Uma nova pesquisa publicada na revista npj Climate Action apresenta uma abordagem inédita para tornar explícitas as questões de justiça distributiva em cenários globais de mitigação climática.
O trabalho liderado por Karl Scheifinger no âmbito do International Institute for Applied Systems Analysis (IIASA) propõe um arcabouço de padrões de justiça distributiva que traduz princípios filosóficos em requisitos quantitativos aplicáveis a trajetórias de variáveis como consumo de energia ou carne, segundo o estudo publicado na npj Climate Action.
O estudo investiga cenários usados no Sexto Relatório de Avaliação do IPCC, comparando diferentes trajetórias sob parâmetros como consumo energético e dietas mundiais.
Foram examinados princípios de justiça como utilitarismo, prioritarismo, igualdade, suficiência e limitarianismo. O prioritarismo, que enfatiza melhorias relativas para quem está em pior situação, emergiu como o modelo mais presente nos cenários existentes. Futuros que assumem limites rigorosos de consumo ou reduções explícitas no uso de energia e na composição alimentar foram pouco representados.
Os pesquisadores observam que a maioria desses cenários não foi originalmente projetada para produzir futuros justos. Contudo, eles se alinharam com padrões de justiça por causa das narrativas socioeconômicas subjacentes, especialmente do Shared Socioeconomic Pathway 2 (SSP2), que governa muitas suposições sobre o desenvolvimento mundial.
Esse dado alerta para o fato de que pressupostos de justiça acabam embutidos nas escolhas iniciais de modelagem.
Parte central do arcabouço propõe que cada cenário seja avaliado por meio de trajetórias de requisitos que traduzem teorias de justiça em padrões visuais e métricas quantitativas. Um princípio igualitário demandaria que desigualdades fossem reduzidas entre todos os atores ao longo do tempo, enquanto um princípio de suficiência apontaria um piso mínimo de recursos ou bem-estar para cada pessoa, independentemente de sua posição socioeconômica.
O estudo mostra ainda que não há antagonismo intrínseco entre justiça distributiva e metas climáticas rigorosas. Cenários mais ambiciosos de mitigação podem ser compatíveis com padrões de justiça, desde que escolhas metodológicas, narrativas socioeconômicas e envolvimento de stakeholders sejam considerados desde o início.
A combinação de estratégias de mitigação e princípios de justiça exige transparência sobre essas suposições e participação de diferentes comunidades nas decisões.
Os autores propõem que futuras avaliações do IPCC adotem esse método para tornar explícitas as implicações distributivas dos cenários climáticos. A iniciativa permitiria incluir uma gama mais ampla de princípios de justiça e fazer com que atores em posições socioeconômicas mais vulneráveis possam ser beneficiados, em vez de apenas sofrerem os ônus das transições.
Esse tipo de abordagem pode gerar maior legitimidade e adesão social às políticas climáticas.
Em síntese, o arcabouço idealizado revela que a justiça não é apenas uma questão ética abstrata, mas elemento que deve estar no cerne da modelagem climática. Ao tornar visíveis os trade-offs entre diferentes padrões de justiça e diversas estratégias de mitigação, pesquisadores e formuladores de políticas ganham um instrumento valioso para desenhar futuros que conciliem estabilidade climática com equidade real entre populações atuais e futuras.
Com informações de phys.org.
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