Análise da reunião ministerial de Bolsonaro

Datafolha: Bolsonaro continua perdendo a classe média, mas ganha eleitores mais humildes e de baixa instrução

Por Miguel do Rosário

30 de abril de 2020 : 18h04

Demorei um pouco para fazer esta análise porque o Datafolha só publicou hoje os dados estratificados por renda e escolaridade, que são os meus preferidos.

Então vamos lá. Ao fim do post, deixo o link para as fontes usadas.

A aprovação geral de Bolsonaro se mantém estável desde abril do ano passado, com 33% de ótimo e bom e 38% de ruim e péssimo.

Mas houve mudanças expressivas na estrutura do eleitorado do presidente. Ele ganhou apoio nas classes de menor renda (menos de 2 salários por família, e de 2 a 5 salários), e menos instruídas (até ensino fundamental), e perdeu apoio nas faixas de renda média e mais instruídas.

É importante ficar atento para três fatores:

  1. Nas classes de renda abaixo de 2 salários, Bolsonaro tem 30% de bom e ótimo, porém quase 40% de ruim e péssimo.
  2. Entre famílias com renda de 2 a 5 salários, embora tenha havido uma leve melhora da aprovação, o crescimento da rejeição foi maior: em abril de 2019, essa era a faixa que menos tinha rejeição a Bolsonaro, apenas 27%; hoje Bolsonaro tem 37% de rejeição nesse segmento.
  3. Houve forte crescimento da aprovação de Bolsonaro entre as pessoas menos instruídas, com escolaridade até o ensino fundamental; entre estes, o índice de ótimo/bom de Bolsonaro atingiu 37%, contra 29% desde abril de 2019; e a rejeição caiu de 39% em dezembro para 35% em abril.

Essas foram as boas notícias para Bolsonaro. Agora vamos às más (e boas para a oposição).

A aprovação de Bolsonaro junto às classes mais instruídas e de renda média continua a se deteriorar.

A pesquisa mostra que a rejeição de Bolsonaro junto às pessoas com ensino médio subiu para 36%. Essa era a faixa de escolaridade que menos rejeitava o presidente nos primeiros meses de governo. A aprovação positiva, por sua vez, está em 31%.

Entre eleitores com ensino superior, a rejeição a Bolsonaro explodiu para 47%, ao passo que sua aprovação caiu para o menor nível desde o início do governo, 31%.

A rejeição a Bolsonaro entre famílias de renda média, entre 5 e 10 salários, subiu para 40%. Este era o setor social que mais apoiava Bolsonaro no início de seu governo, e formava o núcleo duro de sua campanha eleitoral. Ele ainda tem o apoio de 33% desse eleitorado, contra 44% em dezembro do ano passado.

Entre famílias de renda acima de 10 salários, Bolsonaro também já teve um desempenho melhor. Em julho de 2019, por exemplo, chegou a ter 52% de aprovação positiva nessa faixa. Hoje tem 40%, menor índice desde o início do governo, e 42% de negativo.

Conclusão:  Bolsonaro ainda desfruta da força inercial que o levou à vitória eleitoral.  Entretanto, a deterioração entre os eleitores mais instruídos é um sinal de que a “gravidade” já começa a fazer efeito sobre o presidente: a classe média é sempre um termômetro importante para saber para onde sopram os ventos, porque ela consome antes as informações que, mais tarde, chegam à população mais pobre. Aparentemente, Bolsonaro é beneficiado também por um fenômeno comum em momentos de guerra. O aumento da insegurança da população a leva a confiar mais no presidente, com esperança de receber auxílios. O pobre e o brasileiro pouco instruído ficam inseguros de responder à pesquisa que acham o governo ruim ou péssimo se contam, desesperadamente, com ajuda do governo para sobreviver nos próximos meses.

Além disso, é provável que a ajuda de até R$ 1.200 por família (incluindo mãe solteira) já comece a fazer efeito sobre a aprovação do presidente junto aos mais pobres.

O Bolsa Família jamais teve esse tamanho, de maneira que para as famílias mais pobres a crise do coronavírus, ironicamente, irá promover um forte salto de renda ao longo dos próximos meses.

Mas tudo isso é provisório, a menos que Bolsonaro, até para preservar esse apoio popular, convença Paulo Guedes a manter a ajuda emergencial por tempo indeterminado.

Os desdobramentos do Covid-19, que ainda estão em fase inicial nas periferias do Brasil, também devem trazer alguma dificuldade para Bolsonaro, em função de suas declarações sempre muito desastradas sobre o tema.

Relatórios da Datafolha usados:
Abr/19
Jul/19
Dez/19
Abr/20

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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10 comentários

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Marcelo M Rocha

01 de maio de 2020 às 11h35

“….declarações sempre muito desastradas sobre o tema.”
Sério isso? Que tal declarações homicidas, genocidas, psicopáticas ou criminosas. Estamos falando da mesma pessoa? Você nutre alguma simpatia por este psicopata-miliciano-genocida? Você leu o quê disse o ex-ministro da saúde, Arthur Chioro, sobre o número de mortes que este fdp pode vir a causar? “declarações desastradas”???

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Délio

01 de maio de 2020 às 09h45

O pronunciamento de LULA no Primeiro de Maio

https://youtu.be/X93aAe3tnF0

E há quem compare Lula a Bolsonaro

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Heleno

01 de maio de 2020 às 08h37

2022: LULA NÃO QUER SER MAIS CANDIDATO

Lula está certíssimo.

Lula, curta o resto da sua vida com a Janja. Vocês se merecem!

Não deixe de participar da política, mas como conselheiro ou cabo eleitoral.

Não há homem na Terra nem Deus no céu que reverta em 4 anos de mandato esta situação de calamidade pública instaurada pelo desgoverno criminoso de Jair Bolsonaro em todas as áreas da atividade humana.

Se a classe média e o povo acreditou na estória de saúde e educação padrão FIFA, como difundida pela Rede Globo de Televisão nas manifestações de 2013, agora eles estão vendo do que se trata: o padrão de saúde FIFA da Rede Globo é a pessoa perder um de seus parentes para o coronavírus e não saber nem onde ele vai ser enterrado.

A previsão é catastrófica e serão dezenas e centenas de milhares de brasileiros que serão mortos graças à incúria e o propósito desse psicopata miliciano chamado Jair Bolsonaro, que conta com o apoio integral (em termos de política econômica) dos bandidos mais notórios desse país, que vai dos irmãos Marinho a Roberto Jefferson, isso para não falar no apoio de uma penca de generais traidores do Brasil e, portanto, de seu povo. Tudo isso sob a batuta do nefasto Paulo Guedes que é o cara que tem as chaves do cofre e quem trabalha a soldo do “bandidato” nacional.

Eu sei que você sabe disso tudo. Por isso mesmo diga não para um novo mandato. Preserve sua rica biografia.

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Ester

01 de maio de 2020 às 07h37

F
O
R
A B O L S O N A R O

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Sebastião

01 de maio de 2020 às 02h52

Quem elege, e quem dá votos, são as classes mais baixas. Porém, quem faz barulho e manifestações, é a classe média. Se Bolsonaro continuar mantendo um auxílio, com menor valor que esse de 600 reais, ele pode se reeleger tranquilo em 2022. Isso, coincidentemente, na mesma época que Lula em entrevista a Sakamoto, disse que não seria mais candidato.

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Paulo

30 de abril de 2020 às 23h09

A classe média verdadeira, que representa não somente um estrato econômico, mas também educacional e cultural, mesmo quando essa posição não progrida, economicamente, está abandonando Bolsonabo, pois já percebeu que foi engambelada pelo Capetão (a união com o Centrão será a pá de cal)…

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Alan C

30 de abril de 2020 às 22h08

Esse resultado não faz muito sentido, talvez a metodologia de entrevista por telefone tenha atrapalhado.

Essas pesquisas agora fazem menos sentido ainda. Vai passar a ter valor quando a pandemia acabar.

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    Redação

    30 de abril de 2020 às 23h28

    Sim, tem distorção por causa disso. E Bolsonaro se beneficia do medo do povo. Há aumento de popularidade entre famílias humildes, por medo. É assim em todos os estados e no mundo inteiro.

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dcruz

30 de abril de 2020 às 18h46

Justamente aí é que mora o perigo, os mais esmagados pelas botas fascistas do bozo são os que lhe dão sustento, fascinados pelas bravatas estudadas que o bozo lança “contra” os poderosos. Típico fenômeno de domínio fascista, a paixão cega pelo seu ídolo, gado é isso aí.

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    Tiago

    30 de abril de 2020 às 22h56

    E a classe média antes Bozista, vai sendo conduzida para o Morismo/PSDB.

    Enquanto a esquerda não demonstrar os crimes e contradições dos pilares do Bozo (que também são pilares da direita que se reagrupa novamente em torno do parlamentarismo do PSDB), quais sejam: o oportunista e corrupto Sérgio Moro, o elitista e representante do mercado Financeiro Paulo Guedes, o pseudo nacionalismo dos Militares Entreguistas e a Pseudo Honestidade de Bozo, Familícia e todos que se associaram (inclusive os que agora querem se mostrar como “opositores”, apenas em relação ao método mas não em relação aos objetivos, como Dória no segmento classe alta, Moro no segmento classe média, Huck no segmento classe baixa, etc)… A esquerda só vai assistir novamente um mero simulacro de democracia cada vez mais manipulada pela mídia, proprietários e Poder Judiciário…

    Acorda Miguel!

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