Entre as montanhas nebulosas do planalto de Javakheti, na Geórgia, ergue-se uma série de fortalezas ciclópicas que parecem pulsar com a memória de um tempo esquecido. Novas escavações arqueológicas estão forçando os pesquisadores a reavaliar o que se sabia sobre uma civilização que floresceu ali há mais de cinco milênios, desafiando os manuais clássicos da história do Cáucaso.
O estudo, publicado na revista científica Antiquity, é liderado por Roberto Dan, da Associação Internacional de Estudos Mediterrâneos e Orientais, sediada em Roma. Ele coordena o Projeto Samtskhe-Javakheti, uma iniciativa georgiano-italiana que desde 2017 vem desvendando os segredos pétreos do sul do país, combinando imagens de satélite, mapeamento por GPS e sistemas de informação geográfica.
Ao longo de oito anos, a equipe mapeou 168 sítios arqueológicos, incluindo povoamentos, fortificações e necrópoles que pontuam o vasto planalto. Esses locais revelam uma continuidade impressionante de ocupação humana desde a Idade do Bronze, especialmente em sítios como Abulis Gora e Saro-1, onde camadas de cinzas e muros de pedra narram ciclos de destruição e renascimento.
Nas proximidades de Bertakara e do Lago Tabatskuri, extensos cemitérios antigos indicam tradições funerárias persistentes, ligadas a uma espiritualidade que atravessou séculos. Trabalhos anteriores da Universidade de Melbourne e do Museu Nacional da Geórgia haviam antecipado o potencial arqueológico da região, mas somente agora o coração do planalto começa a revelar suas vozes silenciosas.
O sítio de Baraleti Natsargora, cujo nome significa literalmente ‘colina das cinzas’, revelou camadas de ocupação que vão de 3500 a 500 a.C. Ali, os arqueólogos descobriram muros defensivos, estruturas domésticas com divisórias internas e vestígios de incêndios repetidos, sugerindo tanto rituais quanto conflitos.
Entre os achados mais notáveis está um disco solar de bronze, decorado com faixas concêntricas e perfurações simétricas, símbolo de uma cosmologia complexa. Objetos semelhantes, frequentemente encontrados em sepultamentos femininos no sul da Geórgia, sugerem que este artefato, hoje preservado no Museu de Akhalkalaki, pode ter vindo de uma tumba próxima.
No sítio de Meghreki, parcialmente revelado pela construção de uma estrada moderna, as escavações trouxeram à luz uma sequência contínua de ocupação humana desde a cultura Kura-Araxes, por volta de 3500 a.C., até o período medieval. Essa longevidade impressiona, mostrando que as montanhas georgianas eram, mais que fronteiras, pontes vivas entre tradições do oriente e do ocidente.
Durante o período aquemênida, entre os séculos VI e IV a.C., duas estruturas domésticas revelaram instalações de argila decoradas com padrões geométricos em vermelho, branco e azul-escuro. Esses motivos, segundo Dan, ecoam tradições encontradas em sítios próximos como Digasheni e Amiranis Gora, onde superfícies ornamentadas marcavam espaços de significado ritual.
Essas descobertas não apenas reconfiguram o mapa arqueológico da Geórgia, mas também questionam a própria noção de isolamento das civilizações de montanha. O planalto de Javakheti emerge, assim, como um cruzamento cultural dinâmico, onde povos de diferentes altitudes e crenças se encontraram por milênios, trocando símbolos, metais e mitos.
O próximo passo da pesquisa envolverá datações por radiocarbono, análises cerâmicas e estudos ambientais que permitirão refinar a cronologia das ocupações. Cada fragmento recuperado promete lançar nova luz sobre as interações entre as comunidades do Cáucaso e as grandes civilizações do Crescente Fértil, tecendo um mosaico que desafia fronteiras geográficas e temporais.
Segundo reportagem do Greek Reporter, a magnitude das estruturas ciclópicas sugere uma sociedade altamente organizada, capaz de erguer fortificações monumentais a mais de dois mil metros de altitude. A pesquisa, ao revelar essa arquitetura ancestral, não apenas reescreve a história do Cáucaso, mas também evidencia como o conhecimento e o poder se entrelaçaram na tessitura das civilizações esquecidas.
Há algo de profundamente simbólico em ver a Geórgia — país que hoje busca se afirmar entre a Europa e a Ásia — redescobrir em suas profundezas a prova de um passado cosmopolita e tecnológico. As pedras ciclópicas de Javakheti, pesadas e silenciosas, parecem sussurrar que a verdadeira soberania nasce do diálogo entre a memória e a inovação, entre o solo ancestral e o olhar que ousa perscrutá-lo.
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