande. O governo Lula serviu para esclarecer aos que ainda tinham dúvidas de que sempre foi luta de classes. Vivemos um Estado de Exceção no Brasil e se tudo que nos resta for nosso ofício, como jornalista, professor/a, estudante, então, precisamos nos posicionar e lutar.

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