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Necrópole de baleias com 5 milhões de anos emerge das trevas do Oceano Índico pelas mãos da China

0 Comentários🗣️🔥 Uma paisagem de ossos colossal, silenciosa e tão antiga quanto os primeiros hominídeos, acaba de ser revelada no fundo do Oceano Índico. Cientistas chineses descobriram o maior, mais profundo e mais antigo cemitério de baleias do planeta, um corredor de esqueletos que se estende por 1.200 quilômetros a oeste da Austrália, com fósseis […]

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Esqueleto de baleia no fundo do Oceano Índico, parte da necrópole descoberta por cientistas chineses. (Foto: france24.com)
Esqueleto de baleia no fundo do Oceano Índico, parte da necrópole descoberta por cientistas chineses. (Foto: france24.com)

Uma paisagem de ossos colossal, silenciosa e tão antiga quanto os primeiros hominídeos, acaba de ser revelada no fundo do Oceano Índico. Cientistas chineses descobriram o maior, mais profundo e mais antigo cemitério de baleias do planeta, um corredor de esqueletos que se estende por 1.200 quilômetros a oeste da Austrália, com fósseis que remontam a 5,3 milhões de anos.

A dimensão da necrópole submarina deixou os pesquisadores ‘atônitos’, segundo o autor principal do estudo, Xiaotong Peng, da Academia Chinesa de Ciências. ‘Descobrir uma necrópole dessa escala foi completamente inesperado: o tamanho da distribuição, a profundidade e a amplitude de idades estavam muito além de tudo que havíamos imaginado’, afirmou Peng à agência AFP, em detalhes publicados pela France 24.

O inventário, revelado na prestigiosa revista Nature Communications em 29 de março de 2024, soma cerca de 500 esqueletos de baleias. Entre eles, uma espécie extinta nunca antes identificada emerge do abismo, adicionando um capítulo intrigante à paleobiologia marinha. As carcaças repousam em profundidades que podem atingir até 7.000 metros, ao longo da enigmática Zona Diamantina.

Este santuário de morte submarina, paradoxalmente, alimenta uma explosão de vida nas trevas abissais. Cada ‘queda de baleia’ funciona como um oásis de matéria orgânica que sustenta ecossistemas inteiros, densamente povoados no leito marinho, desafiando a noção de um oceano profundo estéril.

A bordo do submersível tripulado Fendouzhe, uma maravilha da engenharia chinesa, os pesquisadores realizaram 32 mergulhos ao longo de 2023. Através das robustas vigias, mapearam a vastidão óssea e coletaram amostras precisas com braços robóticos, desvendando segredos de uma era geológica remota.

O que viram pelas lentes da ciência foi uma fauna que muitos acreditam ser totalmente nova para a humanidade: águas-vivas translúcidas flutuando em silêncio, vermes tubulares que se estendem como tentáculos antigos, caramujos, crustáceos, estrelas-do-mar quebradiças e moluscos bivalves prosperando ao redor das costelas petrificadas. Uma dança macabra de vida sobre os vestígios da morte milenar.

Peng Zhou, coautor do trabalho e figura proeminente na equipe de exploração, descreveu o encontro como ‘uma experiência verdadeiramente incrível’. Os ecossistemas vibrantes, segundo ele, ofereceram uma perspectiva completamente diferente sobre um fundo oceânico que se imaginava, até então, escuro, frio e desprovido de vida em sua vasta extensão.

A descoberta ecoa o espanto que tomou a oceanografia global em 1977, quando fontes hidrotermais fervilhantes de vida foram flagradas pela primeira vez. Aquela revelação rompeu decisivamente com a ideia secular de que o mar profundo era um deserto biológico, pavimentando o caminho para a compreensão da resiliência da vida em condições extremas.

Estimativas calculadas a partir da densidade de ossos, a maioria pertencente a baleias-de-bico, indicam que pode haver mais de dez milhões de carcaças dispersas por toda a região inexplorada. Este número alucinante sugere uma escala de mortalidade e deposição orgânica que desafia a compreensão humana, redefinindo nossos limites de conhecimento sobre a vida e a morte nos oceanos.

Os tecidos moles e lipídios aprisionados nessa quantidade de matéria orgânica representam cerca de 6,7 milhões de toneladas de carbono sequestrado — uma reserva de alimento que rivaliza, em sua generosidade energética, com as chaminés vulcânicas submarinas. Para Xiaotong Peng, essa montanha de carbono funciona como uma ponte ecológica, conectando comunidades de fontes hidrotermais e de exsudação fria que, de outra forma, permaneceriam isoladas nas planícies abissais, criando uma teia subterrânea de interconexões biológicas.

Os cientistas chineses levantam algumas hipóteses para explicar a concentração anômala de mortes naquele corredor específico, um enigma que instiga a imaginação. A área parece ser uma zona de alimentação intensa, atraindo estes gigantes marinhos para suas águas abundantes. Além disso, uma trincheira em forma de V pode agir como um funil geológico, arrastando as carcaças até o fundo ao longo de milhões de anos de evolução tectônica e correntes profundas, perpetuando o acúmulo de memórias petrificadas.

‘Ainda não sabemos o suficiente sobre a consciência das baleias’, admite a pesquisadora Amy Baco-Taylor, da Universidade Estadual da Flórida, especialista em quedas de baleia, que classificou o achado de ‘realmente estranho’ e ‘notável’. Sua perplexidade ressalta o mistério intrínseco a essas criaturas e ao seu ciclo de vida e morte nas profundezas insondáveis.

Craig Smith, oceanógrafo da Universidade do Havaí, que descobriu a primeira carcaça de baleia no fundo do mar em 1987, mas não participou deste estudo chinês, disse à AFP que a descoberta é ‘extremamente excitante’. Para ele, a quantidade imensa de fósseis documentados, incluindo a nova espécie ainda sem nome formal, é ‘verdadeiramente espantosa e de importância fundamental para a compreensão da evolução das baleias e sua distribuição ao longo do tempo geológico’, reescrevendo a história desses colossos marinhos.

O paleontólogo americano Stephen Godfrey foi ainda mais cinematográfico em sua análise. Comparou o achado único a um ‘trailer do primeiro filme de uma série épica’, clamando por novas expedições de submersíveis para vasculhar outros cemitérios submarinos espalhados pelo globo. Evidências fósseis obtidas em arrastos já sugerem que jazidas semelhantes podem existir ao largo da África do Sul, da Península Ibérica e das gélidas Ilhas Crozet. ‘Espero que muitos desses blockbusters ainda estejam por vir’, escreveu ele num artigo vinculado na Nature.

A necrópole do Índico não apenas reescreve capítulos da paleobiologia marinha, mas também escancara uma disputa silenciosa pelo domínio das profundezas e do conhecimento, onde a presença chinesa se afirma com tecnologia de ponta como o submersível Fendouzhe, capaz de atingir os abismos mais remotos do planeta. Enquanto o Norte Global debate incansavelmente as regras para a mineração submarina, cobiçando os recursos do leito oceânico, Pequim colhe os louros de revelar ao mundo as catedrais de ossos que repousam sob as ondas — e o carbono que elas aprisionam na escuridão perpétua, oferecendo uma lição de exploração científica contra a exploração extrativista.

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