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Pedro Cardoso, a greve da EBC e o desmonte da comunicação pública

Por Theo Rodrigues

06 de dezembro de 2017 : 11h50

Por Theófilo Rodrigues, publicado originalmente no Jornal Bafafá de dezembro.

Milhares de greves surgem e desaparecem todos os anos com a mesma rapidez com que direitos trabalhistas e empregos são cortados, e sem que a sociedade em geral fique sabendo.

Para termos ideia do montante, em 2016 o Sistema de Acompanhamento de Greves do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (SAG-DIEESE) registrou 2.093 paralisações de trabalhadores em todo o país. E por que a sociedade não ficou sabendo? A razão é simples: como a televisão aberta brasileira vive sob a égide de um oligopólio que não preza pela pluralidade e diversidade, aquilo que não aparece nos 6 canais de concessão pública simplesmente não existe.

Em teoria, a tv pública – que em nosso país atende pelo nome de TV Brasil – deveria cumprir esse papel de atuar onde o mercado privado não tem empenho. Movimentado pelo interesse público e não pelos patrocínios comerciais, o sistema público de televisão deveria ser lócus privilegiado para essa agenda em torno da defesa de direitos. Mas e quando a greve acontece na própria tv pública? Aí lascou-se… a não ser que surja um Pedro Cardoso…

O ator Pedro Cardoso fez o que muita gente gostaria de ter feito, mas nunca teve a oportunidade. Convidado para o tradicional Sem Censura da TV Brasil em fins de novembro, Cardoso abandonou o programa assim que começou a entrevista.

“Quando eu cheguei aqui, encontrei uma empresa em greve. Diante do governo que está governando o Brasil, eu tenho a convicção de que as pessoas que estão fazendo a greve estão provavelmente cobertas de razão. Eu não vou falar do assunto do qual vim falar”, declarou para o espanto da apresentadora e dos demais convidados. Cardoso retirou-se e juntou-se aos grevistas que estavam na porta da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

A atitude corajosa do ator foi transmitida ao vivo e fez com que muitos desatentos descobrissem a greve dos trabalhadores da EBC. Como consequência, a TV Brasil determinou que o Sem Censura deixasse de ser ao vivo. Ou seja, em vez de resolver os problemas apontados pela greve, a direção da empresa resolveu impedir que outros artistas tomassem atitudes semelhantes. Curioso para um programa chamado Sem Censura…

A greve da EBC é um sintoma da doença de morte que acometeu a comunicação pública no país desde o impeachment em 2016. Sucateamento da empresa, esvaziamento político, falta de lastro social e censura são apenas alguns dos resultados derivados do impeachment que hoje os trabalhadores da empresa reclamam.

No passado recente, houve um sonho de que uma empresa de fato pública, pudesse ser dirigida pela sociedade civil através de um conselho consultivo eleito periodicamente e não pelos governos de plantão. Aos trancos e barrancos, era isso que tentava-se construir desde o surgimento da TV Brasil em 2007. O sonho, entretanto, foi suspenso momentaneamente com o impeachment do ano passado.

Independente de aparecer nas telinhas, greves ocorrem a todo momento. Historicamente, em todo o mundo, é através delas que as sociedades melhoram. Noam Chomsky disse certa vez que “existe uma força organizada que, apesar de todas as imperfeições, sempre se manteve na linha de frente dos esforços para melhorar a vida da população. Ela é formada pelas organizações sindicais”. E ele estava certo.

Que outras personalidades como Pedro Cardoso possam ajudar a furar o bloqueio do oligopólio e mostrar que tem muita gente por aí disposta a batalhar pelas melhorias da sociedade.

Theófilo Rodrigues é professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ.

Theo Rodrigues

Theo Rodrigues é professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ.

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