Boulos em Recife

Lulismo em cheque

Por Miguel do Rosário

08 de novembro de 2018 : 17h26

LULISMO EM XEQUE: SEQUESTRO OU RESISTÊNCIA?

Por Ricardo Cappelli

A promessa de décimo terceiro salário para o Bolsa Família foi apenas jogada eleitoral?

Na obra “Os Sentidos do Lulismo – Reforma Gradual e Pacto Conservador”, André Singer busca caracterizar e/ou problematizar a alteração ocorrida no espectro eleitoral brasileiro a partir de 2006, com o surgimento de um novo fenômeno: o “Lulismo”.

Segundo o autor, o Bolsa Família, a valorização do salário mínimo, a expansão e fortalecimento do crédito consignado e o Luz para Todos, dentre outras políticas, promoveram um deslocamento do subproletariado.

Luis Inácio, alvejado pelo “Mensalão”, perdeu apoio na classe média urbana e foi reeleito tendo como fortaleza o voto deste fragmento de classe. Mas quem seria o subproletariado?

Na definição de Paul Singer, “são aqueles que oferecem sua força de trabalho no mercado sem encontrar quem esteja disposto a adquiri-la por um preço que assegure sua reprodução em condições normais.” “Trabalhadores destituídos de condições mínimas de participação na luta de classes”, desenvolve André.

Estão na base da pirâmide social, com baixa escolaridade e um grande nível de dependência do Estado ou de um “protetor”. Situam-se na resiliente faixa de até um salário mínimo que esteve com Haddad na maior parte da corrida eleitoral.

Com muita força no nordeste, foi historicamente base de sustentação do coronelismo. Votou em Collor e em FHC. Conservador, identificava na esquerda a desordem. “Necessitado” da ordem, do estado forte e da mão protetora, projetava no coronel sua possibilidade de redenção.

Lula rompe este círculo, reconfigura o eleitorado brasileiro e vai, aos poucos, redesenhando o PT e a esquerda brasileira. O Nordeste é transformado em bunker “vermelho”

O ex-presidente viu nesta movimentação de tropas um sentido estratégico. O governo eleito ficará apenas observando?

A crise fiscal, a grande renovação no Congresso, o custo-tempo da reorganização radical da máquina pública, a inexperiência do futuro núcleo do governo e a provável confusão entre neoliberais “pauloguedianos” e militares nacionalistas impossibilitarão a retomada do crescimento no curto prazo. Diante disto, o que fazer para manter a popularidade?

A classe média será alimentada com o lançamento de carne fresca: redução da maioridade penal, liberação do porte de armas, redução drástica de ministérios, Estatuto da Família, combate à corrupção e outras pirotecnias. “Moro Neles!”

A redução indiscriminada de alíquotas de importação e o fim das desonerações e subsídios devem quebrar o que restou de nossas indústrias. É cedo ainda para dizer até onde vai a sinceridade-compromisso do “Czar da economia” com a redução dos juros e a depreciação do real. Vai peitar os bancos derrubando o tripé macroeconômico mantido por FHC e Lula?

A farra dos importados fará a tradicional classe média vibrar. Poderá comprar a camisa com o jacaré-status pelo mesmo preço pago nas patéticas excursões aos outlets de Miami. Vão demorar um pouco mais para descobrir que seus filhos continuarão desempregados.

Neste cenário – mantendo a lógica militar de marcha permanente – é provável que a batalha continue sendo travada no nordeste. É preciso destruir definitivamente o lulismo como possibilidade de futuro e capacidade de resistência.

O ataque já foi realizado no campo moral utilizando o veneno do multiculturalismo identitário que a esquerda abraçou. Resta agora solapar a base material. Para legitimar o programa bolsonarista é possível que estendam a mão do estado ao subproletariado. O mercado pode aceitar como custo colateral da operação.

Se André Singer estiver certo, a tática pode funcionar. Ao consagrar a possibilidade de “revolução pacífica”, de ascensão pelo consumo sem ruptura, Lula pode ter construído condições propícias ao seqüestro de sua base social.

O lulismo resistirá? A cor dos pobres continuará a ser vermelha?

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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28 comentários

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joao

10 de novembro de 2018 às 12h31

Penso seriamente a trocar o nosso Cafezinho pelo antagonista.Acredito que ficarei menos boco.

Responder

    O Pai

    10 de novembro de 2018 às 19h16

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    O Antagonista é site jornalistico sério
    O Cafezinho é site de humor

    Responder

Justiceiro

09 de novembro de 2018 às 16h55

Miguel. Cadê meu comentário?

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Alan Cepile

09 de novembro de 2018 às 14h43

Este tal lulismo engloba dois senadores do pt votarem a favor do aumento pro judiciário??

Nada muda….

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    Francisco

    09 de novembro de 2018 às 14h48

    O bom e velho Pê-Tê, sempre aprontando das suas.

    Responder

      José

      09 de novembro de 2018 às 20h05

      E você ainda acredita no crismo de plantão…

      Responder

Justiceiro

09 de novembro de 2018 às 12h14

“Lula criou o nós contra eles”. Eu sou o “eles” (Ciro Gomes)

E não é que o coroné criou vergonha na cara e se libertou das garras do presidiário?

Mais uma condenação e Lula não terá ninguém pra lhe levar o barbeador na cadeia.

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CAR-POA

09 de novembro de 2018 às 11h56

Ricardo Capelli ou como não dizer nada,pior !!!! usando teorías ou teses de outra pessoa.
Tá frío e azedo este “cafezinho”

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Claudio

09 de novembro de 2018 às 11h45

Poderia comentar sobre as bobagens que o Ciro vem falando nesses dias pós eleições. Atacando Lula indiscriminadamente, já que voce tentou dar um verniz de esquerda nele.

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Aliança Nacional Libertadora

09 de novembro de 2018 às 09h18

A eleição já a acabou……e o Cafezinho continuando a atacar o Lula….assim como o Coroné….a quinta coluna se apequena cada vez mais…

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Arenga

09 de novembro de 2018 às 08h28

Requião apresenta “Lei Onyx Lorenzoni”, que perdoa quem se arrepender por caixa dois

Roberto Requião (MDB) apresentou, nesta quarta-feira (7), no Senado, o projeto de lei já batizado de “Lei Onyx Lorenzoni”, que concede a juízes o poder de perdoar políticos que tenham se arrependido e feito pedido público de desculpas por seus crimes ou acusações.

A iniciativa do senador é uma ironia com o juiz Sérgio Moro e acontece um dia depois do juiz, numa coletiva de imprensa em Curitiba, na terça (6), minimizar as acusações de caixa dois contra o futuro chefe da Casa Civil.

Moro demonstrou adotar de flexibilidade em seus critérios sobre a gravidade do uso de caixa dois, dependendo de quem é o protagonista da ação. Questionado por um jornalista sobre como ele se posiciona diante do fato de que Onyx Lorenzoni, escolhido para ser ministro da Casa Civil, é réu confesso dessa atividade ilícita, Moro respondeu: “Ele já admitiu e pediu desculpas”. (…)

OBS: ESSA É A PRIMEIRA MEDIDA “SÉRIA” DE SÉRGIO MORO DEPOIS QUE ELE FOI INDICADO PARA O MINISTÉRIO DA JUSTIÇA: perdoar o cara que tem nome de chuveiro.

Responder

    Paulo

    09 de novembro de 2018 às 16h56

    Moro agiu bem, pois já não fala como juiz, e sim, como político…simples assim.

    Responder

Álvaro

09 de novembro de 2018 às 06h53

Tem hora que esse blog parece a MBL

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Sebastião

09 de novembro de 2018 às 01h28

Achar que quem vota no PT é dependente de algum benefício, é um engano. Nunca fui beneficiário de nenhum programa de governo, nem pra cursar a faculdade que paguei integralmente. Mas sei, e conheço pessoas que são beneficiária, e nem por isso, olho pro meu próprio umbigo. O governo do PT, ao menos aqui na Bahia, trouxe as grandes obras de volta. E uma das obras que mais trouxe benefícios, foi a do metrô que ficou por muito tempo parada com os governos da direita(DEM-PSDB). As vezes acho egoísmo de Lula de querer pautar o partido somente com a liberdade dele. E periga com isso, impedir a renovação do PT com os atuais governadores(e não tem manchas de investigação) que serão nomes que podem disputar a presidência da República em 2022, mostrando um novo PT.

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Valdeci Elias

08 de novembro de 2018 às 23h30

Na Vida, todos nós somos interligados, por isso mesmo quem não recebeu Bolsa Família más se importa com o próximo , votou em Haddad . Nem todo mundo, só olha pro próprio umbigo.

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    Brasileiro da Silva

    08 de novembro de 2018 às 23h59

    Vc tem razão. A prova é que a maioria votou contra o office boy de presidiário.

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    Brasileiro da Silva

    09 de novembro de 2018 às 00h01

    Verdade. Por isso ele é o presidente eleito.

    Responder

Paulo

08 de novembro de 2018 às 22h19

A cor dos pobres nunca foi vermelha. É só dependência econômica, mesmo. Ou oportunismo, meramente, ainda que sem dependência…

Responder

    Benoit

    09 de novembro de 2018 às 08h58

    A cor dos bancos nunca foi o preto conservador (a cor usada pelos conservadores alemães) ou o vermelhor republicano (a cor usada para os conservadores republicanos nos EU). Eles sempre apoiaram quem prometeu lucros para eles. Por isso apoiaram o Lula, a Dilma (até ela resolver fazer alguma coisa acerca dos juros extorsivos), o Temer e agora vão apoiar o Bolsonaro. É só dependência econômica, mesmo. Ou oportunismo, meramente, ainda que sem dependência…

    Responder

      Paulo

      09 de novembro de 2018 às 17h01

      Você só confirma minha opinião, ao querer infirmá-la. As pessoas agem com interesse, e, se esse interesse for econômico, com maior razão apoiarão quem os beneficia, ainda que não haja dependência econômica, mas basta o benefício, entendeu?

      Responder

        Benoit

        09 de novembro de 2018 às 18h35

        Só que para além de interesses, existe uma coisa chamada de justiça social. Interesses não justificam tudo, especialmente dado o fato de que existem interesses imcompatíveis uns com os outros. Numa democracia as pessoas têm o direito de esperar justiça social e de votar de acordo com os seus interesses. De um modo ideal posições que contrariam a justiça social de um modo radical não deveriam ter vez na democracia. Infelizmente isso não é o caso porque há interesses que são sustentados por forças que interferem na formação livre e esclarecida de posições e atitudes.

        Responder

          Paulo

          09 de novembro de 2018 às 19h37

          Onde eu disse que interesses justificam tudo e que não se deve investir no social? Só estava estabelecendo uma relação de causa e efeito, com reflexo importante no voto do beneficiário…

          Responder

degas

08 de novembro de 2018 às 19h44

Que o Bolsonaro deve fazer com o Lula o que este fez com as bolsas do FHC é óbvio. Praticamente metade dos votos do PT é de bolsistas, se retirar boa parte disso a ameaça eleitoral do petismo acaba. E outra forma interessante de ver a coisa é comparar o valor médio do Bolsa Família por habitante (bolsista ou não) com o percentual de votos válidos do Adad no segundo turno.

R$ 4,59 – 31,7% no Sul
R$ 6,66 – 33,5% no Centro-Oeste
R$ 6,83 – 34,6% no Sudeste
R$ 17,90 – 48,1% no Norte
R$ 22,94 – 69,7% no Nordeste

Responder

    Paulo

    08 de novembro de 2018 às 22h21

    Do jeito que a dependência se perpetua, nunca ensinaremos a pescar o peixe…

    Responder

      Benoit

      09 de novembro de 2018 às 09h01

      É verdade, a dependência dos bancos, dos juizes com as bolsas esmola deles e dos milionários e grandes firmas que não pagam impostos como os pobres pagam. É preciso acabar com essa dependência.

      Responder

        Paulo

        09 de novembro de 2018 às 17h02

        Aí já não é dependência, é safadeza!

        Responder

          Benoit

          09 de novembro de 2018 às 18h37

          É verdade. Não vejo porque aceitar que juizes ganhem tanto ou mesmo mais, em alguns casos possivelmente muito mais, do que juizes nos países mais ricos do mundo. Os brasileiros não têm que estar sustentando o luxo dos juizes.

          Responder

Alves

08 de novembro de 2018 às 18h26

DESMASCARANDO MAIS UMA MENTIRA DO BOLSONARO – DESSA VEZ SOBRE O BNDES

https://www.youtube.com/watch?v=PctOTVvo6x0

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