Mais de 70% dos eleitores já estão decididos sobre o voto presidencial, diz DataFolha

A Venezuela em seu 21º processo eleitoral em 18 anos, ainda pode ser chamada pelos EUA de ditadura?

Por Tulio Ribeiro

02 de agosto de 2017 : 10h49

Texto: Douglas Finger(UCV) e Tulio Ribeiro (UBV)

Imagens: Coreo del Orinoco (eleitores enfrentam enchente pra votar)

É difícil dissertar sobre o momento atual do povo venezuelano sem se reportar a dicotomia entre as forças políticas internas e externas. Desde a Revolução Mexicana (1911-1940), quando o capital internacional foi praticamente expulso com estatização da exploração de petróleo em solo mexicano, os investimentos migraram para a Venezuela. Foi nesse contexto, que a direção do país deixaria de estar nas mão dos venezuelanos, para estar sob a interferência constante dos estadunidenses que valendo-se de uma aliança com uma elite “criolla” controlou a nação até a revolução bolivariana.

Em julho de 2017 esta relação de poder se reverbera, embora agora não se trate de uma aliança com o governo, mas sim para derrubá-lo, devolvendo as tradicionais elites a administração do país, o que em verdade se trata de uma terceirização, para que novamente a Venezuela se enquadre a cartilha de Washington. Com esse objetivo, a oposição hoje se sustenta com fortes investimentos dos EUA cuja a clara intenção é voltar a controlar a maior reserva de petróleo do planeta.

Retomar o controle do governo venezuelano, também poderia significar a interrupção do ciclo iniciado com a chegada de Hugo Chávez a presidência da Venezuela, que abriu passo a um período de ascensão social e econômica para nossa América, liderada por diversos governos com identificação popular e de que buscavam diminuir a dependência dos Estados Unidos.

A crise de 2008, somada as fortes pressões internacionais e também aos erros cometidos pelos governos progressistas, novamente colocou a América Latina em uma encruzilhada histórica, enfraquecendo politicamente vários desses governos, sendo que alguns deles foram vítimas de tentativas de golpe de estado ou mesmo de golpes consumados.

A Venezuela, em particular, enfrenta desde o falecimento de Chávez, diversos problemas: uma oposição incapaz de conviver em democracia e aceitar os resultados eleitorais, somados a uma queda histórica nos preços do barril de petróleo (de forma induzida), sua principal fonte de ingressos. Diante de tal situação, os níveis de aprovação do governo bolivariano diminuíram a ponto de saírem derrotados das eleições para Assembleia Nacional em 2015. Com maioria parlamentar, a oposição, em vez de trabalhar para melhorar o país, apenas decidiu incrementar o boicote ao Poder Executivo, inclusive defendendo o afastamento de Nicolás Maduro antes das eleições presidenciais de 2018.

Em completo desrespeito ao poder eleitoral, decidiram juramentar deputados que foram julgados e condenados por compra de votos e outros crimes, levando com que o Tribunal Supremo de Justiça declarasse a Assembleia Nacional em desacato. Mesmo sabendo que bastava afastar os deputados ilegalmente juramentados, a oposição preferiu entrar em conflito também com o poder judicial. Não bastando sua atuação completamente a margem da constituição, ainda começaram a incentivar manifestações violentas por todos o país, inclusive pagando a manifestantes violentos para atacarem escolas, hospitais e qualquer instituição vinculada ao governo chavista.

Diante de tão complexa conjuntura o presidente convocou, usando das atribuições que lhe concede a atual Constituição da República Bolivariana de Venezuela, uma Assembleia Nacional Constituinte para que, através da democracia se possam resolver os graves problemas que enfrenta a Venezuela. Repetidas vezes Nicolás Maduro e diversos outros representantes do governo convidaram a oposição a participar, e a mesma se recusou.

Cabe recordar, nas últimas semanas diversos líderes da oposição como Capriles Radonski, Freddy Guevara e Lilian Tintori entre outros discursavam para que as pessoas fossem comprar comida, e estivessem prontas para não sair de casa nos dias prévios a Constituinte e para que 30 de julho realizassem “trancazos”, com objetivo de impedir as pessoas de votar. Sendo que Tintori, pouco depois de dar declarações pedindo para que as pessoas saíssem a protestar, embarcou para Miami e sequer estava na Venezuela no dia das eleições para Constituinte.

Segundo informações, nos estados Lara, Táchira e Mérida houve mais casos de violência, com ataques a seções eleitorais e com tentativas por parte dos opositores armados de trancar ruas e impedir os eleitores de participarem do processo eleitora, ataques que provocaram mortes de pelo menos um guarda nacional, um candidato chavista a Constituinte e vários feridos. Muitas pessoas não puderam exercer seu direito ao voto, e mesmo assim o chavismo fez mais de 8 milhões de votos, sendo uma de suas maiores votações, nos 21 processos eleitorais realizados desde 1998.

A história do tempo presente deveria ter ensinado a oposição atual, que foi governo por 40 anos (1958-1998), a importância de defender a democracia como um alicerce de sua prática. Enquanto ela fosse propositiva, em um congresso no qual tem maioria poderia chegar a conquistar a hegemonia entre os venezuelanos. Ao se perder nos caminhos da violência, voltou a ser refém dos interesses estadunidenses do início do século vinte, adotando um discurso incapaz de alcançar a população. O chavismo, mesmo com dificuldades, continua a governar e agradece os repetidos erros da direita venezuelana.

 

Douglas Finger é graduado em História pela Universidade de Caxias do Sul(UCS) e Mestrando em História da América contemporânea pela ¨Universidad Central de Venezuela¨(UCV) em Caracas.

Tulio Ribeiro

Túlio Ribeiro é graduado em Ciências econômicas pela UFBA,pós graduado em História Contemporânea pela IUPERJ,Mestre em História Social pela USS-RJ e doutorando em ¨Ciências para Desarrollo Estrategico¨ pela UBV de Caracas -Venezuela

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22 comentários

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Álvaro Nascimento

19 de outubro de 2017 às 10h19

Penúltimo parágrafo:
“Segundo informações, nos estados Lara, Táchira e Mérida houveram mais casos de violência …”.
Correto:
“Segundo informações, nos estados Lara, Táchira e Mérida HOUVE mais casos de violência …”

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brito

10 de agosto de 2017 às 17h19

A vontade de votar pra não cair na mão neo liberal

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Luciene

09 de agosto de 2017 às 18h20

Informativo e didático

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Hilton

03 de agosto de 2017 às 14h17

Então vai passar a vida cobrando.
EUA quer ser dono do mundo

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Kaila

03 de agosto de 2017 às 10h59

Eu fico imaginando se Deus cobrar todo mal que
EUA fez com América latina.

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Miguel

03 de agosto de 2017 às 01h44

Quanta vontade de votar,os facistas vão falar que obrigaram

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André

02 de agosto de 2017 às 23h49

Eu vejo como a notícia é deturpada na globo.,a tintori
Nem ficou pra eleição..

Acelera maduro

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Fernanda Seixas

02 de agosto de 2017 às 16h06

O problema é que, não fossem veículos como O Cafezinho e pessoas como os professores, não teríamos informação isenta do que acontece na Venezuela. Fica até difícil ter opinião de fora. Uma coisa é certa, como diria Brizola, sempre que tiver dúvidas sobre que posição tomar, basta saber de que lado está a Rede Globo e tomar a posição contrária. A máxima vale para os EUA também!

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Hilton

02 de agosto de 2017 às 13h56

Os Estados unidos não tem ética para cobrar ninguém
Maduro dei um show em estratégia.
O povo sai ganhando se livrar desta direita terrorista.
Parabéns ao Cafezinho por postar texto com pessoal da Venezuela.
Está foto diz tudo.
.

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Toma essa

02 de agosto de 2017 às 12h51

“We know, without any doubt, that the turnout of the recent election for a national constituent assembly was manipulated,” Antonio Mugica, the chief executive of Smartmatic, said in London.

Está aí na fuça dos babacas manipulados…

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    Camila

    02 de agosto de 2017 às 16h49

    Olha o vassalo do império

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    Kaila

    03 de agosto de 2017 às 12h04

    Já foi desmentido ,esta turma de notícias falsas

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    Hilton

    06 de agosto de 2017 às 23h44

    Mais da turma do Bolsonaro

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r

02 de agosto de 2017 às 11h53

permita discordar do articulista. afinal, aqui mesmo no Brasil, nós temos um governo usurpador que nós identificamos como sendo ditatorial, a despeito de estar usando os princípios constitucionais.

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    Evandro

    02 de agosto de 2017 às 12h19

    A diferença é que um usurpador e golpista ,e na Venezuela é eleito que convocou eleição

    Responder

Camila

02 de agosto de 2017 às 11h35

Os Estados unidos não praticam respeito a democracia e contam com lacaios na Venezuela e na elite Brasileira.
Viva a política social da Venezuela.
Uma eleição inatacável.

Responder

    Hilton

    04 de agosto de 2017 às 00h10

    Concordo, está aí a verdade

    Responder

Viviane

02 de agosto de 2017 às 11h24

Os EUA são os que fomentam as ditaduras para ganhos próprios.
Interessante esta análise.
Não vai dar no pig.
Só aqui.

Responder

Luiz Carlos P. Oliveira

02 de agosto de 2017 às 11h10

Brilhante análise do professor. Mas a midia brasileira e mundial, que é contra o Chavismo, não noticia o que de fato acontece na Venezuela. Por isso é compreensível que ignorantes políticos tenham o chavão costumeiro “vai prá Venezuela, comunista”. Nada pode ser tão estúpido.

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    Camila

    02 de agosto de 2017 às 11h37

    Concordo .

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    Evandro

    02 de agosto de 2017 às 11h41

    E ainda tem vassalo dos EUA que criticam a Venezuela.

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